MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
29 DE JULHO
É mister evitar a solicitude excessiva das coisas temporais e buscar uma só coisa
Marta, Marta, tu afadigas-te e andas inquieta com muitas coisas. Entretanto uma só coisa é necessária (Lc 10, 41-42).
1. A solicitude das coisas temporais pode ser ilícita de três maneiras:
Primeiro, da parte do objeto de que nos inquietamos, isto é, se buscamos nas coisas temporais nosso fim último.
Segundo, pelo supérfluo estudo que se põe para procurá-las, pelo qual o homem se retrai das coisas espirituais, às quais preferentemente deve dedicar-se. Por isso diz: Os cuidados deste século... sufocam a Palavra de Deus (Mt 13, 22).
Terceiro, pelo temor exagerado de que se nos falte o necessário se fazemos o que é de nosso dever; o qual foi proibido pelo Senhor, por três motivos: primeiro, pelos maiores benefícios dados por Deus ao homem, sem solicitude de sua parte, quais são o corpo e a alma; em segundo lugar, por causa dos animais e das plantas, segundo suas necessidades sem intervenção do homem; e em terceiro lugar, pela Divina Providência, por ignorância da qual os gentios se dedicam mais principalmente a buscar os bens temporais.
Por isto conclui que nossa solicitude deve ter principalmente por objeto os bens espirituais, esperando que também se nos darão os bens temporais de acordo com a necessidade, se cumprirmos o que devemos.
-S. Th. IIª IIæ, q. 55, a. 6
II. Devemos buscar uma só coisa: Entretanto, uma só coisa é necessária (Lc 10, 42).
Estando Marta muito atarefada em muitas coisas, quis o Senhor atraí-la a uma só. A perfeição do homem consiste em que seu coração se ligue a uma só, já que quanto maior unidade haja nele, tanto mais semelhante é a Deus, que é verdadeiramente uno. Uma só coisa peço ao Senhor (Sl 26, 4). Porém contra isso padece o que busca as riquezas ou as coisas do mundo, pois se enche de muitos desejos, e seu coração é arrastado a coisas diversas.
- In Iam Tim., VI
Por isso também o Espirito Santo realizou a purificação da Santíssima Virgem, como que preparando-a para a concepção de Cristo; essa purificação não foi de alguma impureza de culpa ou de concupiscência, senão que consistiu em reconcentrar mais profundamente sua alma em uma só coisa, e em separá-la da multidão.
-S. Th. IIIª, q. 27, a. 3 ad 3um
Essa unidade, à qual se adere o homem pela caridade, é Deus. Nisto consiste a perfeição do homem: em unir-se a Deus pela caridade. A alma pode unir-se perfeitamente a Deus de duas maneiras: referindo a Deus todas as suas ações e conhecendo-o na forma em que é cognoscível, o qual se verifica no céu.
Porém a adesão a esta vida em que estamos é dupla: uma necessária para a salvação, à qual todos estão obrigados, quer dizer, que ninguém deve aplicar seu coração ao que é contra Deus. Senão que habitualmente deve referir a Ele toda a vida. Acerca deste modo diz o Senhor: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espirito (Mt 22, 37). A outra forma é de super-rogação, quando alguém se une a Deus para além do estado comum a todos, o qual se verifica apartando o coração das coisas temporais, e assim aproxima-se mais à pátria celestial, porque quanto mais se debilita a ambição, tanto mais cresce a caridade.
- In Phil. III