Meditação para a tarde de terça-feira - Jesus é condenado e vai ao Calvário.
Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigerunt – “Então entregou-lhes Jesus, para ser crucificado” (Jo 19, 16)
Sumário.
Imaginemos ver Jesus Cristo que escuta a injusta sentença de
morte, aceita-a por nosso amor, e abraçando a cruz, se encaminha para o
Calvário. Os judeus temendo que a cada momento expire, e desejosos de
O ver morrer crucificado, obrigam a Simão Cirineu a levar a cruz atrás de
Jesus. Unamo-nos ao ditoso Simão, e abraçando com resignação a nossa
cruz, carreguemo-la atrás de Jesus, que no-la manda para nosso bem.
I. Considera como Pilatos, depois de proclamar diversas vezes a inocência
de Jesus, finalmente a torna a proclamar, lavando as mãos e protestando
que é inocente do sangue daquele justo. Se, pois, havia de morrer, os
judeus deveriam responder por Ele. Em seguida lavra a sentença e
condena Jesus à morte. Ó injustiça nunca mais vista no mundo! O Juiz
condena o acusado ao mesmo tempo que o declara inocente!
Lê-se a iníqua sentença de morte na presença do Senhor condenado; este
escuta-a, e todo conformado com o decreto de seu Eterno Pai, que o
condena à cruz, aceita-a humildemente, não pelos delitos que os judeus
lhe imputavam falsamente, mas pelas nossas culpas verdadeiras, pelas
quais se tinha oferecido a satisfazer com a sua morte. Na terra, Pilatos diz:
Morra Jesus; e o Pai Eterno confirma a sentença no céu dizendo: Morra
meu Filho. E o mesmo Filho acrescenta: Eis-me aqui, obedeço e aceito a
morte, e a morte de cruz: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque
ad mortem, mortem autem crucis (1) — “Humilhou-se a si mesmo, feito
obediente até a morte, e morte de cruz.”
Meu amado Redentor, aceitais a morte que eu devia sofrer, e pela vossa
morte me alcançais a vida. Agradeço-Vos, ó amor meu, e espero ir ao céu
para cantar eternamente as vossas misericórdias: Misericordias Domini in
aeternum cantabo (2) Mas, já que Vós inocente aceitais a morte de cruz,
eu pecador aceito de boa vontade a morte que me destinais; aceito-a com
todas as penas que a tenham de preceder ou de acompanhar, e desde
agora ofereço-a a vosso Eterno Pai em união com a vossa santa morte.
Vós morrestes por meu amor, eu quero morrer por vosso amor.
II. Lida a sentença, o povo desgraçado levanta um brado de júbilo e diz:
“Felizmente Jesus é condenado à morte! Vamos depressa, não percamos
tempo, prepare-se a cruz, e façamo-Lo morrer antes do dia de amanhã, que é a Páscoa.” — E no mesmo instante agarram a Jesus, tiram-Lhe o
manto vermelho dos ombros e entregam-Lhe os seus próprios vestidos; a
fim de que, segundo diz Santo Ambrósio, fosse reconhecido pelo povo por
aquele mesmo impostor (assim o chamavam) que poucos dias antes fora
recebido como Messias. Depois tomam duas rudes traves, que compõem
em forma de cruz, e mandam-Lhe com insolência que a leve sobre seus
ombros até o lugar do suplício. Ó Deus, que crueldade, carregar com
tamanho peso um homem tão maltratado e enfraquecido!
Jesus abraça a cruz com amor e encaminha-se para o Calvário. O seu
aspecto naquele caminho é tão lastimoso, que as mulheres de Jerusalém,
ao vê-Lo, O acompanham, chorando e lamentando tamanha crueldade.
Mas, nem assim os pérfidos judeus são levados à compaixão! Ao contrário,
desejando, por um lado, ver Jesus crucificado, e, por outro, temendo que
expirasse no caminho, visto que caía quase a cada passo, tiraram-Lhe a
cruz dos ombros e obrigaram certo homem, de nome Simão, a carregá-la.
— Minha alma, une-te ao ditoso Cirineu; abraça a tua cruz por amor de
Cristo, que por teu amor padece tanto. Vê como Ele vai adiante e te
convida a segui-Lo: Qui vult venire post me, tollat crucem suam, et
sequatur me (3) — “Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-
me”.
Não, meu Jesus, não quero deixar-Vos; quero seguir-Vos até morrer. Pelos
merecimentos desse caminho doloroso, dai-me força para carregar com
paciência a cruz que quiserdes mandar-me. Ah! Vós nos fizestes
nimiamente amáveis os sofrimentos e os desprezos, abraçando-os por nós
com tanto amor! Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por mim.