**Análise Marxista do Judaísmo**
A análise marxista do judaísmo requer examinar suas raízes históricas, seu papel em diferentes formações socioeconômicas e sua relação com a luta de classes, a exploração e a ideologia. O judaísmo, como religião, cultura e identidade coletiva, não é monolítico, mas seu desenvolvimento reflete adaptações a condições materiais específicas, desde as sociedades antigas até o capitalismo moderno.
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### **1. Origens Históricas e Condições Materiais**
O judaísmo surgiu no contexto de **sociedades tribais e seminômades** na região do Levante (c. 2000–1200 AEC). A transição para uma **monarquia centralizada** (como sob Saul, Davi e Salomão) e a posterior fragmentação em reinos (Israel e Judá) refletiam tensões entre elites sacerdotais, camponeses e comerciantes.
- **Lei mosaica e justiça social**: O *Torah* inclui regulamentações como o *Shmita* (ano sabático de descanso da terra) e o *Yovel* (jubileu, com redistribuição de terras), que podem ser interpretados como tentativas de mitigar a acumulação desigual (Levítico 25). Isso sugere um **compromisso com a coesão comunitária** em uma sociedade agrária vulnerável a crises.
- **Exílio e diáspora**: A destruição do Primeiro e Segundo Templos (586 AEC e 70 EC) e a dispersão dos judeus pelo Império Romano marcaram a transição para o **judaísmo rabínico**, adaptado à vida em comunidades minoritárias.
**Marx e a "questão judaica"**: Em *"Sobre a Questão Judaica"* (1843), Marx analisou o judaísmo não como religião, mas como **expressão de relações sociais mercantis**. Ele associou o "espírito do judaísmo" à práxis do comércio e do dinheiro, refletindo a ascensão do capitalismo mercantil na Europa. Porém, sua análise foi limitada por estereótipos da época e não considerou a diversidade histórica judaica.
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### **2. Judaísmo na Diáspora: Entre Marginalização e Mediação**
Durante a Idade Média e a Era Moderna, comunidades judaicas frequentemente ocuparam **papéis econômicos intermediários**, como comerciantes, artesãos, médicos e, em alguns casos, **agiotas**. Essas funções foram moldadas por **exclusões estruturais**:
- **Proibições cristãs ao empréstimo com juros** (usura) relegaram judeus a atividades estigmatizadas.
- **Guettos e perseguições** (como as expulsões da Espanha em 1492) reforçaram a coesão comunitária, mas também a vulnerabilidade.
**Função ideológica**:
- **Bode expiatório**: O anti-semitismo cristão atribuía crises econômicas a "práticas judaicas" (ex.: acusações de *deicídio* ou *controle financeiro*), desviando a ira popular das classes dominantes.
- **Legitimação do poder**: A narrativa do "pacto divino" (ex.: a aliança de Abraão) foi usada para justificar hierarquias internas (ex.: autoridade rabínica).
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### **3. Iluminismo, Emancipação e Contradições Modernas**
A **emancipação judaica** no século XIX (ex.: Revolução Francesa) prometeu igualdade civil, mas também gerou tensões:
- **Assimilação vs. identidade**: A burguesia judaica ascendeu economicamente, enquanto setores tradicionais resistiam à secularização.
- **Anti-semitismo moderno**: A reação conservadora culpou os judeus pela "decadência" do capitalismo e da modernidade (ex.: teorias de conspiração como *"Os Protocolos dos Sábios de Sião"*).
**Marxismo e judaísmo**: Pensadores judeus como **Rosa Luxemburgo** e **Leon Trotsky** rejeitaram o reducionismo de Marx sobre o judaísmo, enfatizando a **luta de classes transnacional**. Luxemburgo, por exemplo, via o sionismo como um projeto de classe média que ignorava a solidariedade com trabalhadores árabes.
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### **4. Sionismo: Nacionalismo e Contradições de Classe**
O sionismo emergiu no final do século XIX como resposta ao anti-semitismo europeu, mas sua realização (Israel, 1948) reflete **contradições de classe e imperialismo**:
- **Aliança com potências coloniais**: A Declaração Balfour (1917) e o apoio britânico ao sionismo integraram Israel ao projeto imperialista no Oriente Médio.
- **Expansão territorial e apartheid**: A colonização da Palestina reproduziu dinâmicas de **acumulação por despossessão** (ex.: expropriação de terras árabes), com a classe trabalhadora israelense (incluindo judeus mizrahim e palestinos) submetida a condições desiguais.
- **Críticas marxistas ao sionismo**: Autores como **Maxime Rodinson** e **Ilan Pappé** argumentam que o Estado de Israel serve à burguesia sionista e ao capital internacional, suprimindo lutas de classes (ex.: repressão aos kibutzim socialistas).
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### **5. Judaísmo Contemporâneo: Entre Resistência e Acomodação**
- **Judaísmo progressista**: Correntes como o **judaísmo reformista** e grupos como *Jewish Voice for Peace* articulam críticas ao sionismo e ao capitalismo, reivindicando justiça social e direitos palestinos.
- **Neoliberalismo e identidade**: A **direita religiosa israelense** (ex.: partidos como *Shas* e *Judaísmo da Torá*) combina fundamentalismo com políticas neoliberais, reforçando desigualdades.
- **Anti-semitismo estrutural**: A instrumentalização do Holocausto como justificativa para políticas israelenses obscurece a exploração capitalista global e a opressão de palestinos.
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### **6. Crítica Ideológica e Potencial Emancipatório**
- **Alienação e messianismo**: A espera por um "messias" ou redenção divina pode ser vista como **compensação pela impotência material** (ex.: esperança em um "Estado judeu" como solução para o anti-semitismo).
- **Ética profética vs. realpolitik**: Ensinos bíblicos sobre justiça (ex.: *"Deixai o órfão e a viúva"*) são frequentemente cooptados por elites, mas também inspiram movimentos radicais (ex.: rabinos anti-sionistas como **Abraham Joshua Heschel**).
- **Luta de classes no judaísmo**: A história judaica inclui revoltas contra a exploração (ex.: **Bar Kokhba**, 132 EC) e alianças com lutas universais (ex.: participação judaica em movimentos socialistas).
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### **Conclusão: Judaísmo como Campo de Batalha Ideológica**
O judaísmo, como fenômeno histórico, oscila entre:
- **Instrumento de dominação**: Quando usado para legitimar desigualdades (ex.: sionismo neoliberal) ou desviar a luta de classes (ex.: vitimização eterna).
- **Força emancipatória**: Quando sua ética é reivindicada para desafiar opressões (ex.: solidariedade judaico-palestina).
Para o marxismo, a emancipação dos judeus — e de todas as minorias — depende da **superação do capitalismo**, que alimenta o racismo, o nacionalismo e a exploração. Enquanto isso, o judaísmo permanece um espaço de contradições, onde tradição e revolução se confrontam.