MEDITAÇÕES PARA EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

- 3° DIA -

A morte segunda

O que sair vencedor, ficará ileso da segunda morte (Ap 2, 11).

1. Há uma dupla morte da alma: uma, nos pecados; outra nas penas; uma, na culpa; outra, no inferno. Igualmente existem duas mortes do corpo: uma na dissolução, outra na condenação eterna.

A primeira morte da alma se assemelha em muitas coisas à primeira morte do corpo. Porque assim como o corpo que primeiro se altera em sua temperatura normal, logo adoece, e por último morre, é levado ao sepulcro, enterrado e coberto com uma pedra; assim também a alma se destempera pelos maus pensamentos, logo adoece com o deleite pecaminoso, e morre pelo consentimento; depois é levada a enterrar-se pelo cumprimento da ação e sepultar-se pelo costume, e por último é coberta pelo endurecimento.

II. Ademais, como a morte do corpo dana, assim também o faz a morte da alma. A morte do corpo o separa da alma; a morte da alma separa-a de Deus.

A morte do corpo separa-nos dos parentes e dos amigos carnais; a morte da alma aparta os anjos e os santos. Pôs longe de mim os meus irmãos, isto é, os anjos, e os meus conhecidos como estranhos se apartaram de mim. Os meus vizinhos abandonaram-me, os meus íntimos esqueceram-se de mim (Jó 19, 13-14). Não somente os anjos abandonarão a alma pecadora, senão que se farão adversários e estarão contra ela no juízo. Todos os seus amigos a atraiçoaram, tornaram-se seus inimigos (Lm 1, 2).

A morte do corpo faz perder as riquezas do mundo, e a morte da alma tira as riquezas do céu. A nossa herança passou a estrangeiros (Lm 5, 2).

A morte do corpo priva da vista corporal, e a morte da alma tira a vista e todos os sentidos espirituais.

A morte do corpo produz dor, e a morte da alma a causa maior. Dói mais a morte da alma porque lança-nos no fogo eterno. Dói por causa da rigorosidade, diversidade e perenidade das penas. Essas três qualidades se expressam nas palavras: E tu, ó Deus, os conduzirás ao poço da perdição (SI 54, 24). A diversidade se expressa quando diz: conduzirás, isto é, levarás de pena em pena; a perenidade, quando diz: ao poço, de onde não pode sair aquele que em algum momento caiu ali.

III. Por outro lado, a morte da alma fere gravemente, sem misericórdia, incuravelmente. Eu te feri como inimigo, castiguei-te cruelmente (Jr 30, 14).

No entanto, esta ferida é curável, enquanto a alma está no corpo; mas depois de sair do corpo se fará incurável.

Assim, pois, quem não deseje ser ferido pela segunda morte, procure ser curado aqui da ferida da primeira morte, e mostre suas feridas ao samaritano, que as curará, derramando nelas o vinho da compulsão e o azeite do consolo. Quando alguém... reconhecendo a chaga de seu coração, levantar as suas mãos para ti nesta casa, tu ouvirás do céu, do lugar da tua morada, e tu, propício, reconciliar-te-ás com ele (3Rs 8, 38-39). Sobre isto diz Santo Agostinho: "Porventura não há entranhas de compaixão cristã em ti, que choras o corpo, do qual saiu a alma, e não choras a alma da qual se retirou Deus?".

-In Apoc., Il

Reply to this note

Please Login to reply.

Discussion

No replies yet.