Sábado - 24 de Fevereiro - Segunda dor de
Maria Santíssima – Fugida para o Egito
Accipe puerum et matrem eius, et fuge in Aegyptum – “Toma o Menino e
sua Mãe, e foge para o Egito” (Mt 2, 13)
Sumário.
A profecia de São Simeão acerca da Paixão de Jesus e das dores de Maria começou desde logo a realizar-se na fugida que teve de fazer
para o Egito, a fim de subtrair o Filho à perseguição de Herodes.
Pobre Mãe! Quanto não devia ela sofrer tanto na viagem como durante a sua
permanência naquele país entre os infiéis! Vendo a Sagrada Família na sua
fugida, lembremo-nos que nós também somos peregrinos sobre a terra.
Para sentirmos menos os sofrimentos do exílio, à imitação de São José
tenhamos conosco no coração a Jesus e Maria.
I. Como cerva, que ferida pela flecha, aonde vai leva a sua dor, trazendo
sempre consigo a flecha que a feriu; assim a divina Mãe, depois da
profecia funesta de São Simeão, levava sempre consigo a sua dor com a
memória contínua da paixão do Filho. Tanto mais, que aquela profecia
começou desde logo a realizar-se na fugida que o Menino Jesus teve de
fazer para o Egito, a fim de se subtrair à perseguição de Herodes: Surge et
accipe puerum et matrem eius et fuge in Aegyptum — “Levanta-te, toma
o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito.”
Que pena, exclama São João Crisóstomo, devia causar ao Coração de
Maria, o ouvir a intimação daquele duro exílio com seu Filho! “Ó Deus”,
disse então Maria suspirando, como contempla o Bem-aventurado Alberto
Magno, “deve, pois fugir dos homens aquele que veio a salvar os
homens?”
Cada um pode considerar quanto padeceu a Santíssima Virgem naquela
viagem. A estrada, conforme à descrição de São Boaventura, era áspera,
desconhecida, cheia de bosques, pouco frequentada, e sobretudo muito
longa, de modo que a viagem foi ao menos de trinta dias. O tempo era de
inverno; por isso tiveram de viajar com neves, chuvas e ventos, por
caminhos arruinados cheios de lama, sem terem quem os guiasse ou
servisse. Maria tinha então quinze anos, e era uma donzela delicada, não
acostumada a semelhantes viagens. Que dó fazia ver aquela Virgenzinha
com o Menino nos braços e acompanhada somente de São José!
Pergunta São Boaventura: Quomodo faciebant de victu? Ubi nocte
quiescebant? — “De que alimentavam-se? Onde passavam as noites?” E
de que outra coisa podiam alimentar-se, senão de um pedaço de pão duro, trazido por São José, ou mendigado? Onde deviam dormir,
especialmente no extenso deserto pelo qual deviam passar, senão sobre a
terra, ao relento, com perigo de ladrões ou de feras em que abunda o
Egito? Oh! Quem tivera encontrado aqueles três grandes personagens,
por quem as haveria então reputado senão por três pobres mendigos e
vagabundos?
II. Opina Santo Anselmo que os santos peregrinos no Egito habitaram a
cidade de Heliópolis. Considere-se aqui a grande pobreza em que deviam
viver nos sete anos que ali permaneceram, como afirma Santo Antônio
com Santo Tomás e outros. Eram estrangeiros, desconhecidos, sem
rendimentos, sem dinheiro, sem parentes. Como diz São Basílio, chegaram
com dificuldade a sustentar-se com os seus pobres trabalhos. Escreve
Landolfo de Saxônia (e isto seja dito para consolação dos pobres), que
Maria se achava em tão grande pobreza, que algumas vezes não tinha
nem sequer um pouco de pão, que o Filho lhe pedia, obrigado pela fome.
Ver assim Jesus, Maria e José andarem fugitivos, peregrinando por este
mundo, ensina-nos que também devemos viver nesta terra como
peregrinos, sem que nos apeguemos aos bens que o mundo oferece, pois
que em breve os havemos de deixar e de ir para a eternidade: Non
habemus hic manentem civitatem, sed futuram inquirimus (1) — “Não
temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura”. Demais,
ensina-nos que abracemos as cruzes, já que neste mundo não se pode
viver sem cruz. — A Bem-aventurada Verônica de Binasco, Agostiniana, foi
levada em espírito a acompanhar Maria com o Menino Jesus na viagem ao
Egito, finda a qual lhe disse a divina Mãe: “Filha, acabas de ver com
quantas fadigas chegamos a este país; sabe, pois, que ninguém recebe
graças sem padecer.”
Quem deseja sentir menos os trabalhos desta vida, deve, à imitação de
São José, tomar consigo Jesus e Maria: Accipe puerum et matrem eius —
“Toma o Menino e sua Mãe”. A quem pelo amor traz no coração este Filho
e esta Mãe, se lhe tornam leves, quiçá doces e estimáveis, todas as penas.
Amemo-los, pois, e consolemos a Maria acolhendo o seu Filho dentro dos
nossos corações, que ainda hoje é continuamente perseguido pelos homens com os seus pecados.