MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

31 DE JULHO

Necessidade de ter o coração firmado em Deus pela graça habitual ou santificante para evitar os pecados

1. No estado de natureza corrompida necessita o homem da graça habitual que cura a natureza para abster-se totalmente do pecado.

Essa cura se verifica primeiro na vida presente quanto ao espírito, mesmo antes que o apetite carnal esteja todavia reparado totalmente. Por isso o Apóstolo em pessoa diz do homem reparado: Eu mesmo sirvo à lei de Deus com o espírito; e sirvo à lei do pecado com a carne. (Rm 7, 25).

Nesse estado pode o homem abster-se de todo pecado mortal, que consiste na razão, mas não de todo pecado venial, por causa da corrupção do apetite inferior da sensualidade, cujos movimentos podem reprimir-se um a um pela razão, e disto provém que tenham razão de pecado e de voluntário; ainda que não todos, pois quando se esforça por resistir a um, talvez surja outro, e também porque a razão não pode estar sempre alerta para evitar estes movimentos.

II. Do mesmo modo, antes que a razão do homem, na qual está o pecado mortal, seja reparada pela graça santificante, pode evitar cada um dos pecados mortais durante algum tempo, porque não é necessário que peque continuamente em ato; porém não pode ser que permaneça durante muito tempo sem pecado mortal, pelo qual diz São Gregório: "O pecado que nos é apagado prontamente pela penitência, atrai a outro por seu próprio peso".

Porque assim como o apetite inferior deve estar submetido à razão, igualmente esta deve submeter-se a Deus e pôr n'Ele o fim de sua vontade. E pois é necessário que todos os atos humanos sejam regulados pelo fim, como pelo ditame da razão devem estar regulados os movimentos do apetite inferior; infere-se daqui que, não estando a razão do homem totalmente sujeita a Deus, é lógico que ocorram muitas desordens nos mesmos atos da razão, porque como o homem não tem afirmado seu coração em Deus, de modo que não queira separar-se d'Ele para conseguir algum bem ou para evitar algum mal, ocorrem muitas ações desordenadas. Para conseguir ou evitar estas, o homem se aparta de Deus desprezando seus preceitos, e assim peca mortalmente; sobretudo porque "nas coisas repentinas o homem age segundo um fim preconcebido e conforme com o hábito pré-existente", se bem é certo que pela premeditação de sua razão o homem pode agir algo fora do fim pré-concebido e da inclinação do hábito.

Mas como o homem não pode insistir sempre na premeditação, não pode suceder que permaneça muito tempo sem agir segundo a conveniência de sua vontade desordenada com respeito a Deus, se a graça não o devolve prontamente à ordem devida.

-S. Th. Iª IIæ, q. 109, a. 8

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