Acho que hoje foi a primeira vez que alguém da minha família me deu permissão e confiança para ajudar com algo digital em casa.
Um parente foi hackeado alguns dias atrás, perdeu muito dinheiro e hoje falou com meus pais sobre isso.
Pelo que disseram, ele usava a mesma senha em vários lugares. Clássico. Talvez tenha vazado em um site menos seguro, talvez descobriram por força bruta ou por dicionário, mas a senha foi exposta e tentaram usá‑la em várias contas. Quase todas tinham a mesma senha.
Resultado: não levaram todo o dinheiro porque parte estava em outra conta com senha diferente e outra parte foi tava com outra pessoa.
Outro parente, meses atrás, também caiu em um golpe pelo WhatsApp, aqueles bots que se passam por conhecidos, pedem dinheiro com urgência e somem.
Eu já havia comentado com meus pais várias práticas que uso para evitar esse tipo de problema, como usar apps open source, boas práticas de segurança e gerenciadores de senha.
Normalmente eles respondem com um "Nossa, você é muito inteligente" e nada mais.
Dessa vez lembraram e pediram minha ajuda, mas não só um "Resolve aqui, filha", e sim conselhos e opções para aumentar a segurança.
Expliquei e aconselhei sobre vários pontos:
- Nunca clicar em links de e‑mail que dizem ser do banco, de cadastro ou promoção, nada do tipo.
- Nunca enviar dinheiro sem confirmar que é realmente a pessoa, mesmo que pareça urgente.
- Diminuir a exposição nas redes sociais, pois meus pais tinham perfis abertos com muita informação pessoal.
- Apaguei contas que não usavam, excluí muitos e‑mails, informações, fotos e vídeos, e deixei os perfis restantes no modo privado, para que só quem eles aceitem veja as postagens.
- O mais importante: usar um gerenciador de senhas.
Falei que uso KeePassDX, que é offline e local, e que faço backups em pen drives quando atualizo. Também disse que o BitWarden é seguro e mais prático por ser online.
Para minha surpresa, eles queriam usar o que eu usava. Foi um alívio.
Configurei dois bancos de senhas no KeePassDX, um para senhas e 2FAs menos importantes e outro para os mais críticos. Não queria fazer um super‑setup que complicasse tudo, mas tomei medidas suficientes para minimizar perdas. Depois comecei a ajustar o que precisava.
Foi inacreditável a quantidade de senhas fracas e repetidas que encontrei. Rede social, arquivos, bancos... a senha do Wi‑Fi do quarto dos meus pais, que estava salva no meu celular, era a mesma de duas contas bancárias.
Revisitei conta por conta, até o roteador, e troquei senhas por caracteres aleatórios, no máximo permitido: 16, 24, 32, 64 caracteres conforme dava.
Expliquei que o importante é memorizar uma ou duas senhas‑frase, algo como:
"MacacosNãoPodemVerTVDuranteACopaDoMundoDeUmPaísSó"
e acrescentar números ou caracteres especiais em posições aleatórias, sem trocar letras por símbolos previsíveis. Por exemplo "Maca%cosN7ãoPodemVe#...3648".
Configurei o celular deles para usar KeePassDX como padrão e habilitei biometria para facilitar. Depois de testar, disseram que era mais fácil do que pensavam e que facilitou muito. Eles ouviam "gerenciador de senha" e achavam complicado ou perigoso, mas não é.
E se alguém nunca usou gerenciador de senhas, não recomendo começar pelo KeePass.
Eu uso porque sei o que estou fazendo, monitoro e acompanho meus pais, mas para 99% das pessoas o melhor é o BitWarden: código aberto, seguro, online, acessível em Android, iOS, Mac, Windows e até extensão de navegador.
Não vem com 2FA na versão gratuita, mas dá para usar um app como Aegis no celular.
Uma opção mista funciona bem: BitWarden para senhas menos importantes e que precisam ser usadas em vários dispositivos, e KeePass como backup local no pen drive.
Ou só use tudo no BitWarden mesmo e tenha o KeePass como Backup.
Não macaqueie as coisas antes de aprender como funcionam. Você vai se embananar.
Se tiver um celular Samsung e for usar ambos, coloque KeePassDX e apps de banco dentro da Pasta Segura para mantê‑los isolados do resto do sistema.
Foi isso.
É estranho o receio de adultos em confiar em alguém mais novo para resolver essas coisas, ainda mais quando se trata de filhos ou filhas.
Talvez pensem "se eu der razão pra ela, não vai querer me escutar depois". Não sei se isso foi um caso isolado ou um começo de mudança, mas já é alguma coisa pelo menos.
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