**Análise Marxista do Golpe de 1987 em Burkina Fasso: Neocolonialismo, Classe e Traição da Revolução**
O golpe de 15 de outubro de 1987, que assassinou **Thomas Sankara** e instalou **Blaise Compaoré** no poder, foi um ato de contrarrevolução orquestrado por forças locais e internacionais para **restaurar o capitalismo neocolonial** em Burkina Fasso. Sob uma perspectiva marxista, o evento não foi apenas uma disputa pessoal entre ex-aliados, mas um **produto das contradições entre o projeto socialista de Sankara e os interesses da burguesia nacional e imperialista**. Abordaremos as raízes de classe, a cumplicidade imperialista e o significado histórico da traição.
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### **1. Contexto Histórico: A Revolução Sankarista e Seus Inimigos**
#### **a) Ameaça revolucionária ao capital:**
- **Sankara**, desde 1983, liderou uma revolução que desafiou o **neocolonialismo francês** e a burguesia local. Suas políticas (reforma agrária, nacionalização de recursos, educação gratuita) ameaçavam:
- **Elite tradicional**: Chefes tribais, burocratas e latifundiários, que perdiam poder com a redistribuição de terras.
- **Capital estrangeiro**: Empresas francesas (ex.: *Sofreco*) e instituições como o **FMI**, que exigiam privatizações e pagamento da dívida.
#### **b) Isolamento internacional:**
- Sankara denunciou a França por manter Burkina Fasso como "quintal colonial" e recusou-se a pagar a dívida externa, chamando-a de "**arma de dominação**". Sua aliança com movimentos anti-imperialistas (ex.: Nelson Mandela, FRELIMO) tornou-o alvo do Ocidente.
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### **2. As Classes Por Trás do Golpe: Burguesia e Burocracia**
#### **a) A burguesia burocrática:**
- Setores do exército e da administração pública, beneficiários do **status quo colonial**, opuseram-se às reformas de Sankara. Compaoré, outrora aliado, representava essa ala **conservadora e pró-França**, que temia perder privilégios.
- **Motim da base**: O golpe contou com apoio de oficiais que rejeitavam a **democratização das Forças Armadas** (ex.: promoção de soldados camponeses).
#### **b) A pequena burguesia urbana:**
- Setores da classe média, ligados ao comércio e ao funcionalismo público, viram em Sankara uma ameaça à sua **acumulação parasitária** (ex.: corrupção, contrabando). O golpe restaurou a velha ordem, permitindo que retomassem negócios ilegais.
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### **3. Imperialismo Francês e a Mão Oculta do Capital**
#### **a) França: o arquiteto oculto:**
- A **Françafrique** (rede de influência pós-colonial) via Sankara como uma "ameaça comunista". Documentos revelam que o governo francês forneceu **apoio logístico e inteligência** a Compaoré, incluindo treinamento em bases militares da Costa do Marfim.
- **Interesses econômicos**: A morte de Sankara permitiu que empresas francesas retomassem o controle do **algodão e minério** (ouro, manganês), revertendo a nacionalização.
#### **b) EUA e FMI: complacência estratégica:**
- O Ocidente ignorou o assassinato de Sankara, vendo Compaoré como "aliado estável". O FMI retomou empréstimos, exigindo **privatizações e ajustes estruturais**, revertendo as políticas sociais de Sankara.
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### **4. Contradições Internas: Fraquezas da Revolução**
#### **a) Centralização do poder:**
- Sankara, embora popular, concentrou decisões no partido único (CNR) e no exército, sem construir uma **base popular organizada** (ex.: sovietes ou conselhos camponeses). Isso permitiu que a burocracia militar se voltasse contra ele.
- **Repressão a dissidências**: Críticas de sindicatos e intelectuais foram sufocadas, gerando isolamento.
#### **b) Ilusão na neutralidade do exército:**
- Sankara acreditou que o exército, reformado para incluir camponeses, seria leal. Contudo, oficiais treinados na França (como Compaoré) mantinham **lealdade à ordem burguesa**.
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### **5. Legado: A Contrarrevolução em Marcha**
#### **a) Restauração neocolonial:**
- Compaoré governou por 27 anos (1987–2014), revertendo todas as políticas de Sankara:
- **Privatizações**: Vendeu empresas estatais ao capital francês e sul-africano.
- **Dívida externa**: Aumentou de US$ 1,2 bi (1987) para US$ 3,5 bi (2014), escravizando o país ao FMI.
- **Repressão**: Massacrou protestos (ex.: 2011), mantendo o **apartheid social** entre ricos e pobres.
#### **b) Resistência popular:**
- A memória de Sankara inspirou a **Revolução de 2014**, que derrubou Compaoré. Movimentos como o **Balai Citoyen** reivindicam seu legado, lutando contra a corrupção e o neocolonialismo.
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### **Conclusão: O Golpe como Derrota da Classe Trabalhadora**
O assassinato de Sankara foi uma **derrota histórica da revolução africana**, mostrando que o capitalismo não tolera ameaças à sua dominação. A colaboração entre a burguesia local e o imperialismo (França, FMI) revela que a luta de classes é **global e interdependente**. Como disse **Sankara**:
> *"Podemos perder revoluções, mas não podemos perder os princípios revolucionários"*.
Sua morte reforça a necessidade de **internacionalismo proletário** e de partidos revolucionários enraizados nas massas, capazes de resistir às contrarrevoluções. A história de Burkina Fasso é um alerta: sem destruir as estruturas do capitalismo e do colonialismo, nenhuma revolução estará segura.