MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
26 DE JULHO
Os resquícios do pecado
Lê-se em São Marcos que o cego, iluminado pelo Senhor, recobrou primeiramente a vista imperfeita. Por isso disse: Vejo os homens que me parecem árvores que andam (Mc 8, 24); depois a recobrou perfeita, de modo que começou a ver claramente (Mc 8, 25). A iluminação do cego significa a liberação do pecador. Logo após a primeira remissão da culpa, pela qual é restituída ao pecador a vista espiritual, ainda ficam nele alguns resquícios do pecado passado.
O pecado mortal, por parte da conversão desordenada ao bem mutável, produz na alma uma certa disposição, ou também hábito, se o ato é reiterado freqüentemente. Mas a culpa do pecado mortal se perdoa enquanto se tira pela graça a aversão da mente a Deus.
Porém, retirado o que produz a aversão, pode subsistir o que provém da conversão desordenada, e sucede que esta pode estar sem aquela. Por conseguinte, nada impede que, perdoada a culpa, permaneçam as disposições causadas pelos atos precedentes, que se dizem relíquias ou resquícios do pecado; permanecem, no entanto, debilitadas e diminuídas, de modo que não dominem o homem; e isto melhor como disposições que como hábitos, e também fica o ímpeto da concupiscência depois do Batismo.
Diz Santo Agostinho: "Nunca curou o Senhor a alguém, sem havê-lo curado totalmente; e assim curou a um homem por completo num sábado, pois livrou seu corpo de toda enfermidade e a sua alma de todo contágio".* É certo que Deus cura perfeitamente a todo o homem; porém algumas vezes o faz subitamente, como restituiu à saúde no ato à sogra de São Pedro, De tal modo que ela levantando-se logo, servia-os (Le 4, 39); porém, outras vezes, o faz sucessivamente, segundo o dito do cego iluminado. Do mesmo modo toca algumas vezes espiritualmente o coração do homem de tal forma que consiga instantaneamente a saúde espiritual perfeita, não somente pela remissão da culpa, senão também tirando-lhe todas os resquícios do pecado, como no caso de Madalena. Mas, às vezes, perdoa primeiro a culpa pela graça operante, e depois, pela graça cooperante, tira sucessivamente as relíquias do pecado.**
-S. Th. III, q. 86, a. 5
* Parece que a citação é de um outro autor, De vera et falsa poemat, cap. 9.
** O que entende Santo Tomás por graça operante e cooperante, nos disse em outro lugar (Suma teológica la llae, q. 111, art. 2). "A ação de algum efeito não se atribui ao ser movido senão ao ser movente. Assim, pois, naquele efeito em que nossa mente é movida e não é movente, mas somente Deus é movente, a ação se atribui a Deus, e neste sentido se chama graça operante. Porém naquele efeito no qual nossa mente move e é movida, a ação não se atribui somente a Deus, senão também à alma; e neste sentido se chama graça cooperante.