MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
6 DE AGOSTO
A Transfiguração de Cristo
Tendo prenunciado sua Paixão a seus discípulos, o Senhor os havia induzido a que lhe seguissem no caminho do sofrimento. Para que alguém avance diretamente em um caminho, é necessário que de alguma maneira conheça o fim; do mesmo modo que o arqueiro não dispara retamente a flecha se não mira primeiro o alvo ao qual a dirige. Por isso disse São Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos saber o caminho? (Jo 14, 5). E isto é necessário principalmente quando a senda é difícil e áspera, o caminho laborioso, e o fim agradável.
Mas Cristo por sua Paixão chegou a obter não somente a glória da alma, que teve desde o princípio de sua concepção, senão também a do corpo, segundo aquilo de São Lucas: Porventura não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas, para entrar na sua glória? (Lc 24, 26). A ela conduz também aos que seguem as pegadas de sua Paixão, conforme estas palavras: É por muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus (At 14, 21).
E por isto foi conveniente que manifestasse a seus discípulos a glória de sua claridade, que é o mesmo que transfigurar-se, pois nesta claridade transfigurará aos seus, como diz o Apóstolo: Transformará o nosso corpo de miséria, fazendo-o semelhante ao seu corpo glorioso (Fl 3, 21). Do qual diz São Beda: "Em sua piedosa previsão lhes permitiu gozar um tempo muito curto a contemplação da alegria, que dura sempre, para fazer-lhes sobrelevar com maior fortaleza a adversidade".
-S. Th. IIIª, q. 45, a. 1
Tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os aparte a um alto monte (Mt 17, 1). Nisto nos ensina que todos os que desejam contemplar a Deus não devem deixar-se levar pelos baixos deleites, senão que, pelo amor das coisas mais elevadas, devem elevar-se sempre às celestiais, e com isto mostra a seus discípulos que não há que buscar a glória da caridade divina nos baixos fundos deste século, senão no rei no da bem-aventurança celestial. Somos conduzidos à parte, porque os santos estão separados dos maus com toda sua alma e com as tendências de sua fé, porém depois estarão separados totalmente.
Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: Senhor, bom é nós estarmos aqui (Mt 17, 4). Se São Pedro, ao ver a humanidade glorificada quis não se separar nunca desta visão, o que pensar dos que mereceram ver sua divindade? Diz-se que não sabia o que dizia pelo estupor da fragilidade humana. Porém sabia bem que o único bem do homem é entrar no gozo de seu Senhor.
-De Humanitate Christi