MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

9 DE JULHO

O amor de Deus

Tu amas tudo o que existe, e não aborreces nada do que fizeste (Sb 11, 25)

1. Deus ama as coisas existentes, pois tudo o que existe é bom, porque existe, e a existência mesma de cada coisa é um bem, o mesmo que cada uma de suas perfeições. A vontade de Deus é a causa de todas as coisas; e assim é necessário que em cada uma haja tanto de ser e de bem quanto Deus quis que houvesse. Por conseguinte, Deus quer algum bem para todas as coisas que existem, e como amor não é outra coisa que querer o bem para alguém, é evidente que Deus ama tudo quanto existe.

Porém não da maneira que nós amamos. Porque nossa vontade não é causa da bondade das coisas, senão que é movida por ela como por seu objeto; o amor nosso, pelo que queremos o bem para alguém, não é causa da bondade deste, senão que, pelo contrário, sua bondade real ou suposta incita esse amor com que queremos conservar-lhe o bem que tem e acrescentar-lhe o que não tem, e para este fim agimos.

Porém o amor de Deus infunde e cria a bondade nos seres.

Deste modo o amante sai fora de si transferindo-se ao amado, enquanto quer para este o bem e por sual providência o proporciona, como o faz para si. Por isso diz São Dionísio: "Se há de ter coragem e dizer com verdade que também Ele, causa de todas as coisas, sai de si mesmo na abundância de sua bondade amadora, provedora de todo o existente".¹

-S. Th. I, q. 20, a. 2

II. Deus ama com amor admirável os membros de seu Unigênito. O mundo conheça que tu me enviaste, e que os amaste, como amaste também a mim (Jo 17, 23).

É preciso saber que Deus ama todas as coisas que fez, dando-lhes o ser; porém ama sobretudo a seu Filho Unigênito, a quem deu toda sua natureza pela geração eterna. Entre estes dois amores está o amor que tem aos membros de seu Unigênito, quer dizer, aos fiéis de Cristo, dando-lhes a graça pela qual Cristo habita neles.

Os amaste, como amaste também a mim; estas palavras não expressam identidade de amor, senão motivo e semelhança. Como que dizendo: O amor com que me hás amado é razão e causa de vosso amor a eles; porque, ao amar-me a mim, amas aos que me amam e que são meus membros. O mesmo Pai vos ama, porque vós me amastes (Jo 16, 27).

É lógico que agora não podemos conhecer quanto nos ama Deus, porque os bens que Deus há de dar-nos excedem nosso apetite e desejo, e não podem ser contidos em nosso coração. Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2, 9). Portanto o mundo crente, isto é, os santos, conhecerá por experiência quanto nos ama; porém os amadores do mundo, quer dizer, os maus, conhecerão isto vendo e admirando a glória dos santos, como diz o Livro da Sabedoria: Dirão dentro de si, tocados de inútil arrependimento, gemendo com angústia do espírito: Este é aquele de quem nós noutro tempo fazíamos zombaria, e a quem tínhamos por objeto de opróbrio. (Sb 5, 3). E mais abaixo: Vede como é contado entre os filhos de Deus, e entre os santos está a sua sorte? (Sb 5, 5).

-In Joan., XVII

Rodapé

¹ De div. nom, cap. 4.

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