**Análise Marxista do Cristianismo**

A análise marxista do cristianismo examina sua relação com as estruturas de classe, a ideologia dominante e as condições materiais das sociedades em que se desenvolveu. Baseada nos conceitos de **luta de classes**, **alienação**, **ideologia** e **superestrutura**, essa perspectiva busca compreender como o cristianismo, como fenômeno histórico, pode servir tanto para perpetuar quanto para questionar relações de dominação. Abaixo, uma síntese estruturada:

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### **1. Contexto Histórico e Origens**

O cristianismo emergiu no século I d.C., em um contexto de **opressão imperial romana** e estratificação social (escravos, plebeus, elites). Inicialmente, atraiu setores marginalizados (escravos, pobres urbanos) ao prometer **salvação espiritual** e igualdade no além. Marx, em *"A Ideologia Alemã"*, via nisso um exemplo de como a religião atua como **"ópio do povo"**: uma ilusão que ameniza a miséria material, desviando a atenção da transformação terrena.

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### **2. Institucionalização e Poder de Classe**

Com a conversão de Constantino (século IV), o cristianismo tornou-se **religião de Estado**, alinhando-se à aristocracia romana. A Igreja passou a reproduzir a hierarquia feudal:

- **Legitimação do poder**: A ideia de "ordem divina" justificava a dominação (ex.: direito divino dos reis).

- **Controle ideológico**: Doutrinas como a submissão às autoridades (Romanos 13:1) reforçavam a aceitação passiva das desigualdades.

- **Acúmulo de riqueza**: A Igreja medieval tornou-se grande proprietária de terras, integrando-se à classe dominante.

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### **3. Reforma e Ascensão do Capitalismo**

A Reforma Protestante (século XVI) refletiu mudanças nas relações de produção:

- **Calvinismo e ética do trabalho**: Max Weber, em *"A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo"*, associou a predestinação calvinista ao individualismo e à acumulação capitalista. Do ponto de vista marxista, isso serviu para **naturalizar a exploração** ao vincular sucesso econômico à "graça divina".

- **Aliança com a burguesia**: Lutero e outros reformadores criticaram a Igreja feudal, mas seus ensinamentos adaptaram-se às necessidades da classe ascendente (burguesia mercantil).

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### **4. Cristianismo e Imperialismo**

Durante o colonialismo, o cristianismo foi instrumento de dominação:

- **Missões religiosas** acompanharam a expansão europeia, convertendo povos colonizados e impondo valores eurocêntricos.

- **Civilização vs. Barbárie**: A ideologia cristã justificava a exploração colonial como "missão civilizatória", reforçando a hierarquia racial.

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### **5. Contradições e Resistência**

Embora cooptado pela elite, o cristianismo também inspirou movimentos de resistência:

- **Teologia da Libertação**: Na América Latina (década de 1960), pensadores como Gustavo Gutiérrez reinterpretaram o cristianismo a partir da luta contra a opressão de classes, alinhando-se ao marxismo.

- **Crítica à alienação**: Marx via na religião uma **projeção alienada** das potencialidades humanas (ex.: a ideia de "Deus" como inversão da autonomia coletiva). A emancipação, para ele, exigiria a superação dessa ilusão.

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### **6. Crítica à Ideologia**

O cristianismo, como parte da **superestrutura**, reflete e sustenta as relações de produção vigentes:

- **Falsa consciência**: Promete recompensas no além para desmobilizar lutas terrenas.

- **Universalismo abstrato**: Ignora diferenças materiais (ex.: "todos são iguais perante Deus" em sociedades desiguais).

- **Moral conservadora**: Condena práticas (como aborto ou sexualidade dissidente) que ameaçam a ordem patriarcal e capitalista.

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### **Conclusão: Entre Opium e Práxis**

Para o marxismo, o cristianismo é **ambivalente**:

- **Instrumento de dominação**: Quando serve para legitimar hierarquias e desviar a luta de classes.

- **Força emancipatória**: Quando reinterpretado por movimentos que, usando sua linguagem, desafiam a exploração (ex.: Teologia da Libertação).

Contudo, Marx insistia que a emancipação humana exigiria a **"abolir a condição que necessita da ilusão"** – ou seja, transformar as condições materiais que tornam a religião necessária.

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**Análise Marxista do Islamismo**

A análise marxista do islamismo — entendido aqui não apenas como religião, mas como fenômeno social, político e histórico — requer examinar suas relações com as estruturas de classe, o desenvolvimento das forças produtivas e a luta contra (ou a reprodução de) sistemas de dominação. A perspectiva marxista busca compreender como o islamismo, em suas diversas formas, serve como **superestrutura ideológica** que reflete e influencia as condições materiais de sociedades específicas.

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### **1. Contexto Histórico e Origens Sociais**

O islamismo surgiu no século VII d.C. na Arábia pré-islâmica, marcada por:

- **Tribalismo e desigualdade**: Sociedades fragmentadas em tribos, com conflitos por recursos e dominação de elites mercantis em cidades como Meca.

- **Expansão comercial**: Rotas de comércio entre Oriente e Ocidente geraram acumulação de riqueza nas mãos de uma elite, enquanto a maioria vivia em condições precárias.

O Profeta Maomé e a primeira comunidade muçulmana (*Ummah*) desafiaram essas estruturas ao:

- Condenar a **usura** e a exploração econômica (Corão 2:275).

- Propor igualdade entre tribos e classes (ex.: libertação de escravos).

- Centralizar poder político-religioso, rompendo com o clientelismo tribal.

Marxistas como **Ernest Mandel** viram nisso um exemplo de como movimentos religiosos podem expressar **lutas de classes embrionárias** em contextos pré-capitalistas.

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### **2. Expansão e Institucionalização de Classe**

Após a morte de Maomé, o Islã expandiu-se rapidamente sob os califados **Umaíada** e **Abássida**, consolidando-se como **ideologia de Estado**:

- **Legitimação do poder**: A noção de *califado* (sucessão de Maomé) serviu para justificar hierarquias políticas, muitas vezes reproduzindo dinastias tribais.

- **Integração de elites**: A conversão de tribos e governantes permitiu a cooptação do Islã por classes dominantes, que adaptaram a *sharia* (lei islâmica) para regular propriedade, herança e trabalho.

- **Escravidão e feudalismo**: Nas sociedades islâmicas medievais, a escravidão (em especial, a servidão doméstica) e relações de produção semifeudais coexistiram com a proibição corânica de juros (*riba*), evidenciando contradições entre doutrina e prática.

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### **3. Islamismo, Capitalismo e Colonialismo**

A interação entre o Islã e o capitalismo moderno ocorreu em dois momentos críticos:

1. **Declínio do Império Otomano (século XIX)**: A penetração europeia no Oriente Médio, via colonialismo e capital financeiro, gerou resistência cultural e religiosa. Movimentos como o **Wahhabismo** (Arábia Saudita) surgiram como reação à influência ocidental, mesclando puritanismo teológico e conservadorismo social.

2. **Pós-colonialismo e neoliberalismo**: Após a descolonização, regimes no Egito, Irã e outros países adotaram discursos islâmicos para legitimar políticas econômicas alinhadas ao capitalismo global (ex.: privatizações no Egito de Sadat).

O **islamismo político** do século XX (Irmandade Muçulmana, Jihad Islâmica, Hezbollah) emerge como resposta à:

- **Exploração neoimperialista**: Controle ocidental sobre petróleo, apoio a ditaduras (ex.: Shah do Irã) e intervenções militares (Afeganistão, Iraque).

- **Crise do Estado-nação árabe**: Fracasso de projetos secularistas (nasserismo, baathismo) em combater a pobreza e a dependência.

Autores como **Hamid Dabashi** argumentam que o islamismo político combina **resistência anti-imperialista** com uma moral conservadora que reforça relações patriarcais e de classe.

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### **4. Imperialismo e Luta de Classes**

O papel do Islã no contexto imperialista é contraditório:

- **Instrumento de resistência**: Movimentos como o **Hezbollah** (Líbano) e o **Hamas** (Palestina) usam a linguagem islâmica para mobilizar massas contra a opressão sionista e estadunidense.

- **Ferramenta de dominação**: Potências ocidentais instrumentalizaram grupos islâmicos (ex.: Taliban no Afeganistão durante a Guerra Fria) para combater inimigos geopolíticos, reforçando a lógica do "inimigo do meu inimigo".

A **Guerra ao Terror** pós-11/9 intensificou a exploração do Islã como **bode expiatório ideológico**:

- Estereótipos de "barbárie islâmica" justificam intervenções militares e islamofobia estrutural.

- A narrativa do "choque de civilizações" (Samuel Huntington) mascara conflitos materiais (ex.: controle de recursos) sob o véu de diferenças culturais.

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### **5. Contradições Internas: Reforma vs. Revolução**

O islamismo abriga correntes que refletem diferentes projetos de classe:

- **Islamismo conservador**: Apoiado por elites sauditas e do Golfo, promove uma visão neoliberal-islâmica, usando a religião para legitimar desigualdade e repressão (ex.: Arábia Saudita).

- **Islamismo revolucionário**: Correntes como o **Jihad Islâmico Egípcio** ou o **Taleban** (em suas origens) articulam críticas à exploração, mas muitas vezes reproduzem hierarquias patriarcais e sectárias.

- **Correntes progressistas**: Pensadores como **Ali Shariati** (Irã) e **Jamal al-Din al-Afghani** tentaram sintetizar Islã e socialismo, defendendo reformas radicais sem abandonar a espiritualidade.

A **Revolução Iraniana de 1979** ilustra essas tensões:

- Inicialmente, uniu classes contra o Shah, mas a teocracia xiita consolidada após a revolução suprimiu movimentos de esquerda e sindicatos, reforçando o controle clerical sobre a economia.

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### **6. Crítica da Ideologia Islâmica**

Do ponto de vista marxista, a ideologia islâmica cumpre funções contraditórias:

- **Falsa consciência**: Promete justiça no além (jannah) para mitigar a exploração terrena, desviando a luta de classes (ex.: fatalismo diante da pobreza).

- **Universalismo abstrato**: A ideia de *Ummah* (comunidade global de fiéis) mascara desigualdades materiais entre países muçulmanos (ex.: Qatar vs. Afeganistão).

- **Moral sexual e patriarcado**: A ênfase na "pureza" feminina e na família tradicional serve para reproduzir a divisão sexual do trabalho e controlar a força de trabalho.

Contudo, elementos do Islã podem ser **reapropriados criticamente**:

- A proibição da usura (*riba*) inspirou críticas ao capitalismo financeiro (ex.: bancos islâmicos).

- A noção de *zakat* (imposto para os pobres) sugere um princípio redistributivo, embora historicamente cooptado por elites.

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### **Conclusão: Entre Resistência e Acomodação**

O islamismo, como fenômeno histórico, não é monolítico:

- **Instrumento de dominação**: Quando serve para legitimar elites, reprimir dissidências ou mascarar contradições capitalistas.

- **Força emancipatória**: Quando articula lutas contra a opressão imperialista e de classe, ainda que limitada por seu caráter reformista ou sectário.

Para o marxismo, a superação do Islã como ideologia exigiria **transformações materiais radicais**:

- Acesso equitativo a recursos, educação e saúde.

- Fim do imperialismo e das ditaduras sustentadas por potências ocidentais.

- Autonomia das lutas populares frente a cooptação religiosa.

Enquanto isso, o islamismo continuará a ser um campo de batalha ideológica, refletindo as contradições de sociedades divididas entre tradição e modernidade, exploração e emancipação.

**Análise Marxista do Judaísmo**

A análise marxista do judaísmo requer examinar suas raízes históricas, seu papel em diferentes formações socioeconômicas e sua relação com a luta de classes, a exploração e a ideologia. O judaísmo, como religião, cultura e identidade coletiva, não é monolítico, mas seu desenvolvimento reflete adaptações a condições materiais específicas, desde as sociedades antigas até o capitalismo moderno.

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### **1. Origens Históricas e Condições Materiais**

O judaísmo surgiu no contexto de **sociedades tribais e seminômades** na região do Levante (c. 2000–1200 AEC). A transição para uma **monarquia centralizada** (como sob Saul, Davi e Salomão) e a posterior fragmentação em reinos (Israel e Judá) refletiam tensões entre elites sacerdotais, camponeses e comerciantes.

- **Lei mosaica e justiça social**: O *Torah* inclui regulamentações como o *Shmita* (ano sabático de descanso da terra) e o *Yovel* (jubileu, com redistribuição de terras), que podem ser interpretados como tentativas de mitigar a acumulação desigual (Levítico 25). Isso sugere um **compromisso com a coesão comunitária** em uma sociedade agrária vulnerável a crises.

- **Exílio e diáspora**: A destruição do Primeiro e Segundo Templos (586 AEC e 70 EC) e a dispersão dos judeus pelo Império Romano marcaram a transição para o **judaísmo rabínico**, adaptado à vida em comunidades minoritárias.

**Marx e a "questão judaica"**: Em *"Sobre a Questão Judaica"* (1843), Marx analisou o judaísmo não como religião, mas como **expressão de relações sociais mercantis**. Ele associou o "espírito do judaísmo" à práxis do comércio e do dinheiro, refletindo a ascensão do capitalismo mercantil na Europa. Porém, sua análise foi limitada por estereótipos da época e não considerou a diversidade histórica judaica.

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### **2. Judaísmo na Diáspora: Entre Marginalização e Mediação**

Durante a Idade Média e a Era Moderna, comunidades judaicas frequentemente ocuparam **papéis econômicos intermediários**, como comerciantes, artesãos, médicos e, em alguns casos, **agiotas**. Essas funções foram moldadas por **exclusões estruturais**:

- **Proibições cristãs ao empréstimo com juros** (usura) relegaram judeus a atividades estigmatizadas.

- **Guettos e perseguições** (como as expulsões da Espanha em 1492) reforçaram a coesão comunitária, mas também a vulnerabilidade.

**Função ideológica**:

- **Bode expiatório**: O anti-semitismo cristão atribuía crises econômicas a "práticas judaicas" (ex.: acusações de *deicídio* ou *controle financeiro*), desviando a ira popular das classes dominantes.

- **Legitimação do poder**: A narrativa do "pacto divino" (ex.: a aliança de Abraão) foi usada para justificar hierarquias internas (ex.: autoridade rabínica).

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### **3. Iluminismo, Emancipação e Contradições Modernas**

A **emancipação judaica** no século XIX (ex.: Revolução Francesa) prometeu igualdade civil, mas também gerou tensões:

- **Assimilação vs. identidade**: A burguesia judaica ascendeu economicamente, enquanto setores tradicionais resistiam à secularização.

- **Anti-semitismo moderno**: A reação conservadora culpou os judeus pela "decadência" do capitalismo e da modernidade (ex.: teorias de conspiração como *"Os Protocolos dos Sábios de Sião"*).

**Marxismo e judaísmo**: Pensadores judeus como **Rosa Luxemburgo** e **Leon Trotsky** rejeitaram o reducionismo de Marx sobre o judaísmo, enfatizando a **luta de classes transnacional**. Luxemburgo, por exemplo, via o sionismo como um projeto de classe média que ignorava a solidariedade com trabalhadores árabes.

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### **4. Sionismo: Nacionalismo e Contradições de Classe**

O sionismo emergiu no final do século XIX como resposta ao anti-semitismo europeu, mas sua realização (Israel, 1948) reflete **contradições de classe e imperialismo**:

- **Aliança com potências coloniais**: A Declaração Balfour (1917) e o apoio britânico ao sionismo integraram Israel ao projeto imperialista no Oriente Médio.

- **Expansão territorial e apartheid**: A colonização da Palestina reproduziu dinâmicas de **acumulação por despossessão** (ex.: expropriação de terras árabes), com a classe trabalhadora israelense (incluindo judeus mizrahim e palestinos) submetida a condições desiguais.

- **Críticas marxistas ao sionismo**: Autores como **Maxime Rodinson** e **Ilan Pappé** argumentam que o Estado de Israel serve à burguesia sionista e ao capital internacional, suprimindo lutas de classes (ex.: repressão aos kibutzim socialistas).

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### **5. Judaísmo Contemporâneo: Entre Resistência e Acomodação**

- **Judaísmo progressista**: Correntes como o **judaísmo reformista** e grupos como *Jewish Voice for Peace* articulam críticas ao sionismo e ao capitalismo, reivindicando justiça social e direitos palestinos.

- **Neoliberalismo e identidade**: A **direita religiosa israelense** (ex.: partidos como *Shas* e *Judaísmo da Torá*) combina fundamentalismo com políticas neoliberais, reforçando desigualdades.

- **Anti-semitismo estrutural**: A instrumentalização do Holocausto como justificativa para políticas israelenses obscurece a exploração capitalista global e a opressão de palestinos.

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### **6. Crítica Ideológica e Potencial Emancipatório**

- **Alienação e messianismo**: A espera por um "messias" ou redenção divina pode ser vista como **compensação pela impotência material** (ex.: esperança em um "Estado judeu" como solução para o anti-semitismo).

- **Ética profética vs. realpolitik**: Ensinos bíblicos sobre justiça (ex.: *"Deixai o órfão e a viúva"*) são frequentemente cooptados por elites, mas também inspiram movimentos radicais (ex.: rabinos anti-sionistas como **Abraham Joshua Heschel**).

- **Luta de classes no judaísmo**: A história judaica inclui revoltas contra a exploração (ex.: **Bar Kokhba**, 132 EC) e alianças com lutas universais (ex.: participação judaica em movimentos socialistas).

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### **Conclusão: Judaísmo como Campo de Batalha Ideológica**

O judaísmo, como fenômeno histórico, oscila entre:

- **Instrumento de dominação**: Quando usado para legitimar desigualdades (ex.: sionismo neoliberal) ou desviar a luta de classes (ex.: vitimização eterna).

- **Força emancipatória**: Quando sua ética é reivindicada para desafiar opressões (ex.: solidariedade judaico-palestina).

Para o marxismo, a emancipação dos judeus — e de todas as minorias — depende da **superação do capitalismo**, que alimenta o racismo, o nacionalismo e a exploração. Enquanto isso, o judaísmo permanece um espaço de contradições, onde tradição e revolução se confrontam.

**Análise Marxista do Hinduísmo**

O hinduísmo, como sistema religioso, cultural e social, é profundamente enraizado na história da Índia e reflete as contradições de classes, a divisão do trabalho e as lutas por poder que moldaram a sociedade indiana por milênios. Uma análise marxista deve examinar como o hinduísmo, como **superestrutura ideológica**, legitima ou contesta relações de produção específicas, especialmente o sistema de castas (*varna* e *jati*), e como se relaciona com o desenvolvimento do capitalismo, o colonialismo e as lutas de classes no subcontinente.

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### **1. Origens Históricas e a Criação do Sistema de Castas**

O hinduísmo emergiu a partir de práticas religiosas védicas (1500–500 AEC) e da consolidação do sistema de castas, que Marx e Engels identificaram como um **mecanismo de dominação de classe**.

- **Vedas e estratificação social**: Os textos védicos (como o *Rigveda*) dividiram a sociedade em *varnas* (brâmanes, xátrias, vaixás e sudras), justificando a hierarquia como uma ordem cósmica (*rita*).

- **Consolidação brahmânica**: A partir do período clássico (500 AEC–500 EC), textos como as *Leis de Manu* codificaram a opressão das castas inferiores e das *"pessoas sem casta"* (Dalits), atribuindo a desigualdade ao *karma* (ação em vidas passadas).

- **Função econômica**: A divisão rígida do trabalho (ex.: brâmanes como sacerdotes, sudras como servos) reforçava a **exploração sistemática** e a acumulação de riqueza pelas castas dominantes.

**Marx e Engels** viam o sistema de castas como um exemplo de **"comunidade de estamento"** (*Gemeinschaft*), onde a divisão social é naturalizada e a mobilidade é bloqueada, perpetuando a dominação.

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### **2. Hinduísmo e o Modo de Produção Asiático**

Marx analisou a sociedade pré-colonial indiana como um exemplo do **"modo de produção asiático"**, caracterizado por:

- **Propriedade comunal da terra**: Aldeias autossuficientes (*village communities*) com posse coletiva, mas controladas por castas dominantes.

- **Estado centralizado e irrigação**: A necessidade de grandes obras hidráulicas (ex.: sistemas de irrigação) concentrava poder em monarcas e burocracias, coexistindo com a fragmentação local.

- **Estagnação e exploração**: A rigidez do sistema de castas inibia inovações tecnológicas e mantinha as massas em estado de servidão disfarçada.

O hinduísmo, ao legitimar essa ordem com ideias como *dharma* (dever social fixo) e *samsara* (ciclo de reencarnações), funcionava como **ideologia dominante**, reforçando a submissão às hierarquias.

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### **3. Colonialismo, Reformas e a Reinvenção do Hinduísmo**

O colonialismo britânico (século XVIII–XX) transformou o hinduísmo em um **projeto ideológico moderno**:

- **Código de Manu e colonialismo**: Os britânicos codificaram o sistema de castas ao usar textos brahmânicos para governar indiretamente, exacerbando divisões (ex.: *Censo de 1872* categorizou castas como "raças").

- **Renascimento hindu**: Movimentos como o **Brahmo Samaj** (século XIX) tentaram "modernizar" o hinduísmo, eliminando práticas como o *sati* (cremação de viúvas), mas mantendo a estrutura de castas.

- **Hindutva e nacionalismo**: No século XX, ideólogos como **V. D. Savarkar** reinterpretaram o hinduísmo como identidade étnico-religiosa, excluindo muçulmanos e cristãos. Esse projeto serviu a elites que buscavam unificar a Índia sob uma ideologia reacionária, alinhada ao capitalismo.

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### **4. Contradições Contemporâneas: Classe, Casta e Capitalismo**

Na Índia pós-colonial, o hinduísmo coexiste com o capitalismo neoliberal, reproduzindo desigualdades:

- **Persistência da casta**: Apesar de formalmente abolida, a casta estrutura o mercado de trabalho (ex.: Dalits concentrados em empregos precários) e o acesso a recursos.

- **Hindutva e neoliberalismo**: O partido **BJP** (partido do nacionalismo hindu) combina retórica religiosa com políticas neoliberais (privatizações, desregulamentação), usando o hinduísmo para desviar a atenção da exploração de classe.

- **Lutas camponesas e adivasis**: Movimentos como os **Naxalitas** (maoístas) denunciam a expropriação de terras de tribais (*adivasis*) e camponeses por corporações e latifundiários, muitas vezes legitimados por discursos hinduístas.

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### **5. Resistência e Emancipação: Dalits, Bhakti e Marxismo**

O hinduísmo também foi desafiado por correntes que, embora usando sua linguagem, questionam sua ideologia:

- **Bhakti e movimentos de resistência**: Santos como **Kabir** e **Ravidas** (séculos XV–XVI) criticaram a hierarquia brahmânica, pregando igualdade espiritual. Esses movimentos, de base popular, expressavam **lutas de classes disfarçadas de devoção**.

- **Ambedkar e o Budismo Dalit**: **B. R. Ambedkar**, líder dalit e pai da Constituição indiana, rejeitou o hinduísmo como sistema opressor e incentivou a conversão ao budismo, aliando-se ao marxismo para combater a casta como **"gradação de classes"**.

- **Feminismo e gênero**: O hinduísmo tradicional reforça papéis patriarcais (ex.: controle sobre a sexualidade feminina), mas movimentos como **Pinjra Tod** ("Quebrar a Gaiola") usam marxismo para lutar contra a opressão de gênero e casta.

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### **6. Crítica Ideológica: Karma, Dharma e Falsa Consciência**

O hinduísmo, como ideologia, cumpre funções específicas:

- **Justificação da desigualdade**: O *karma* atribui a pobreza e a opressão a "pecados" em vidas passadas, desresponsabilizando as classes dominantes.

- **Naturalização da exploração**: O *dharma* fixa indivíduos em papéis sociais, inibindo a luta por transformação (ex.: "o sudra deve servir").

- **Alienação espiritual**: A promessa de *moksha* (libertação do ciclo de reencarnações) distrai das lutas materiais, funcionando como **"ópio do povo"**.

Contudo, elementos do hinduísmo podem ser **reapropriados criticamente**:

- A tradição *shramana* (ascetas e reformadores sociais) inspira críticas à hierarquia.

- A noção de *ahimsa* (não-violência) é usada por movimentos ambientais e sociais.

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### **Conclusão: Hinduísmo entre Dominação e Emancipação**

O hinduísmo é um fenômeno contraditório:

- **Instrumento de dominação**: Quando serve para legitimar castas, patriarcado e neoliberalismo (ex.: *Hindutva* como projeto de classe média alta).

- **Força emancipatória**: Quando reinterpretado por movimentos que, usando sua linguagem simbólica, desafiam a exploração (ex.: Ambedkar, Bhakti).

Para o marxismo, a superação das estruturas opressivas do hinduísmo exige:

1. **Abolição material da casta**: Reforma agrária, garantia de direitos trabalhistas e acesso à educação para Dalits e Adivasis.

2. **Separação entre religião e Estado**: Fim da instrumentalização do hinduísmo por elites políticas.

3. **Solidariedade de classe**: Unidade entre trabalhadores de todas as castas, gêneros e religiões contra o capitalismo e o imperialismo.

Enquanto isso, o hinduísmo permanece um campo de batalha ideológica, onde a luta por justiça social se entrelaça com a crítica radical às ilusões que mascaram a realidade material.