MEDITAÇÕES PARA EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

- 12° DIA -

O pecado dos religiosos e dos sacerdotes

Parece que temos de doer-nos, sobretudo, dos pecados daqueles que estão no estado de santidade e perfeição; porque segundo se diz em Jeremias: O meu coração está feito em pedaços (Jr 23, 9); e também: Até o profeta e o sacerdote se corromperam, e mesmo na minha casa encontrei os males que eles lá cometeram (Jr 23, 11). Logo, os religiosos e os outros que estão em estado de perfeição pecam mais gravemente em igualdade de circunstâncias.

1. Porque o pecado cometido pelos religiosos pode ser mais grave que o pecado da mesma espécie cometido por seculares, de três modos:

Primeiro, se é contra o voto de religião, por exemplo, quando o religioso fornica ou rouba, porque fornicando age contra o voto de castidade, e roubando contra o voto de pobreza, e não somente contra o preceito da lei divina.

Segundo, peca-se por desprezo, pois por isto parece ser mais ingrato aos benefícios divinos, pelos quais foi elevado ao estado de perfeição. Como diz o Apóstolo, maiores tormentos merecerá o que tiver calcado aos pés o Filho de Deus, tiver considerado como profano o sangue da aliança, com que foi santificado, e tiver ultrajado o Espírito da graça! (Hb 10, 29). Do qual se queixa também o Senhor: Tu, que eu amo, que tens que fazer na minha casa? Velhacarias? (Jr 11, 15).

Terceiro, o pecado dos religiosos pode ser maior pelo escândalo, pois muitos têm postos nele os seus olhos. Por isso diz o Profeta Jeremias: Aos profetas de Jerusalém vi coisas horríveis: o adultério, a mentira; fortificaram as mãos dos malvados, para que nenhum se convertesse da sua maldade (Jr 23, 14).

II. Alguém peca por desprezo, quando sua vontade se resiste a submeter-se à disposição da lei ou da regra; e por isso procede a agir contra a lei ou a regra. Mas quando, pelo contrário, é induzido por alguma causa particular, como pela concupiscência ou a ira, a executar algo contra os estatutos da lei ou da regra, não peca por desprezo, senão por outra causa. Mesmo quando freqüentemente reitere o pecado pela mesma causa ou por outra, como diz também Santo Agostinho, nem todos os pecados se cometem por desprezo ou soberba.

A freqüência do pecado predispõe, no entanto, ao desprezo, como se lê nos Provérbios: O ímpio, depois de ter caído no abismo dos pecados, tudo despreza (Pr 18, 3).

-S. Th. IIª IIæ, q. 186, a. 10

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