MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA ILUMINATIVA
23 DE AGOSTO
A esperança
I. O objeto próprio da esperança é a bem-aventurança eterna.
A esperança chega até Deus, apoiando-se em seu auxílio para conseguir o bem esperado. Porém convém que o efeito seja proporcionado à causa; portanto, o bem que própria e principalmente devemos esperar de Deus é o bem infinito, proporcionado à virtude de Deus que nos ajuda; porque é próprio da virtude infinita produzir um bem infinito. Mas este bem é a vida eterna que consiste no gozo do mesmo Deus; pois o que devemos esperar d'Ele não é menos que Ele mesmo, já que a sua bondade, pela qual comunica os bens à criatura, não é menor que a sua essência.
II. A esperança é uma virtude teológica distinta das demais virtudes teologais. Uma virtude se diz teologal porque tem por objeto Deus, ao qual se adere. De duas maneiras pode alguém aderir-se a um outro: ou por si mesmo, ou porque por ele se chega a um outro. A caridade, pois, faz que o homem se una a Deus por causa de si mesmo, unindo seu espírito a Deus pelo afeto de amor.
Mas a esperança e a fé fazem que o homem se una a Deus como a certo princípio, do qual nos chegam algumas coisas. De Deus nos vêm o conhecimento da verdade e a conquista da bondade perfeita. Logo a fé faz que o homem se adira a Deus, enquanto é para nós o princípio do conhecimento da verdade, pois cremos que são verdadeiras as coisas que Deus nos diz. Mas como que é em nós o princípio da bondade perfeita, já que pela esperança nos apoiamos no auxílio divino para obter a bem-aventurança.
III. Na via (ou ordem) da geração (espiritual), a esperança é anterior à caridade. Pois assim como se é conduzido a amar a Deus porque, temendo ser castigado por Ele, cessa de pecar, assim também a esperança introduz a caridade, enquanto alguém, esperando ser recompensado por Deus, é induzido a amá-lo e observar seus preceitos. Porém segundo a ordem da perfeição, a caridade é anterior naturalmente; por isso desde o momento em que existe a caridade, a esperança se torna mais perfeita, porque se espera mais dos amigos. Neste sentido diz Santo Ambrósio que esperança provém da caridade.
IV. A esperança tem certeza, porque a esperança é a expectação certa da bem-aventurança futura, como diz o Mestre. O qual pode tomar-se daquilo que diz o Apóstolo: Porque sei em quem pus a minha confiança e estou certo de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito (2Tm 1, 12).
Certamente não podemos saber com certeza, nesta vida, se possuímos a graça. Mas a esperança não se baseia principalmente na graça já recebida, senão na onipotência e misericórdia divinas, pelas quais, mesmo aquele que não possui a graça, pode consegui-la e chegar assim à vida eterna. Mas da onipotência de Deus e de sua misericórdia está certo todo aquele que possui a fé. O fato de alguns, tendo esperança, verem-se faltos da consecução da bem-aventurança sucede por defeito do livre-arbítrio que lhes põe o obstáculo do pecado, porém não por defeito do poder divino ou misericórdia em que se apoia a esperança. Por conseguinte, isto não prejudica a certeza da esperança.
-S. Th. IIª IIæ, q. 17, a. 2, 6 e 8, e q. 18, a. 4