MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA ILUMINATIVA

31 DE AGOSTO

A virtude da religião

I. Ordena o homem a Deus.

Como diz Santo Isidoro, o religioso é chamado assim porque dito vocábulo deriva da palavra reeleição, quer dizer, que volta a tratar e como a reler o que concerne ao culto divino; e assim a religião parece vir de reler as coisas que são do culto divino, pois se devem freqüentemente recordar no coração, segundo aquilo dos Provérbios: Pensa n'Ele em todos os teus caminhos (Pr 3, 6).

Também pode entender-se a palavra religião no sentido de que devemos reeleger a Deus, a quem havíamos perdido por nossa negligência, e também pode derivar de religando (voltar a atar); por isso diz Santo Agostinho: "A religião nos volta a atar somente a Deus Todo-poderoso". Porém seja que a religião se chame assim porque requer a freqüente leitura, seja pela reiterada eleição do que negligentemente se perdeu, seja por proceder da ação de voltar a atar, a religião denota propriamente uma relação com Deus; porque Ele é a quem principalmente devemos unirmo-nos como a princípio indefectível; a quem também deve dirigir-se assiduamente nossa eleição como a último fim; a quem também perdemos por uma culpável negligência, e a quem devemos recuperar, crendo e professando nossa fé.

II. A religião é virtude especial.

Donde há razão especial de bem, ali existe necessariamente virtude especial. Mas o bem a que a religião se ordena é tributar a Deus a devida honra e reverência. A honra é devida a alguém por razão de sua excelência, porquanto excede infinitamente a tudo o que existe, em todos os conceitos, segue-se que se lhe deve uma honra especial.

III. A religião é virtude que deve ser preferida às demais virtudes morais, porque se aproxima mais de Deus que as outras virtudes morais, enquanto faz o que se ordena diretamente e imediatamente à honra divina.

IV. A religião tem atos interiores e exteriores. O meu coração e a minha carne exultam em Deus vivo (SI 83, 3). Assim como os atos interiores pertencem ao coração, assim os exteriores pertencem aos membros da carne.

Damos a Deus honra e reverência não por causa de si mesmo, visto que por si mesmo está cheio de glória, à qual nada pode acrescentar a criatura, senão por nós; pois honrando e reverenciando a Deus, nosso espírito se submete a Ele; e nisto consiste sua perfeição; já que cada coisa é aperfeiçoada por estar submetida a seu superior; como o corpo o é por ser vivificado pela alma. E o ar por ser iluminado pelo sol.

Mas a mente humana necessita, para unir-se a Deus, ser conduzida como que pela mão por meio das coisas sensíveis, pois as coisas invisíveis d'Ele (de Deus), isto é, o seu poder eterno e a sua divindade, depois da criação do mundo, compreendendo-se pelas coisas feitas, tornaram-se visíveis (Rm 1, 20). Portanto, é necessário no culto divino usar de algumas coisas corporais, para que por elas, como por certos sinais, excite-se o espírito do homem aos atos espirituais pelos quais se une a Deus. Assim, pois, a religião tem atos interiores, como principais e pertencentes por si à religião; e também atos exteriores, como secundários e ordenados aos atos interiores.

Portanto, essas coisas exteriores não se oferecem a Deus como se necessitasse delas. Senão como sinais das coisas interiores e das obras espirituais, que Deus per si aceita. A este respeito diz Santo Agostinho: "O sacrifício visível é o sacramento (isto é, signo sagrado) do sacrifício invisível".

-S. Th. IIª IIæ, q. 81, a. 1, 4 e 7

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