SÁBADO DEPOIS DA OITAVA DE CORPUS CHRISTI
O amor de Cristo
Tendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13, 1).
Por estas palavras se recomenda o profundo amor de Cristo e isto por quatro coisas.
I. Foi proveniente, segundo aquilo de São João: Não temos sido nós os que amamos a Deus, mas Ele que nos amou primeiro a nós (1Jo 4, 10). E explicando isto, diz: Tendo amado os seus, como indicando que os amou antes. Nos amou, quer dizer, antes de criar-nos, pois, como diz a Sabedoria: Tu amas tudo o que existe (Sb 11, 25). Nos amou antes de chamar-nos. Eu amei-te com amor eterno; por isso, mantive a meu favor para contigo (Jr 31, 3). Nos amou antes de redimir-nos.
II. Foi seu amor adequado, porque amou aos seus. É-se seu de diversas maneiras; segundo isto são amados por Deus de diferentes modos. Se é seu de três maneiras: Por criação, e a estes os ama conservando-lhes os bens da natureza: Veio para o que era seu, e os seus, por criação, não o receberam (Jo 1, 11). Outros são seus por consagração, como os que nasceram de Deus Pai pela fé, como diz o Evangelista: Manifestei o teu nome aos homens, que me deste do meio do mundo. Eram teus, e tu mos deste; e guardaram a tua palavra (Jo 17, 6). A estes os ama conservando-os nos bens da graça. Outros são seus por uma especial devoção, como se lê no Antigo Testamento: Nós somos teus ossos e tua carne (1Cr 11, 1). A estes os ama consolando-os especialmente.
III. O amor de Cristo foi necessário, porque amou os seus, que estavam no mundo. Pois são seus alguns que já estavam na glória do Pai, porque também eram seus os Pais antigos, pela esperança de ser livrados por Ele. Porém estes não necessitavam tanto de seu amor como os que estavam no mundo. E por isso diz: que estavam no mundo, quer dizer, com o corpo, porém não com o coração.
IV. Recomenda-se o amor de Cristo como perfeito. Daí estas palavras amou-os até o fim. O fim da intenção, o qual deve ser também o fim de Cristo. Estes dois fins não são mais que um, porque a vida eterna não é outra coisa que o gozo de Cristo em sua divindade, como diz o Evangelho: Ora a vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste (Jo 17, 3). Segundo isto diz, pois: amou-os até o fim, para conduzi-los a si mesmo como fim, ou à vida eterna que é a mesma coisa.
O fim de execução é aquilo que é termo de uma coisa, e deste modo a morte pode chamar-se fim. Por isso se disse: amou-os até o fim, isto é, até a morte. Não no sentido de que os amou somente até a morte e não mais depois dela; pois isto seria falso. Longe de nós pensar que com a morte deixou de amar o que não teve fim na morte. Outro significado de amou-os até o fim é que o amor para com eles o levou até a morte.
Outra interpretação de até o fim é: que havendo-lhes dado anteriormente muitas provas de amor, ao fim, quer dizer, muito próximo da morte, lhes deu sinais de maior amor. Não vos disse isto, porém, desde o principio, porque estava convosco (Jo 16, 4), como dizendo: Não foi então necessário a vós que eu os demonstrasse quanto os amava, senão ao deixá-los, para que desse modo se imprimisse mais profundamente em vossos corações o amor a mim e à minha memória.
-In Joan., XIII