MEDITAÇÕES PARA EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

- 8° DIA -

Se a obediência pertence à perfeição religiosa

A perfeição religiosa consiste principalmente na imitação de Cristo, segundo aquelas palavras do Evangelho: Se queres ser perfeito... segue-me (Mt 19, 21). Porém em Cristo se recomenda, sobretudo, a obediência, segundo diz o Apóstolo: Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte (FI 2, 8).

1. O estado religioso é certa disciplina ou exercício para dirigir-se à perfeição; e é conveniente os que se instruem ou exercitam para chegar a algum fim, que todos sigam a direção de alguém, por cujo arbítrio sejam instruídos e exercitados para chegar àquele fim, como os discípulos sob o mestre; e por isso é mister que os religiosos se submetam à instrução e ordens de alguém nas coisas que pertencem à vida religiosa. O homem se submete ao império e à instrução de outro pela obediência; logo, esta se requer para a perfeição da religião.

Como diz o Filósofo: "Os homens que se exercitam nas obras chegam a formar hábitos delas, e adquiridos estes, podem executar muito melhor aquelas mesmas obras". De modo que, obedecendo, chegam à perfeição os que ainda não a conseguiram; e os que já a alcançaram estão mais aptos à obediência, não porque necessitem ser dirigidos para adquiri-la, senão para perseverar no que a ela pertence.

II. E mesmo quando as ações feitas pela obediência procedam de certa necessidade, isto é, de preceito; são, contudo, sumamente gratas a Deus; porque a necessidade de coação produz certamente o involuntário, e portanto exclui a razão de louvor e de mérito; mas a necessidade que segue à obediência não é necessidade de coação senão de livre vontade, enquanto o homem quer obedecer, ainda que talvez não queira cumprir o que se lhe manda, considerado em si mesmo; e assim, posto que o homem, mediante o voto de obediência, submete-se por Deus à necessidade de fazer algo que em si não lhe agrada, por isso mesmo, isto que faz resulta mais aceito a Deus, ainda que seja menor; porque o homem não pode oferecer a Deus coisa maior que submeter sua vontade à de outro por causa d'Ele. Por isso se diz nas Conferências dos Padres que "o pior gênero de monges é o dos sarabaitas, porque se ocupam de suas necessidades e, livres do jugo dos anciãos, têm liberdade de fazer o que lhes apraz; e no entanto passam os dias e as noites trabalhando mais que os cenobitas".

-S. Th. IIª IIæ, q. 186, a. 5

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