A TEORIA DA MÁFIA MULTIFORME
O primeiro assalto e a iniciação de violência primordial deve ter acontecido no tempo paleolítico, no conflito entre tribos inimigas que cruzavam o caminho umas da outras e, lutando pelos parcos recursos disponíveis e pela rara oportunidade de continuidade da linhagem através da captura de mulheres da tribo rival, estavam dispostos até às últimas consequências, vida ou morte; nesse caso, trata-se da entidade “máfia-tribo”, um contexto no qual cada tribo desconhecida era potencialmente um aglomerado de guerreiros hostis, nômades e assassinos.
O segundo assalto se deu na consolidação do período neolítico, quando esses mesmos caçadores-coletores se aproximaram dos ajuntamentos agrícolas matriarcais oferecendo proteção contra outras tribos e animais selvagens, mas logo se transformaram nos tiranos e senhores das terras através da imposição pela força bruta, coerção física, ameaça e vias de fato, então estava inaugurada a “máfia protetora”, ainda bastante presente na atualidade em contextos de favelização. Na verdade, a máfia protetora foi o embrião lógico do próprio Estado, que cresceu a partir dessa unidade econômica de simbiose parasitária (agricultura e armas), portanto podemos dizer que os Estados modernos são um caso de supercrescimento desse embrião, perpassando vários estágios ao longo da História; a sua diferenciação se daria mais pelo alto nível de complexidade estrutural da nova unidade econômica, mais pujante e mais poderosa.
Entretanto, com o crescimento dessas unidades econômicas de máfia protetora autocentrada, surgiram resistências internas e máfias localizadas em trechos de território dentro do próprio Estado, os chamados territórios do crime e do Estado paralelo. Muitas vezes, o Estado paralelo e o Estado oficial estão em profunda e subterrânea harmonia; outras vezes, antagonizam-se. Geralmente, movimentos violentos de resistência por guerrilha e guerra assimétrica acontecem pela antagonização entre as máfias supracitadas, mas neste caso a máfia menor também pode se comportar como uma máfia rizomática, descentralizada, ainda subterrânea, agindo de maneira coordenada ideologicamente em um esforço de violência e guerra interminável, como é o caso dos grupos terroristas e narcotraficantes.
Em todo caso, são diferentes formatos de entidades violadoras e mafiosas que, desde sempre, realizam a iniciação de violência, guerras, assassinato de inocentes, genocídios, violação de direitos humanos jusnaturais, roubo, expoliação, expropriação e toda sorte de tragédias. Apenas uma humanidade cujos recursos mais valiosos e escassos são inconfiscáveis, pode se livrar dessa longa Era de trevas e sangue; neste momento, a violência se tornará potencialmente nula ou uma operação altamente custosa e arriscada. Ao que tudo indica, o advento da riqueza inconfiscável poderá significar o início do fim das máfias em todas as suas formas e máscaras, inclusive a máscara de Leviatã.