MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
24 DE JULHO
A felicidade não se deve buscar nesta vida
Esta felicidade não pode ser encontrada:
I. No pecado. Porque o pecado atrapalha como uma carga. Fardos que os fatigam por causa do seu grande peso (Is 46, 1). Efetivamente o pecado atrapalha:
Pela solicitude em pensar como vão pecar. Porque os maus não dormem, sem terem feito mal (Pr 4, 16).
Pelo trabalho na execução. Cansamo-nos nas sendas da iniqüidade e da perdição (Sb 5, 7).
Pela confusão ao examinar a consciência. Que fruto tirastes então daquelas coisas, de que agora vos envergonhais? (Rm 6, 21).
Pelo fracasso na esperança. A esperança dos iníquos é aniquilada (Pr 11, 7).
- In Is., XLVI
II. A felicidade não se encontra nos deleites corporais. Porque a suprema perfeição do homem não pode consistir em que se una a coisas inferiores a ele, senão em unir-se a coisas mais altas; pois o fim é melhor que o que se ordena ao fim. Pois bem, os deleites corporais consistem em que o homem segundo os sentidos se una a algo inferior a ele, quer dizer, a coisas sensíveis.
Ademais, se os deleites corporais fossem bons em si, seria necessário que fosse muito bom usar deles o mais possível. Porém é evidente que isto é falso; porque o abuso deles é um vício, prejudicial ao corpo, e impede os mencionados deleites. Por conseguinte, não são em si mesmos um bem para o homem.
Por outro lado, o último fim é Deus; portanto é preciso estabelecer como último fim do homem aquele que mais lhe aproxima de Deus. Pois bem, os deleites corporais impedem ao homem a suprema aproximação de Deus, que se verifica pela contemplação. Estes deleites a impedem em grande medida, porque submergem profundamente o homem nas coisas sensíveis, e por conseguinte o retraem das coisas espirituais. Não deve, portanto, colocar-se a felicidade humana nos deleites corporais.
- Contra Gentiles, lib. 1, cap. 3
III. Nesta vida não se encontra a felicidade. Isto o demonstraremos por duas considerações:
Primeiro, pela razão mesma da bem-aventurança. Porque sendo a bem-aventurança o bem perfeito e suficiente, exclui todo mal e sacia todo desejo; porém nesta vida é impossível subtrair-se de todo mal, como que está sujeita a muitos males inevitáveis, seja de ignorância por parte do entendimento, seja de desordenado afeto no apetite, como também muitas penalidades no corpo. Tampouco é possível saciar nesta vida o desejo do bem, porquanto o homem deseja naturalmente a permanência do bem que possui; e os bens da vida são transitórios, como o é a vida mesma, que nós naturalmente possuímos e quiséramos prolongar à perpetuidade, posto que todo homem recusa naturalmente a morte. Por conseguinte, é impossível obter nesta vida a bem-aventurança propriamente como tal.
Segundo, se consideramos em que consiste especialmente a bem-aventurança, quer dizer, a visão da divina essência, é inacessível ao homem nesta vida. Tudo isto prova evidentemente que ninguém nesta vida pode alcançar a verdadeira e perfeita bem-aventurança.
Alguns se dizem bem-aventurados nesta vida, ou pela esperança de lograr a bem-aventurança na vida futura, segundo o que diz o Apóstolo: Na esperança é que fomos salvos (Rm 8, 24); ou por alguma participação da bem-aventurança em certa fruição do sumo bem.
-S. Th. Iª IIæ, q. 5 a. 3