MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
8 DE AGOSTO
A negligência
1º A negligência é pecado.
A negligência implica falta da devida solicitude; e todo defeito do ato devido tem razão de pecado; logo, a negligência tem razão de pecado; e como a solicitude é ato de virtude especial, necessariamente a negligência é pecado especial.
Em todo pecado necessariamente deve haver defeito acerca de um ato da razão, como o defeito do conselho e outros semelhantes; pelo qual, assim como a precipitação é um pecado especial por causa do ato especial da razão, do que se prescinde, isto é, o conselho, ainda que possa achar-se em qualquer gênero de pecado, assim a negligência é pecado especial pelo defeito do ato especial da razão, que é a solicitude, mesmo quando se encontre de algum modo em todos os pecados.
São propriamente matéria da negligência as obras boas que alguém deve praticar; não porque as mesmas sejam boas quando se fazem negligentemente, senão que por causa da negligência se produz nelas o defeito da bondade, seja se se omite totalmente o ato devido por falta de solicitude, seja também alguma circunstância devida do ato.
2º A negligência se opõe à prudência.
A negligência se opõe diretamente à solicitude, mas a solicitude pertence à razão; e sua retidão, à prudência. Logo a negligência pertence à imprudência por oposição. A negligência, que pertence à acídia, pois a negligência consiste no defeito do ato interior, ao que também pertence à eleição; mas a preguiça e o entorpecimento mais bem correspondem à execução, de tal modo, no entanto, que a pureza implica tardança em executar, e a indolência certa remissão na mesma execução.
Diz-se no Eclesiastes: o que teme a Deus nada despreza (Ecl 7, 19), pois o temor de Deus conduz a evitar todo pecado, como se lê nos Provérbios: Todo o homem evita o mal por meio do temor do Senhor (Pr 15, 27). Por isto, o temor faz evitar a negligência, não porque a negligência se oponha diretamente ao temor, senão enquanto o temor excita o homem aos atos da razão. Pelo qual se disse que o temor incita a tomar conselho.
3° A negligência pode ser pecado mortal. Isto se deduz destas palavras: O que porém não cuida da sua conduta padecerá a morte (Pr 19, 16).
A negligência provém de certo relaxamento da vontade, pelo qual ocorre que a razão não é induzida a mandar o que deve. Se o que se omite por negligência é de necessidade para a salvação, será pecado mortal. De outro modo pode também ser pecado mortal por parte da causa; se a vontade é tão remissa nas coisas de Deus que careça totalmente da caridade de Deus, tal negligência é pecado mortal, principalmente quando a negligência é efeito do desprezo. Ao contrário, se a negligência consiste na omissão de algum ato ou circunstância que não são necessárias para a salvação, e isto não se faz por desprezo, senão por falta de fervor, então não é pecado mortal senão venial.
-S. Th. IIª IIæ, q. 54, a. 1, 2 e 3