MEDITAÇÕES PARA EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

- 6° DIA -

Do bom uso do tempo

Deus deu-lhe tempo de penitência, e ele abusa disto para se ensoberbecer (Jó 24, 23).

1. Agora o tempo é nosso, porque podemos fazer o que queremos, o bem e o mal: Deus criou o homem desde o princípio, e deixou-o na mão do seu conselho; diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; o que lhe agradar, isso lhe será dado (Eclo 15, 14 e 18).

Porém um dia tomará Deus seu tempo, e então não poderemos fazer mais o que quisermos, senão que receberemos o que houvermos merecido. Por isso se diz no Eclesiastes: Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão (Ecl 9, 10).

II. O Senhor nos dá o tempo como oportunidade, como auxílio, como prova, como aviso.

Como oportunidade que podemos aproveitar para voltarmo-nos a Ele: O Senhor espera o momento em que vos fará misericórdia (Is 30, 18). Logo, busquemos ao Senhor quando pode ser encontrado, não aconteça que, preocupados subitamente pelo dia da morte, busquemos tempo de penitência e não o possamos encontrar.

Como auxílio, porque a qualidade do tempo nos ajuda para fazer penitência, se queremos, porque agora nos aflige o calor, o frio, o vento, a chuva. Se sofremos pacientemente essas coisas, praticamos a penitência. Porém, se murmuramos, agora que o tempo está a nosso favor, no dia do juízo estará contra nós: Convocou contra mim o tempo (Lm 1, 15). Por isso diz São Bernardo: "Assim como não pereceu nem um cabelo de nossa cabeça, tampouco perecerá um momento do tempo".

Como prova; porque assim como depois do dia, durante o qual trabalham os homens, vem a noite em que descansam, assim, depois desta vida, vem a morte; pela qual os que tiverem trabalhado por Cristo durante esta vida, descansarão depois com Ele. Porém aquele que não trabalha, aquele que mais descansa durante o dia em sua casa, trabalhará durante a noite. Ademais, assim como depois do trabalho se dá o galardão na noite, igualmente Cristo pagará a seus operários seu denário depois desta vida.

Por último, como aviso; porque durante o dia nos aconselha a temer as trevas do inferno, das quais ninguém sairá uma vez que estiver ali. Por outro lado, a troca do tempo nos avisa e mostra que todas as coisas são mutáveis, e que não devemos deter-nos nelas.

III. Deu-lhe tempo, quer dizer, partes do tempo ou da idade, meninice, adolescência, juventude, senectude, para que durante elas fizesse penitência. A penitência deve começar-se desde a primeira parte: Semeia de manhã a tua semente, e de tarde não deixes a tua mão repousar (Ecl 11, 6), quer dizer, na senectude. Porém poucos são os que querem fazer penitência na meninice e na juventude, e na senectude não podem; portanto, perde-se todo o tempo. Quando são jovens, não querem; quando são velhos, não podem. Deles diz Isaías: Porque os filhos estão prestes a nascer, porém não há força na mãe para os dar à luz (Is 37, 3). Ai das mulheres grávidas, e das que amamentarem naqueles dias! (Lc 21, 23).

Por conseguinte, é conveniente que nos arrependamos quando podemos, porque tempo virá em que se nos será tirado todo poder de agir bem.

- In Apoc., XI

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