O ateu de boa fé e os recursos da graça
Por:
Pe. Julio Meinvielle (De Lammenais a Maritain)
Que a exposição de Maritain tenha por fim semear confusão em matéria tão delicada é algo confirmado, se ainda restasse alguma dúvida, pelo caso do ateu de boa fé e os recursos da graça que ele propõe em seu Humanisme Intégral⁴⁴. O caso é muito simples, apesar da insegurança com que se expressa Maritain. Trata-se de um ateu que “rejeita especulativamente a Deus como fim e como regra suprema da vida humana”⁴⁵. Maritain sustenta que Deus tem recursos para que, mesmo nesse caso, “o ato interior de pensamento produzido por essa alma que nega especulativamente a Deus se dirija para uma realidade que, de fato, seja verdadeiramente Deus”. Em outros termos, essa alma rejeitaria especulativamente a Deus porque o conceberia em fórmulas de negação e de rejeição, mas, no entanto, o escolheria praticamente como fim de sua vida. Em outras palavras, estaríamos diante “do ateu de boa fé que, contra sua própria escolha aparente, teria escolhido realmente a Deus como fim de sua vida”⁴⁶.
Para abranger o caso proposto, distinguimos nele duas questões. A primeira, a possibilidade de que esse ateu de boa fé se salve, isto é, que “escolha realmente a Deus como fim de sua vida”, como se expressa Maritain. E essa afirmação de Maritain é um gravíssimo erro, em absoluta contradição com o ensinamento dogmático da Igreja, segundo o qual não pode absolutamente se salvar quem não crê explicitamente que Deus existe e que é remunerador dos que o buscam. Como pode conhecer explicitamente a Deus quem de fato o nega e o rejeita? E não se diga, como pretende insinuar Maritain, que o nega especulativamente, mas a ele adere praticamente sob a aparência de uma fórmula em que o nega. Porque, no máximo, nessa hipótese, haveria um conhecimento implícito de Deus, conhecido sob termos absolutos como a verdade, o bem, a beleza, a sabedoria, a virtude, a liberdade, mas isso não basta segundo o ensinamento constante da Igreja. E a razão de que não seja suficiente é claríssima: porque a salvação do homem consiste em entrar na sociedade sobrenatural de Deus. Mas a essa sociedade ninguém entra se não a aceita livremente. E ninguém pode aceitar o ingresso se não crê explicitamente nessa sociedade; e não pode crer nela, cujo conhecimento é revelado pelo próprio Deus, se não crê explicitamente em Deus remunerador. Logo, é necessária a fé explícita em Deus remunerador.
Por isso, Inocêncio XI condenou a proposição daqueles que dizem que, para salvar-se, basta “a fé, em sentido lato, produzida pelo testemunho das criaturas, ou por outro motivo semelhante”⁴⁷. De modo algum. É necessária a fé na palavra divina. É necessário crer a Deus e crer em Deus. E não simplesmente crer que Deus existe, mas que é remunerador, ou seja, que proveu os meios para que aqueles que o buscam possam encontrá-lo na sociedade sobrenatural. Por isso, Inocêncio XI condenou também aqueles que dizem: “É necessária, como meio necessário, a fé em um Deus único, mas não a fé explícita de que Ele é Remunerador”⁴⁸.
Mas há uma segunda questão, que é a própria possibilidade do “ateu de boa fé”. Pode haver um ateu de boa fé, isto é, que seja ateu sem culpa? O capítulo XIII do Livro da Sabedoria responde inteiramente a essa questão, e São Paulo em sua Carta aos Romanos também dá resposta inequívoca: “Com efeito” — diz — “as perfeições invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua divindade, tornaram-se visíveis desde a criação do mundo por manifestação”; o invisível tornou-se visível; em seguida fala do conhecimento que delas nos dão suas criaturas; e assim tais homens não têm desculpa. São Paulo fala de “conhecimento”, um conhecimento claro e expresso que qualquer homem pode ter de Deus, conhecimento que, se bem não terá sempre a precisão que pode alcançar o filósofo, é suficientemente claro e expresso como as verdades de senso comum para referir-se a um Ser Supremo, distinto do mundo, e seu Criador e Ordenador.