MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
15 DE JULHO
A mancha do pecado
1. Diz-se propriamente que um corpo tem mancha quando de brilhante que era torna-se sem brilho pelo contato com outro corpo, como o vestido e o ouro, a prata e outros semelhantes; e por analogia pode-se dizer que há mancha nas coisas espirituais. Pois bem, a alma do homem possui um duplo brilho, seja pelo esplendor da luz da razão natural, pelo qual se rege em seus atos; seja pela resplandecência da luz divina, quer dizer, da sabedoria e da graça, pela qual também se aperfeiçoa o homem para agir bem e decentemente. Porém existe como que certo contato da alma, quando se apega a algumas coisas pelo amor. Quando peca, apega-se a algumas coisas contra a luz da razão e da lei divina; pelo que o detrimento do brilho, proveniente de tal contato, chama-se metaforicamente mancha da alma.
- S. Th. Iª IIæ, q. 86, a. 1
Uma coisa se diz manchada quando padece detrimento na formosura que deveria ter; pelo que a mancha, nesse sentido, não tem algo positivo, senão que, com respeito ao dano que causa à beleza, diz-se que produz algum efeito; igual que uma coisa colocada no rosto tira ou esconde a candura do mesmo. Pois bem, a beleza da alma consiste na semelhança que deve ter com Deus, pela claridade da graça recebida d'Ele. E assim como a claridade corporal do sol será interceptada de nós por qualquer obstáculo que esteja interposto, assim também a claridade da graça é subtraída à alma pelo pecado cometido, que se interpõe entre Deus e nós.
A luz da graça dirige a inteligência e move a vontade, mas o pecado introduz um defeito em ambas faculdades: na inteligência, porque todo pecado procede do erro; na vontade, porque todo pecado está na vontade. E, por conseguinte, a mancha afeta a inteligência e a vontade, mas esta principalmente.
- 4, Dist., 18, q. 1, a. 2
II. A mancha do pecado permanece na alma, depois do ato de pecado, porque a mancha importa certo defeito de resplendor, por causa do recesso da luz da razão ou da lei divina; e, portanto, enquanto o homem permanece fora dessa luz, fica nele a mancha do pecado; mas depois que retorna à luz da razão e à luz divina, o qual se verifica pela graça, então cessa a mancha. Porém ainda que cesse o ato do pecado, pelo qual o homem se aleijou da luz da razão ou da lei divina, o homem não retorna, no entanto, imediatamente ao estado em que se achava, senão que se requer algum movimento da vontade, contrário ao primeiro movimento; como quando alguém, distante de outro por algum movimento, não se aproxima deste alguém imediatamente depois de cessar o movimento, senão que é necessário que se lhe acerque voltando pelo movimento contrário.
- S. Th. Iª IIæ, q. 89, a. 2