MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

11 DE JULHO

A vocação dos homens

Deus quer que todos os homens se salvem (1Tm 2, 4).

Deus quer três coisas de nós:

1° Que possuamos a vida eterna. Pois o que faz alguma coisa com certo fim, quer para essa coisa aquilo para o qual a fez. Mas Deus criou o homem do nada, porém não para o nada, como se diz no Salmo: Porventura criaste em vão todos os filhos dos homens? (SI 88, 48). Logo, fez o homem para algo; mas não para as voluptuosidades, porque também as possuem as bestas; senão para que possuíssem a vida eterna.

Quando um ser alcança o fim para o qual foi feito, diz-se que se salva; porém quando não o consegue, diz-se que está perdido. Quando o homem consegue a vida eterna, diz-se que se salva; e isto o quer o Senhor, como diz o Evangelista: A vontade de meu Pai, que me enviou, é que todo aquele que vê o Filho e crê n'Ele tenha a vida eterna (Jo 6, 40).

Essa vontade está já cumprida nos anjos e nos santos que estão no céu, porque vêem a Deus e o

conhecem, e desfrutam d'Ele; porém nós desejamos que, assim como se cumpriu a vontade de Deus nos bem-aventurados que estão nos céus, cumpra-se igualmente em nós, que estamos na terra; e isto o pedimos quando oramos: Seja feita a vossa vontade em nós que estamos na terra, como nos santos que estão no céu.

2º Que guardemos seus mandamentos. Pois quando alguém deseja alguma coisa, não somente quer o que deseja, senão também todas as coisas pelas quais pode obtê-la, do mesmo modo que o médico quer a dieta, a medicina e outras coisas semelhantes para conseguir a saúde. Como pela observância dos mandamentos chegamos à vida eterna, Deus quer que guardemos os mandamentos.

3° Que o homem seja reposto ao estado de dignidade em que foi criado o primeiro homem, a qual dignidade foi tanta, que o espírito e a alma não sentiam nenhuma rebelião nem resistência da parte da carne e da sensualidade. Porque enquanto a alma esteve submetida a Deus, de tal modo esteve também a carne submetida ao espírito, que não sentiu nenhuma corrupção da morte ou das enfermidades e dos outros padecimentos; porém, desde o momento em que o Espírito e a alma, que estava situada entre Deus e a carne, se rebelou contra Deus pelo pecado, se rebelou então o corpo contra a alma, e começou a sentir a morte e as enfermidades, e a contínua rebelião da sensualidade contra o espírito. Assim se desencadeou esta contínua luta entre a carne e o espírito, e o homem se envilece continuamente pelo pecado. É, por conseguinte, a vontade de Deus que o homem seja restituído a seu estado primitivo, isto é, que não haja na carne coisa alguma que repugne ao espírito, como diz o Apóstolo: Esta é a vontade de Deus, que vos santifiqueis... que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santidade e honra (1Ts 4, 3-4).

-In Orationes Dominicae expos.

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