MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA ILUMINATIVA
30 DE AGOSTO
A temperança
I. A temperança pode considerar-se segundo sua significação comum, e assim não é virtude especial, senão geral, porque o nome de temperança designa certo temperamento, isto é, moderação, que a razão põe nas ações e paixões humanas, o qual é comum a toda virtude moral. No entanto, a temperança difere razoavelmente da fortaleza, ainda que consideradas ambas como virtudes comuns; porque a temperança retrai das coisas que aumentam o apetite humano de um modo contrário à razão e à lei divina, e a fortaleza impele a sofrer ou acometer aquelas pelas quais o homem recusa o bem da razão.
Porém se se considera a temperança enquanto refreia o apetite do que mais principalmente impele o homem, então é virtude especial, tem como que matéria especial, assim como a fortaleza. Principalmente e de maneira própria a temperança tem por objeto as concupiscências e deleites do tato, e secundariamente, as demais concupiscências. O que a fortaleza é aos temores e audácias com relação aos maiores males, que são os perigos de morte, é também a temperança com relação às concupiscências dos maiores deleites. Tais deleites pertencem ao sentido do tato.
-S. Th. II II, q. 141, a. 2 e 4
II. A regra da temperança deve tomar-se segundo a necessidade da vida presente.
O bem da virtude moral consiste principalmente na ordem da razão. A ordem principal da razão reside em que algo se ordene a seu fim; e nesta ordem consiste sobretudo o bem da razão, porque o bem tem razão de fim, e o fim mesmo é a regra do que a ele conduz. Porém todas as coisas deleitáveis destinadas ao uso do homem se ordenam a alguma necessidade desta vida como ao fim, e por isto a temperança aceita a necessidade desta vida como regra das coisas deleitáveis, de que faz uso unicamente na medida em que a necessidade desta vida requer. Por isso diz Santo Agostinho: "O varão moderado tem por regra nas coisas desta vida aquela estabelecida em ambos os testamentos, de não amar nem considerar como desejável nada delas, senão tomar para a necessidade de sua vida e seus de- veres quando basta que use delas com modéstia e não com o afeto de quem as ama".
S. Th. IIª IIæ, q. 141, a. 2
III. Mesmo quando a formosura convenha a qualquer virtude, atribui-se, contudo, excelentemente à temperança: primeiro, segundo a razão comum dela, à qual pertence certa moderada e conveniente proporção, na qual consiste a razão da formosura; segundo, porque as coisas que refreiam a temperança são ínfimas no homem e convenientes a ele segundo a natureza animal, por isso o homem é mais propenso a ser manchado por elas. Em conseqüência, a formosura se atribui principalmente à temperança, que destrói principalmente estas torpezas do homem e rechaça os vícios mais afrontosos.
-S. Th. IIª IIæ, q. 141, a. 2, ad 3um