MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
14 DE AGOSTO
O princípio de todo pecado
I. O princípio de todo o pecado é a soberba (Eclo 10, 15). Alguns dizem que a soberba pode tomar-se de três sentidos: primeiro, em sua significação de apetite desordenado da própria excelência, e segundo isto resulta pecado especial. Segundo, no sentido de que implica desprezo atual de Deus, porquanto produz o efeito de não se submeter a seus preceitos e assim dizem que é pecado geral. Terceiro, no sentido de que traz consigo certa inclinação a este desprezo, por corrupção da natureza; e por isso dizem que é princípio de todo pecado. Difere, entretanto, da ambição, porque esta mira ao pecado por parte da conversão ao bem comutável, pelo que o pecado em certo modo se nutre e fomenta, e assim a ambição se chama raiz; porém a soberba mira o pecado por parte da aversão a Deus, a cujos preceitos o homem recusa submeter-se; e por isso se chama princípio, pois de parte da aversão começa a razão do mal.
Ainda quando estas coisas sejam verdadeiras, não estão, no entanto, conformes com a intenção do Sábio, que diz: O princípio de todo o pecado é a soberba; porque às claras fala da soberba como apetite desordenado da própria excelência. Por conseguinte a soberba, ainda que considerada como pecado especial, é princípio de todo pecado.
Nos atos voluntários se dão duas ordens: a ordem da intenção e da execução. Na primeira ordem a soberba tem razão de princípio e de fim. Mas como o fim na aquisição de todos os bens temporais é que o homem tenha, por meio deles, certa perfeição singular e excelência, por esta parte a soberba, que é apetite da excelência, se assinala como princípio de todo pecado. Porém por parte da execução é o primeiro aquele que subministra a oportunidade de satisfazer todos os desejos do pecado, o qual tem razão de raiz, como as riquezas; e assim, sob este aspecto, afirma-se que a avareza é raiz de todos os males.
-S. Th. IIª IIæ, q. 84, a. 2
II. A soberba é rainha e mãe de todos os vícios. A soberba pode considerar-se de dois modos: primeiro, em si mesma, enquanto é um pecado especial; segundo, enquanto tem influência universal em todos os pecados. Considera-se capitais aqueles pecados especiais os quais dimanam muitos gêneros de pecados. Alguns, considerando desse modo a soberba, incluem-na entre outros vícios capitais.
Porém, vendo São Gregório a influência universal que exerce nos outros vícios capitais, não a incluiu entre os outros vícios capitais, senão que a pôs como rainha e mãe dos vícios; pelo que diz: "A mesma soberba rainha dos vícios, a soberba, quando fica plenamente dona do coração já vencido, entrega-o rapidamente aos sete vícios capitais, como a certos capitães seus para que a devastem e, destes, provenha multidões de vícios".
-S. Th. IIª IIæ, q. 162, a. 8