4º Domingo da Quaresma -- A multidão faminta e as almas do purgatório.

Unde ememus panes ut manducent hi? – “Onde compraremos pães para

que estes comam?” (Jo 6, 5)

Sumário.

A tenra compaixão que moveu o Senhor a multiplicar os pães para dar de comer à multidão que o seguia, deve mover-nos a socorrer as almas do purgatório, que são muito mais numerosas e muito mais famintas de seu alimento espiritual, que é Deus.

O meio principal de que devemos usar para lhes levar socorro é a santíssima Eucaristia. Em sufrágio dessas almas, visitemos frequentemente a Jesus sacramentado;

aproximemo-nos da mesa da comunhão, e, se não podemos mandar celebrar missas, ouçamos ao menos todas as que as nossas ocupações nos permitam ouvir.

I. Refere o Evangelho que, estando Jesus assentado sobre um monte,

levantou os olhos, e viu ao redor de si uma multidão de quase cinco mil

pessoas, que O seguiam, porque viam os milagres que fazia sobre os enfermos.

Em seguida, sabendo que um moço tinha cinco pães de cevada e dois peixes, tomou-os em suas mãos, e, tendo dado graças, os mandou distribuir à multidão.

Não somente houve o bastante para todos se

fartarem, mas com os pedaços que sobejaram, os apóstolos encheram doze cestos. Eis aí o grande milagre que Jesus Cristo fez por compaixão de tantos pobres corporalmente.

Ora, é justo, ou para dizer melhor, é necessário que tenhamos compaixão das almas de outra multidão muito mais numerosa e incomparavelmente mais faminta do seu alimento espiritual: devemos compadecer-nos das almas benditas do purgatório. — Pobres almas! São muitas as penas que

padecem naquele cárcere de tormentos; porém, acima de tudo aflige-as a privação da dulcíssima presença de Deus, cuja beleza infinita já conhecem.

Não há na linguagem humana palavras apropriadas para exprimir qual seja

esta pena; mas ainda que possuíssemos as palavras adequadas, faltar-nos-

ia a capacidade de compreendê-las, preocupados como estamos com as

coisas terrestres.

Mas a pena que a privação de Deus traz consigo é bem compreendida

pelas pobres almas que a padecem. Por isso levantam a sua voz lamentosa

e pedem-nos que lhes saciemos a fome inconcebível de contemplarem

quanto antes o objeto de seu amor: Miseremini mei, saltem vos, amici

mei, quia manus Domini tetigit me (1) — “Compadecei-vos de mim, ao

menos vós, que sois meus amigos, porque a mão do Senhor me feriu”.

II. O milagre da multiplicação dos pães, assim como se conclui do

Evangelho, foi feito para provar a presença verdadeira de Jesus na

Eucaristia; e mesmo, segundo observavam os doutores, foi uma figura da

Mesa eucarística. Eis, pois, o meio eficacíssimo de que, à imitação do

Redentor, devemos lançar mão para saciarmos a fome das almas benditas

do purgatório. — Visitemos muitas vezes o divino Sacramento,

comunguemos com frequência; sobretudo mandemos celebrar em alívio

das almas o sacrifício incruento da missa, ou ao menos ouçamos para

sufragá-las todas as missas que pudermos. “Cada missa que se celebra”,

diz São Jerônimo, “faz sair várias almas do purgatório”. E São Gregório

acrescenta: “Quem assiste devotamente à missa, alivia as almas dos fiéis

defuntos e contribui para lhes serem perdoados completamente os pecados.

Pelo que uma pessoa muito devota às almas do purgatório, cada vez que

ouvia tocar a entrada para uma missa, afigurava-se ver as almas no meio

das chamas e ouvir os seus gritos lastimosos e angustiados. “Então”, assim

dizia, “por urgentes que sejam as minhas ocupações, não posso deixar de

assistir ao divino sacrifício, nem tenho coragem de lhes dizer: Esperai,

porque hoje falta-me o tempo para vos ajudar”. — Façamos do mesmo

modo, e fiquemos certos de que aquelas santas prisioneiras saberão

mostrar-se agradecidas. Além disso, virá o tempo em que, estando nós

também no purgatório, nos medirão a nós com a medida que nós

tivermos medido aos outros (2).

Ó dulcíssimo Jesus, pela compaixão que mostrastes para com as multidões

famintas que Vos acompanhavam, tende piedade das almas do

purgatório. Volvei também para mim os vosso olhos piedosos, “e fazei, ó

Deus todo-poderoso, que na aflição pelas minhas iniquidades, respire com

a consolação de vossa graça”(3).

† Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.

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