Sexta-Feira -- Comemoração das sete Dores de Maria Santíssima.

O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte, si est dolor sicut dolor meus – “Ó vós todos os que passais pelo ca­minho, atendei e vede, se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1, 12)

Sumário.

Bem compete à Bem-Aventurada Virgem o título de Rainha dos Mártires, porque, semelhante em tudo a Jesus, sofreu, em toda a sua vida, no coração um martírio, ao mesmo tempo o mais longo e o mais doloroso.

E o seu martírio não ficou estéril; muito ao contrário, produziu um fruto inestimável de vida eterna, de modo que todos os que se salvam, são disso devedores, depois de Jesus Cristo, às dores de Maria. Se nos queremos mostrar verdadeiros filhos da nossa aflita Mãe, imitemos a sua paciência e resignação.

I. Assim como Jesus se chama Rei de Dores e Rei dos Mártires, porque

padeceu na sua vida mais que todos os outros mártires; assim Maria é

com razão chamada Rainha dos Mártires. Mereceu este titulo por ter

sofrido o martírio mais longo e mais doloroso que se possa padecer depois

do de seu Filho.

A Virgem pôde dizer o que o Senhor disse pela boca de Davi: Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus (1) — A minha vida passou-se toda em dor e lágrimas, porquanto a minha dor, que era a compaixão de meu amado Filho, não se afastava jamais do meu pen-samento, vendo eu sempre todas as penas e a morte que Ele um dia devia padecer. — Revelou a mesma divina Mãe a Santa Brígida, que, ainda depois da morte do Filho e depois de sua ascensão ao céu, a lembrança da sua paixão

estava sempre fixa e recente no seu terno coração de mãe, quer comesse,

quer trabalhasse.

O martírio de Maria foi também de todos o mais dolo-roso, porquanto, ao

passo que os outros mártires tiveram o corpo dilacerado pelo ferro, ela

teve a alma traspassada e martirizada, como já lhe predisse São Simeão:

Et tuam ipsius animam (doloris) gladius pertransibit (2) — “E uma espada

(de dor) te traspassará a alma”. Ora, quanto a alma é mais nobre que o

corpo, tanto maior foi a dor de Maria que a de todos os mártires. — A

tudo isso acresce que ela padeceu sem alívio algum. Para os outros

mártires, o seu amor a Jesus fazia-lhes os tor-mentos doces e suaves; para

a divina Mãe, porém, o mesmo amor se lhe tornou cruel algoz, e fazia

todo o seu martírio. Numa palavra, conclui um sábio escritor, o martírio de

Maria na Paixão do Filho foi tão grande, porque ela só podia dignamente

compadecer-se da morte de um Deus feito homem.

II. A dor de Maria na Paixão de Jesus Cristo não foi estéril, como a das

mães comuns à vista dos filhos que sofrem. Não; foi, ao contrário, uma

dor que produziu frutos abundantes de vida eterna. São Cipriano, falando dos mártires, disse que o seu sangue era como que uma semente de

cristãos, querendo dizer que por um só homem que caía vítima da

perseguição, surgiam logo muitos pagãos a pedirem o batismo e

abraçarem a religião perseguida. Esta fecundidade, porém, do martírio,

nada é em comparação da do martírio da Rainha dos Mártires.

Com efeito, sabemos que pelo mérito do sacrifício dolo-roso que Maria fez

na morte de seu Filho, foi ela feita de-positária dos merecimentos de Jesus

Cristo, Co-Redentora do gênero humano e Mãe de todos os fiéis que lhe

foram confiados na pessoa de João: Mulier, ecce filius tuus (3) — “Mulher,

eis aí teu filho”. De sorte que todos os que se salvaram, se salvam e ainda

vierem a salvar-se, todos serão devedores da sua salvação, depois de

Jesus Cristo, ao martírio do Coração de Maria. — Se, portanto, nós

também quisermos um dia ir gozar no céu, sejamos devotos servos desta

querida Mãe, e, à imitação dela, soframos com paciência as penas que

tenhamos a sofrer, e todas as graças que queiramos pedir ao Senhor,

peça-mo-las pelos merecimentos das incomensuráveis dores que ela

sofreu no correr de toda a sua vida, e especial-mente na Paixão de seu

Filho.

Sim, ó Rainha dos Mártires, prometemos ser-vos fiéis; mas vós mesma

deveis alcançar-nos esta graça.

— “E Vós, ó meu Deus, em cuja paixão, segundo a profecia de Simeão, a

alma dulcíssima da gloriosa Virgem e Mãe Maria foi traspassada por uma

espada de dor: concedei propício que nós, que celebramos a memória de

suas dores e padecimentos, possamos, pelos méritos gloriosos e

inter-cessão de todos os Santos que se acharam ao pé da cruz, obter os

felizes frutos dessa mesma paixão”.

Reply to this note

Please Login to reply.

Discussion

No replies yet.