MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA ILUMINATIVA

9 DE SETEMBRO

É preciso praticar a humildade, a exemplo de Cristo

Tende entre vós os mesmos sentimentos que se deve ter em Jesus Cristo (Fl 2, 5).

I. Tende entre vós os mesmos sentimentos, isto é, possuais por experiência que houve em Cristo Jesus. Há cinco modos de sentir, quer dizer, pelos cinco sentidos. Primeiro, há que contemplar seu resplendor, para que iluminados com sua luz nos conformemos a Ele. Segundo, é preciso escutar sua sabedoria, para que sejamos felizes: Bem-aventurados os teus homens, e bem-aventurados os teus servos, que gozam sempre da tua presença, e que ouvem a tua sabedoria (3Rs 10, 8). Terceiro, é mister aspirar as graças de sua mansidão, para correr para Ele: Leva-me atrás de ti: corre- remos ao odor dos teus perfumes (Ct 1, 3). Quarto, há que provar a doçura de sua piedade, para que sejamos sempre amados em Deus. Provai e vede como o Senhor é bom (Sl 33, 9). Quinto, é mister tocar a virtude de seu poder para salvar-nos. Ainda que eu toque somente o seu vestido, serei curada (Mt 9, 21). E assim experimentai como que tocando pela imitação de suas obras.

II. Exemplo de humildade de Cristo em sua Encarnação. O qual, existindo na forma (ou natureza) de Deus, não julgou que fosse uma usurpação o seu ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo (Fl 2, 6-7). Aniquilou-se a si mesmo. Mas, porque estava cheio da divindade, se desprendeu por ventura da divindade? Não, porque permaneceu sendo o que era, e tomou o que não era. Porque assim como desceu do céu, não para deixar de estar no céu, senão para começar a estar de um modo novo na terra, assim também aniquilou-se a si mesmo, não depondo a natureza divina, senão que tomando a natureza humana.

Formosamente diz: aniquilou-se. Pois o vazio se opõe ao cheio. A natureza divina está sobrenaturalmente cheia, porque ela é a perfeição da bondade: Eu te mostrarei toda a minha bondade (Ex 33, 19). Mas a natureza humana e a alma não estão cheias, senão em potência para a plenitude, porque a natureza humana foi criada como tábua rasa. Está vazia. Por isso diz aniquilou-se, porque tomou a natureza humana.

Tomando a forma de servo, porque o homem por sua criação é servo de Deus, e a natureza humana é forma de servo.

III. Exemplo da humildade de Cristo em sua Paixão. Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz (Fl 2, 8).

Cristo é homem, porém muito grande, porque Ele é Deus e homem; e, no entanto, humilhou-se. Quanto maior és, mais te deves humilhar em todas as coisas, e acharás graça diante de Deus (Eclo 3, 20). O modo de humilhar-se e o sinal da humildade é a sabedoria. Próprio dos soberbos é seguir sua própria vontade, pois o soberbo busca a elevação, e a uma coisa elevada pertence o não ser regida por outra, senão reger a outras, e, portanto, a obediência é contrária à soberba.

Querendo, por conseguinte, mostrar a perfeição da humildade e a Paixão de Cristo, diz que se fez obediente, porque se não houvesse padecido por obediência, não teria sido recomendável, pois obediência é a que dá mérito a nossos sofrimentos.

Porém, como se fez obediente? Não por sua vontade divina, porque esta é a mesma regra, senão por sua vontade humana, que em todas as coisas foi regulada segundo a vontade paterna.

Mas que esta obediência seja grande e recomendável se põe de manifesto porque a obediência é grande quando segue o mandato de outro contra a própria inclinação. O movimento da vontade humana se dirige para a vida e para a honra. Porém Cristo não recusou a morte. Tampouco recusou a ignomínia. Por isso diz: Condenemo-lo a uma morte infame (Sb 2, 20).

-In Phil., II

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