Quinta-Feira - O dia do Amor.
Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – “Vimo-Lo, e
não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos” (Is 53, 2)
Sumário.
Embora Jesus Cristo em todo o curso de sua vida mortal nos
tivesse amado ardentemente e nos tivesse dado mil provas do seu amor
infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a
prova mais patente pela instituição do Santíssimo Sacramento. Ai o
Senhor se faz não só nosso constante companheiro, mas ainda nosso sustento e se nos dá todo inteiro. Com muita razão, portanto, Santa Maria
Madalena de Pazzi chamava a quinta-feira santa o Dia do Amor.
I. Um pai amoroso nunca patenteia melhor a sua ternura e o seu afeto
para com o filhos do que no fim da sua vida, quando os ve em torno do
seu leito, aflitos e com os olhos em pranto, e pensa que em breve deve
abandoná-los. Tira do seu coração e põe sobre os seus lábios o resto de
sua vida prestes a extinguir-se, abraça aqueles penhores queridos do seu
amor, exorta-os a serem sempre bons, imprime-lhes no rosto os mais
ternos beijos, e misturando as suas lágrimas com as dos filhos, beijos, e
misturando as suas lágrimas com as dos filhos, lança-lhes a sua bênção.
Depois manda trazer o que mais precioso possui e dando a cada um uma
última lembrança: Tomai, diz, e lembrai-vos sempre do amor que vos
tenho dedicado.
Foi exatamente assim que quis fazer conosco Jesus Cristo, verdadeiro Pai
da nossa alma e Pai tão amante, que na terra não tem havido, nem jamais
haverá outro igual. Embora em todo o curso da sua vida mortal nos tivesse
amado com amor ardente, e nos tivesse dado mil provas do seu amor
infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a
prova mais patente, pela instituição do Santíssimo Sacramento. E por isso,
na mesma noite em que devia ser traído, reuniu os seus discípulos ao
redor de si, instituiu a Santíssima Eucaristia, e disse-lhes para os consolar
de sua próxima partida:
Filhos meus, vou morrer por vós, para vos mostrar o amor que vos tenho.
Posto que, escondido debaixo das espécies sacramentais, deixo-vos o meu
corpo, a minha alma, a minha divindade, a mim mesmo todo. Numa
palavra, não quero nunca estar separado de vós, enquanto estiverdes na
terra: Ecce ego vobiscum sum, usque ad consummationem saeculi (1) –
“Eis que estou convosco, até a consumação dos séculos”.
– Meu irmão, que tal te parece esta extrema fineza de Jesus Cristo? Não
tinha razão Santa Maria Madalena de Pazzi de chamar a quinta-feira santa
o dia do amor?
II. Jesus Cristo não satisfez o seu amor, fazendo-se nosso constante
companheiro; quis ainda fazer-se nosso sustento, afim de se unir intimamente à nossa alma, e santificá-la com a sua presença. E nesta
manhã, qual amante apaixonado, que deseja ser correspondido, de dentro
da Hóstia consagrada, onde nos observa sem ser visto, está espreitando
todos os que se preparam para alimentar-se com a sua carne divina,
observa em que pensam, o que amam, o que desejam e as ofertas que
irão apresentar-lhe.
Irmão meu, prepara-te para recebê-lo com as devidas disposições. Aviva a
tua fé na presença real de Jesus Cristo neste inefável mistério; dilata o teu
coração pela confiança, lembrando-te que te pode fazer todo o bem,
muito te amam e vem a ti exatamente para te enriquecer com as suas
graças. Humilha-te profundamente diante da sua divina majestade, e
lembrando-te que no passado, em vez de amares um Deus tão bom, o tens magoado, voltando-lhe as costas e desprezando a sua amizade, pede-
lhe perdão e toma a resolução de que para o futuro antes quererás morrer
do que tornar a ofendê-lo. – Mas prepara-te sobretudo para receber Jesus
Cristo com amor, e convida-o pelo desejo.
Vinde, ó meu Jesus, vinde depressa e não tardeis. Ó meu paraíso, meu
amor, meu tudo, quisera receber-Vos com aquele amor com que Vos
receberam as almas mais santas e mais amantes, com que Vos recebeu
Maria Santíssima. Uno a minha comunhão de hoje com as suas. –
Santíssima Virgem e minha Mãe Maria, eis que vou receber o vosso Filho.
Quisera ter o vosso coração e o amor com que recebeis a santa
comunhão. Dai-me hoje o vosso Jesus, assim como o destes aos pastores e
aos santos Magos. Desejo recebê-lo de vossas mãos puríssimas. Dizei-lhe
que sou vosso servo devoto, porque assim me olhará com olhar mais
amoroso e me apertará mais estreitamente contra o seu Coração, quando
vir a mim.
