MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
20 DE JULHO
Os pecados espirituais
Os pecados espirituais são de maior culpa que os pecados carnais; no qual não deve entender-se que qualquer pecado espiritual é de maior culpa que qualquer pecado carnal; senão que, considerada somente esta diferença de espiritualidade e carnalidade, são mais graves os espirituais que os carnais em igualdade de circunstâncias.
Disto podem destacar-se três razões:
A primeira de parte do sujeito, porque os pecados espirituais pertencem ao espírito, ao qual é próprio dirigir-se a Deus e apartar-se d'Ele; mas os pecados carnais se consumam no deleite do apetite carnal, ao qual corresponde principalmente dirigir-se ao bem corporal; e por conseguinte o pecado carnal, como tal, tem mais de conversão, pelo que também é de maior adesão; porém o pecado espiritual tem mais de aversão, da qual procede a razão de culpa; e, pela mesma razão, o pecado espiritual, como tal, é de maior culpa.
A segunda razão pode tomar-se de parte daquele contra quem se peca; porque o pecado carnal, como tal, vai contra o próprio corpo, o que é menos digno de amor, segundo a ordem da caridade, que Deus e o próximo, contra os quais se peca pelos pecados espirituais; e assim estes, como tais, são de maior culpa.
A terceira razão pode tirar-se do motivo, porque quanto mais grave é o que impulsiona a pecar, tanto menos peca o homem; mas os pecados carnais têm mais veemente incitativo, que é a mesma concupiscência da carne, inata em nós, e por conseguinte os pecados espirituais, como tais, são de maior culpa.
É certo, como disse Santo Agostinho, que o Diabo se goza muito do pecado de luxúria, não porque seja mais grave, senão porque é de máxima aderência, e dificilmente pode ser arrancado dele o homem; pois o apetite deleitável é insaciável.
Porém que os pecados carnais sejam de maior infâmia, não quer dizer que sejam mais graves. Pois é mais torpe ser incontinente de concupiscência que incontinente de ira, já que participa menos da razão; e os pecados de intemperança são em grande maneira reprováveis, porque têm por objeto aqueles deleites que nos são comuns com as bestas; pelo que, de certo modo, por esses pecados o homem se torna brutal; e daí provém que, como disse São Gregório, sejam de maior infâmia.
- S. Th. Iª IIæ, q. 73, a. 5