MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA ILUMINATIVA

25 DE AGOSTO

O temor do Senhor

I. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Sl 110, 10). De dois modos se pode dizer que algo é princípio de sabedoria: primeiro, porque é princípio da mesma sabedoria quanto à sua essência; segundo, quanto a seu efeito.

Sendo a sabedoria o conhecimento das coisas divinas, é considerada por nós de um modo distinto que pelos filósofos; porque como nossa vida se ordena ao gozo de Deus e é dirigida segundo certa participação da natureza divina por meio da graça, a sabedoria é considerada por nós, não somente como cognoscitiva de Deus, forma em que também a consideram os filósofos, senão ademais como diretiva da vida humana, a que não somente é dirigida segundo as razões humanas, senão também segundo as divinas.

Assim, pois, o princípio da sabedoria segundo sua essência são os primeiros princípios da sabedoria, que são os artigos da fé, e por isto a fé se chama princípio da sabedoria.

Porém, quanto ao efeito, o princípio da sabedoria é a operação por onde ela começa, e deste modo o temor de Deus é o princípio da sabedoria; no entanto, um é o temor servil e outro o temor filial. Porque o temor servil é como princípio que dispõe exteriormente à sabedoria, enquanto se aparta do pecado por temor do castigo, e se faz apto, por isso, para o efeito da sabedoria, segundo aquilo do Eclesiástico: O temor do Senhor expulsa o pecado (Eclo 1, 27).

O temor casto ou filial é princípio da sabedoria, como primeiro efeito dela. Pois pertencendo à sabedoria que a vida humana regule-se segundo as razões divinas, é necessário tomar por princípio que o homem tema a Deus e se submeta a Ele. Porque deste modo se regulará em tudo segundo Deus.

A respeito do que se diz no Livro de Jó: O temor do Senhor é a sabedoria (Jó 28, 28), deve entender-se no sentido de que o temor de Deus se compara a toda a vida humana regulada pela sabedoria de Deus, como a raiz à árvore. Por isso: A raiz da sabedoria é temer ao Senhor; os seus ramos são de longa duração (Eclo 1, 25). Em conseqüência, assim como se diz que a raiz é virtualmente toda a árvore, também se diz que o temor de Deus é a sabedoria.

II. Ao temor corresponde propriamente a pobreza de espírito. Pois pertencendo ao temor filial manifestar respeito a Deus e estar-lhe submetido, aquilo que é conseqüência desta submissão pertence ao dom de temor. Porém pelo fato de submeter-se a Deus, cessa de pretender engrandecer-se em si mesmo ou em outro que não seja em Deus; porque este sentimento repugnaria à perfeita submissão a Deus. Assim, pois, desde que se teme perfeitamente a Deus, é conseguinte que não pretenda engrandecer-se em si mesmo pela soberba, nem nos bens exteriores, tais como as honras e as riquezas, coisas que pertencem à pobreza de espírito, enquanto por pobreza de espírito pode entender-se a anulação do espírito orgulhoso e soberbo ou também o desprezo das coisas temporais, que é produzido pelo espírito, isto é, pela vontade própria movida pela inspiração do Espírito Santo.

-S. Th. IIª IIæ, q. 19, a. 7 e 12

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