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**Análise Marxista de Thomas Sankara: Revolução, Classe e Internacionalismo na África**

Thomas Sankara (1949–1987), líder da Revolução Burkinabê (1983–1987), é uma figura central para compreender a luta anti-imperialista e socialista no continente africano. Sua trajetória, interrompida por um golpe apoiado pela França, sintetiza os desafios de construir o socialismo em um contexto de **neocolonialismo, dependência econômica e luta de classes**. Sob uma perspectiva marxista, sua obra e legado revelam tanto as potencialidades de uma revolução popular quanto os limites estruturais impostos pelo capitalismo global.

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### **1. Contexto Histórico: Burkina Faso como Produto do Colonialismo**

#### **a) Herança colonial francesa:**

- O Alto Volta (atual Burkina Faso) foi criado pela França em 1919 para explorar mão de obra e recursos (algodão, ouro). Após a independência formal (1960), o país permaneceu subordinado ao capitalismo francês, com elites locais mantendo relações neocoloniais (ex.: **Françafrique**).

- **Miséria estrutural**: Em 1983, 98% da população rural vivia na pobreza, com analfabetismo em 90% e expectativa de vida de 45 anos. A dívida externa consumia 30% do PIB.

#### **b) Ascensão de Sankara:**

- Sankara, influenciado por Marx, Che Guevara e Amílcar Cabral, liderou um golpe popular em 1983, aliando-se a setores progressistas do exército e movimentos sociais. Seu objetivo era romper com o **neocolonialismo** e construir uma sociedade igualitária.

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### **2. Políticas Revolucionárias: Socialismo e Luta de Classes**

#### **a) Reforma agrária e soberania alimentar:**

- Sankara nacionalizou terras dos chefes tradicionais (aliados do colonialismo) e redistribuiu 1,5 milhão de hectares para camponeses, garantindo **controle coletivo dos meios de produção**.

- **Campanhas de massas**: Mobilizou 10 mil voluntários para construir represas e irrigar terras, aumentando a produção de alimentos em 75% e reduzindo a fome.

#### **b) Educação e saúde públicos:**

- Criou escolas em áreas rurais, alfabetizando 30 mil adultos em dois anos. A vacinação em massa erradicou a meningite e reduziu a mortalidade infantil.

- **Saúde gratuita**: Nacionalizou hospitais e proibiu a venda de medicamentos por multinacionais.

#### **c) Emancipação feminina:**

- Sankara via a **opressão das mulheres** como parte da exploração capitalista. Banindo a excisão genital e o dote, ele promoveu a participação feminina na política (ministras, juízas) e no exército.

- "A revolução não pode triunfar sem a emancipação das mulheres", afirmou, antecipando debates interseccionais.

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### **3. Anti-Imperialismo: Confronto com o Capitalismo Global**

#### **a) Ruptura com o FMI e a França:**

- Sankara recusou-se a pagar a dívida externa, chamando-a de "arma de dominação". Rejeitou programas de ajuste estrutural que privatizariam recursos naturais.

- **Nacionalizações**: Controlou o comércio de algodão e minério, desafiando empresas francesas (ex.: *Sofreco*) que lucravam com a exploração colonial.

#### **b) Internacionalismo proletário:**

- Apoiou movimentos anti-apartheid na África do Sul, enviou tropas para defender a soberania de Timor-Leste e solidarizou-se com a Palestina.

- Criou a **Organização da Unidade Africana Revolucionária**, propondo a unidade continental contra o imperialismo.

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### **4. Contradições e Limites: A Burocracia e o Golpe de 1987**

#### **a) Tensões internas:**

- Sankara confrontou-se com setores do exército e da burocracia, que resistiam às reformas. Seu estilo centralizador e a repressão a opositores (ex.: sindicatos críticos) geraram descontentamento.

- **Isolamento internacional**: O Ocidente e a França apoiaram o golpe de Blaise Compaoré (1987), que assassinou Sankara e reverteu suas políticas, reabrindo o país ao capital estrangeiro.

#### **b) Lições do fracasso:**

- A revolução burkinabê mostrou que o socialismo não pode ser construído apenas por decreto, mas exige **organização popular duradoura** e alianças internacionais sólidas. A falta de um partido revolucionário de massas e a dependência do exército foram fatores decisivos na queda de Sankara.

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### **5. Legado: Sankara como Símbolo da Luta Anti-Sistêmica**

#### **a) Inspirador de movimentos contemporâneos:**

- Sankara influenciou revoltas como a **Primavera Árabe** e movimentos africanos de ocupação de terras (ex.: MST no Brasil). Seu discurso na ONU (1984) denunciando o "capitalismo selvagem" permanece atual.

- **Ecologia**: Antecipou o ambientalismo ao ligar desertificação à exploração capitalista, promovendo reflorestamento em massa.

#### **b) Críticas e atualizações:**

- Marxistas questionam se sua abordagem **estatista** e militarizada não reproduziu hierarquias. Contudo, sua ênfase na **autonomia popular** e na luta contra o racismo estrutural mantém-se como modelo para a esquerda africana.

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### **Conclusão: Sankara e a Possibilidade do Socialismo Africano**

Thomas Sankara não foi um "messias", mas um revolucionário que tentou **romper as correntes do colonialismo e do capitalismo** em um dos países mais pobres do mundo. Sua morte evidenciou que o imperialismo não tolera ameaças à acumulação. Como disse **Amílcar Cabral**:

> *"Lutar é vencer, mesmo que a morte nos alcance"*.

Sua luta permanece viva na resistência dos povos africanos contra a exploração, mostrando que o socialismo não é um projeto europeu, mas **universal e necessário** para a libertação humana.

**Análise Marxista de Marx, Che Guevara e Amílcar Cabral: Teoria, Práxis e Revolução**

Karl Marx, Ernesto "Che" Guevara e Amílcar Cabral são figuras centrais no pensamento revolucionário, cada um contribuindo para o marxismo a partir de contextos históricos distintos. Enquanto Marx fundou a crítica sistemática do capitalismo, Che e Cabral adaptaram suas ideias às lutas anti-imperialistas e anti-coloniais do século XX. Sob uma perspectiva marxista, analisaremos suas obras, estratégias e contradições, destacando como cada um enfrentou as **questões de classe, colonialismo e revolução**.

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### **1. Karl Marx: A Base Teórica da Revolução Proletária**

#### **a) Materialismo Histórico e Crítica do Capitalismo:**

- Marx desvendou as **leis do movimento do capitalismo**, mostrando que a exploração da classe trabalhadora (proletariado) é inerente ao sistema. Seu conceito de **mais-valia** revelou como o lucro deriva do trabalho não pago aos operários.

- **Luta de classes**: Para Marx, a história é a história da luta de classes. A revolução proletária seria a resposta à contradição entre forças produtivas (tecnologia, trabalho) e relações de produção (propriedade privada).

#### **b) Internacionalismo e Limites do Marxismo Clássico:**

- Marx previu que a revolução começaria nos países industrializados (ex.: Alemanha, Inglaterra), onde o proletariado era numeroso. Contudo, a **Comuna de Paris (1871)** mostrou que a revolução poderia eclodir em contextos não previstos, como a França semifeudal.

- **Crítica ao colonialismo**: Marx denunciou o imperialismo como "o bandido do mundo civilizado", mas seu foco no proletariado industrial subestimou a luta anticolonial.

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### **2. Che Guevara: Guerrilha, Internacionalismo e o "Homem Novo"**

#### **a) A Guerrilha como Método Revolucionário:**

- Che, influenciado por Marx e pela Revolução Cubana, adaptou o marxismo à realidade latino-americana. Em textos como **"Guerra de Guerrilhas"**, defendeu que a revolução deveria partir do **campesinato**, não do proletariado urbano, devido à debilidade da classe operária na região.

- **Foco teórico**: A guerrilha seria um "foco" que, através da ação armada, despertaria a consciência revolucionária das massas.

#### **b) Internacionalismo e Crítica ao Socialismo Burocrático:**

- Che rompeu com o **stalinismo**, criticando a burocracia soviética e a cooptação do socialismo pelo nacionalismo. Defendeu a **solidariedade continental**, lutando na Bolívia e Congo.

- **"Homem Novo"**: Para Che, a revolução exigia não apenas mudanças econômicas, mas uma **transformação moral**, onde o ser humano superasse o individualismo capitalista.

#### **c) Contradições e Limites:**

- A estratégia guerrilheira subestimou a **organização de massas** e a construção partidária, levando a derrotas (ex.: Bolívia, 1967).

- Seu foco no campesinato gerou debates: era possível uma revolução socialista sem a liderança do proletariado industrial?

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### **3. Amílcar Cabral: Anti-Colonialismo, Classe e Cultura**

#### **a) Luta de Classes na Descolonização:**

- Cabral, líder da **Guiné-Bissau**, desenvolveu uma teoria da revolução que integrava **classe e colonialismo**. Em **"A Arma da Teoria"**, argumentou que o campesinato africano, embora não-proletário, era revolucionário devido à exploração colonial.

- **"Classe-suicídio"**: Cabral defendeu que a pequena burguesia africana deveria "cometer suicídio como classe" e se aliar ao campesinato para construir o socialismo.

#### **b) Cultura e Resistência:**

- Cabral via a **cultura** como arma de resistência. A luta contra o colonialismo português exigia resgatar a identidade africana, destruída pelo racismo colonial.

- **Unidade Pan-Africana**: Articulou a **CONCP** (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas), ligando lutas em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.

#### **c) Crítica ao Neocolonialismo:**

- Cabral alertou que a independência formal não bastava: era necessário **destruir as estruturas econômicas coloniais** (ex.: monocultura de amendoim) e construir autossuficiência. Sua morte (1973), por inimigos do colonialismo, interrompeu esse projeto.

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### **4. Diálogos e Tensões entre Marx, Che e Cabral**

#### **a) Marx e a Questão Colonial:**

- Marx subestimou a **centralidade do colonialismo** para o capitalismo, focando na Europa. Cabral e Che, em contextos coloniais, mostraram que a luta anticolonial era parte da luta de classes global.

- **Che e o Lumpemproletariado**: Ao incluir marginais e camponeses como sujeitos revolucionários, Che ampliou o conceito marxista de classe, antecipando debates sobre **interseccionalidade**.

#### **b) Cabral e a Questão Racial:**

- Cabral integrou **raça e classe**, mostrando que o colonialismo era também um projeto racial. Isso dialoga com Marx, que analisou a escravidão nos EUA como parte do sistema capitalista mundial.

- **Diferença com Che**: Enquanto Che focou na guerrilha continental, Cabral priorizou a organização popular e a educação política.

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### **5. Conclusão: Lições para o Marxismo Contemporâneo**

Marx, Che e Cabral representam **etapas distintas, mas complementares**, do pensamento revolucionário:

- **Marx** forneceu a base teórica para entender o capitalismo.

- **Che** adaptou-a à realidade latino-americana, enfatizando a ação direta e o internacionalismo.

- **Cabral** conectou colonialismo, classe e cultura, mostrando que a libertação nacional exige **socialismo**.

Como disse **Cabral**:

> *"Sem cultura, não há liberdade. Cultura é o caminho para a revolução."*

Seus legados reforçam que o marxismo não é dogma, mas **ferramenta viva**, que deve ser constantemente reinventada para enfrentar o capitalismo em suas múltiplas formas: colonial, neoliberal e racializado. A revolução, para ser bem-sucedida, exige **teoria, organização popular e internacionalismo**.

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REVOLUTION, A TOOL IT IS, IF CAPITALISM YOU FIGHT. BUT FREE MINDS, CAPITALISM DESTROY. HMMM?