QUINTA-FEIRA DEPOIS DO TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA
Os dons do Espírito Santo
Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de piedade (Is 11, 2).
Os dons são umas perfeições do homem com as quais se dispõe a mover-se prontamente por impulso da inspiração divina para agir de uma maneira sobre-humana:
1° No conhecimento das coisas necessárias e eternas, o espírito humano procede por um modo humano quando é aperfeiçoado pela virtude, quer dizer, o entendimento, que é o hábito dos primeiros princípios, ou pela fé, que é a contemplação das coisas divinas num espelho. Porém que sejam apreendidas as coisas espirituais, como em sua verdade desnuda, excede à capacidade humana, e isto o faz o dom de entendimento, que ilustra a mente sobre as coisas ouvidas pela fé.
2º É um procedimento humano que o homem julgue e ordene as coisas inferiores pela consideração dos primeiros princípios e das causas altíssimas. Isto se faz pela sabedoria, que é uma virtude intelectual. Porém que o homem se una a essas causas supremas e que seja transformado à semelhança delas pelo modo segundo o qual o que está unido ao Senhor é um só espírito com Ele (1Cor 6, 17), e que esse modo, como do mais profundo de si mesmo, julgue as demais coisas e ordene não somente o cognoscível, senão também as ações e paixões humanas, isto supera os procedimentos humanos, e se faz pelo dom da sabedoria.
3° Para agir é mister conselho. O modo humano é proceder inquirindo e conjeturando segundo o que costuma acontecer de ordinário, e isto se obtém pela eubolia, que é o bom conselho. Porém que o homem receba o que há de fazer, como ensinado com certeza pelo Espírito Santo, supera o modo humano, e isto o faz o dom de conselho.
4° Para a execução o procedimento humano consiste em que o homem forme um juízo das coisas que costumam ocorrer com freqüência segundo o resultado do conselho, e logo imponha a ordem desse juízo aos inferiores, o qual se faz pela prudência. Porém que o homem julgue com certeza sobre o que deve fazer, é coisa que está além de sua capacidade, e isto se faz pelo dom de ciência.
5° Para os atos que regulam nossas relações com os demais, estão, segundo o modo humano, a justiça, a liberdade, etc. Porém quando nestas relações alguém não se inspira nem pelo bem pessoal, nem pelo bem de outro, nem dá a outro o que se lhe deve ou quanto lhe convém, senão que dá quanto é aceito a Deus, o bem divino que resplandece em si mesmo ou no próximo, isto está para além dos procedimentos humanos e se faz pelo dom de piedade.
6° No governo das paixões do irascível, se toma humanamente por medida ou regra o bem da razão. Que o homem, medindo as próprias forças, se estenda a ações árduas de virtude segundo a medida daquelas, corresponde à magnanimidade. A virtude da fortaleza ensina a acometer ou fugir de males iminentes segundo a medida de suas forças. A mansidão faz com que o homem não se vá para além do que pede a gravidade da ofensa e a ordem do direito. Porém que o homem tome por medida em todas essas coisas a virtude divina, para empreender obras de virtude com relação às quais sabe que não se basta com suas próprias forças, que não tema os perigos que excedem a essas forças, confiando na ajuda divina, e que não somente não exija vingança pelas injúrias recebidas, antes bem se glorie nelas, pondo seu olhar na recompensa, são coisas sobre-humanas; isto se faz pelo dom de fortaleza.
7° Nas paixões do apetite concupiscível nos dirigimos, segundo o modo humano, ao bem da razão, isto é, a que o homem se afixe-se aos bens temporais enquanto necessita deles, o qual se obtém pela temperança. Porém que o homem por reverência à divina majestade considere todas essas coisas como esterco, é também coisa sobre-humana, e isto o faz pelo dom do temor de Deus.
— 3. Dist., 34, q. 1, a. 2