**Análise Marxista do Islamismo**
A análise marxista do islamismo — entendido aqui não apenas como religião, mas como fenômeno social, político e histórico — requer examinar suas relações com as estruturas de classe, o desenvolvimento das forças produtivas e a luta contra (ou a reprodução de) sistemas de dominação. A perspectiva marxista busca compreender como o islamismo, em suas diversas formas, serve como **superestrutura ideológica** que reflete e influencia as condições materiais de sociedades específicas.
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### **1. Contexto Histórico e Origens Sociais**
O islamismo surgiu no século VII d.C. na Arábia pré-islâmica, marcada por:
- **Tribalismo e desigualdade**: Sociedades fragmentadas em tribos, com conflitos por recursos e dominação de elites mercantis em cidades como Meca.
- **Expansão comercial**: Rotas de comércio entre Oriente e Ocidente geraram acumulação de riqueza nas mãos de uma elite, enquanto a maioria vivia em condições precárias.
O Profeta Maomé e a primeira comunidade muçulmana (*Ummah*) desafiaram essas estruturas ao:
- Condenar a **usura** e a exploração econômica (Corão 2:275).
- Propor igualdade entre tribos e classes (ex.: libertação de escravos).
- Centralizar poder político-religioso, rompendo com o clientelismo tribal.
Marxistas como **Ernest Mandel** viram nisso um exemplo de como movimentos religiosos podem expressar **lutas de classes embrionárias** em contextos pré-capitalistas.
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### **2. Expansão e Institucionalização de Classe**
Após a morte de Maomé, o Islã expandiu-se rapidamente sob os califados **Umaíada** e **Abássida**, consolidando-se como **ideologia de Estado**:
- **Legitimação do poder**: A noção de *califado* (sucessão de Maomé) serviu para justificar hierarquias políticas, muitas vezes reproduzindo dinastias tribais.
- **Integração de elites**: A conversão de tribos e governantes permitiu a cooptação do Islã por classes dominantes, que adaptaram a *sharia* (lei islâmica) para regular propriedade, herança e trabalho.
- **Escravidão e feudalismo**: Nas sociedades islâmicas medievais, a escravidão (em especial, a servidão doméstica) e relações de produção semifeudais coexistiram com a proibição corânica de juros (*riba*), evidenciando contradições entre doutrina e prática.
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### **3. Islamismo, Capitalismo e Colonialismo**
A interação entre o Islã e o capitalismo moderno ocorreu em dois momentos críticos:
1. **Declínio do Império Otomano (século XIX)**: A penetração europeia no Oriente Médio, via colonialismo e capital financeiro, gerou resistência cultural e religiosa. Movimentos como o **Wahhabismo** (Arábia Saudita) surgiram como reação à influência ocidental, mesclando puritanismo teológico e conservadorismo social.
2. **Pós-colonialismo e neoliberalismo**: Após a descolonização, regimes no Egito, Irã e outros países adotaram discursos islâmicos para legitimar políticas econômicas alinhadas ao capitalismo global (ex.: privatizações no Egito de Sadat).
O **islamismo político** do século XX (Irmandade Muçulmana, Jihad Islâmica, Hezbollah) emerge como resposta à:
- **Exploração neoimperialista**: Controle ocidental sobre petróleo, apoio a ditaduras (ex.: Shah do Irã) e intervenções militares (Afeganistão, Iraque).
- **Crise do Estado-nação árabe**: Fracasso de projetos secularistas (nasserismo, baathismo) em combater a pobreza e a dependência.
Autores como **Hamid Dabashi** argumentam que o islamismo político combina **resistência anti-imperialista** com uma moral conservadora que reforça relações patriarcais e de classe.
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### **4. Imperialismo e Luta de Classes**
O papel do Islã no contexto imperialista é contraditório:
- **Instrumento de resistência**: Movimentos como o **Hezbollah** (Líbano) e o **Hamas** (Palestina) usam a linguagem islâmica para mobilizar massas contra a opressão sionista e estadunidense.
- **Ferramenta de dominação**: Potências ocidentais instrumentalizaram grupos islâmicos (ex.: Taliban no Afeganistão durante a Guerra Fria) para combater inimigos geopolíticos, reforçando a lógica do "inimigo do meu inimigo".
A **Guerra ao Terror** pós-11/9 intensificou a exploração do Islã como **bode expiatório ideológico**:
- Estereótipos de "barbárie islâmica" justificam intervenções militares e islamofobia estrutural.
- A narrativa do "choque de civilizações" (Samuel Huntington) mascara conflitos materiais (ex.: controle de recursos) sob o véu de diferenças culturais.
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### **5. Contradições Internas: Reforma vs. Revolução**
O islamismo abriga correntes que refletem diferentes projetos de classe:
- **Islamismo conservador**: Apoiado por elites sauditas e do Golfo, promove uma visão neoliberal-islâmica, usando a religião para legitimar desigualdade e repressão (ex.: Arábia Saudita).
- **Islamismo revolucionário**: Correntes como o **Jihad Islâmico Egípcio** ou o **Taleban** (em suas origens) articulam críticas à exploração, mas muitas vezes reproduzem hierarquias patriarcais e sectárias.
- **Correntes progressistas**: Pensadores como **Ali Shariati** (Irã) e **Jamal al-Din al-Afghani** tentaram sintetizar Islã e socialismo, defendendo reformas radicais sem abandonar a espiritualidade.
A **Revolução Iraniana de 1979** ilustra essas tensões:
- Inicialmente, uniu classes contra o Shah, mas a teocracia xiita consolidada após a revolução suprimiu movimentos de esquerda e sindicatos, reforçando o controle clerical sobre a economia.
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### **6. Crítica da Ideologia Islâmica**
Do ponto de vista marxista, a ideologia islâmica cumpre funções contraditórias:
- **Falsa consciência**: Promete justiça no além (jannah) para mitigar a exploração terrena, desviando a luta de classes (ex.: fatalismo diante da pobreza).
- **Universalismo abstrato**: A ideia de *Ummah* (comunidade global de fiéis) mascara desigualdades materiais entre países muçulmanos (ex.: Qatar vs. Afeganistão).
- **Moral sexual e patriarcado**: A ênfase na "pureza" feminina e na família tradicional serve para reproduzir a divisão sexual do trabalho e controlar a força de trabalho.
Contudo, elementos do Islã podem ser **reapropriados criticamente**:
- A proibição da usura (*riba*) inspirou críticas ao capitalismo financeiro (ex.: bancos islâmicos).
- A noção de *zakat* (imposto para os pobres) sugere um princípio redistributivo, embora historicamente cooptado por elites.
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### **Conclusão: Entre Resistência e Acomodação**
O islamismo, como fenômeno histórico, não é monolítico:
- **Instrumento de dominação**: Quando serve para legitimar elites, reprimir dissidências ou mascarar contradições capitalistas.
- **Força emancipatória**: Quando articula lutas contra a opressão imperialista e de classe, ainda que limitada por seu caráter reformista ou sectário.
Para o marxismo, a superação do Islã como ideologia exigiria **transformações materiais radicais**:
- Acesso equitativo a recursos, educação e saúde.
- Fim do imperialismo e das ditaduras sustentadas por potências ocidentais.
- Autonomia das lutas populares frente a cooptação religiosa.
Enquanto isso, o islamismo continuará a ser um campo de batalha ideológica, refletindo as contradições de sociedades divididas entre tradição e modernidade, exploração e emancipação.