Terça-Feira - 27 de março - Jesus é coroado de espinhos e apresentado ao povo

Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius – “E

entrançando uma coroa de espinhos Lha puseram na cabeça” (Jo 19, 1)

Sumário. Depois de terem açoitado a Jesus, os algozes, tratando-O como

rei de comédia, atiram-Lhe sobre os ombros um manto de púrpura,

colocam-Lhe um caniço na mão, e põem-Lhe na cabeça uma coroa de

espinhos, na qual batem fortemente com o caniço, a fim de que penetre

mais. O Senhor ficou reduzido a tão triste estado, que Pilatos julgou que

comoveria de compaixão os próprios inimigos, só com apresentá-Lo.

Contemplemo-Lo também, e pensando que foi tão maltratado por nosso

amor, não tenhamos a crueldade de dizer com os judeus: Crucifigatur —

“Seja crucificado”.

I. Contemplemos os outros bárbaros suplícios que os soldados infligiram a

nosso Senhor já tão atormentado. Instigados, e, como afirma São João Crisóstomo, subornados pelo dinheiro dos Judeus, reúnem ao redor de

Jesus toda a corte, põem-Lhe aos ombros um manto vermelho a servir de

manto real, nas mãos colocam-Lhe um caniço a servir de cetro e na cabeça

um feixe de espinhos a servir de coroa. Os espinhos estavam entrelaçados

em forma de capacete, de modo que Lhe cobria a cabeça toda: Et

plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius.

Mas, porque os espinhos com a força das mãos não penetravam bastante

na cabeça sagrada, já tão ferida pelos açoites, tomam-Lhe o caniço, e

enquanto Lhe escarravam também no rosto, batem com toda a força

sobre a cruel coroa, de sorte que rios de sangue corriam da cabeça ferida

pelo rosto e sobre o peito. Ah, espinhos ingratos! É assim que atormentais

o vosso Criador? — Mas, para que acusar os espinhos? Ó pensamentos

perversos dos homens, sois vós que transpassastes a cabeça do meu

Redentor.

Eia, minha alma, prostra-te aos pés de teu Senhor coroado; detesta ali os

teus consentimentos pecaminosos, e roga-Lhe que te traspasse com um

daqueles espinhos, consagrados pelo seu preciosíssimo sangue, a fim de

que não o tornes mais a ofender. — Enquanto os bárbaros algozes,

juntando o escárnio à dor, o tratam como rei de comédia, d’Ele motejam e

o esbofeteiam, tu, pelo menos, reconhece-O pelo Supremo Senhor de

tudo, como na verdade é; feito agora Rei de dor por amor dos homens.

II. Voltando outra vez Jesus ao pretório de Pilatos, depois da flagelação e

coroação de espinhos, este, ao vê-Lo todo dilacerado e desfigurado,

capacitou-se de que comoveria o povo à compaixão, só com mostrá-Lo.

Saiu, pois, para a varanda com o nosso aflito Salvador, e disse: Ecce homo

— “Eis aqui o homem”. Como se dissesse: Judeus, contentai-vos com o

que este inocente tem sofrido até agora; vede a que estado se acha

reduzido. Que medo ainda podeis ter que Ele queira fazer-se vosso rei,

visto que não pode mais viver? Deixai-O ir morrer em sua casa. Exivit ergo

Iesus, portans coronam spineam, et purpureum vestimentum (1) – “Jesus

saiu coroado de espinhos e vestido de um manto de púrpura”.

Minha alma, tu também contempla naquela varanda a teu Senhor, ligado

e arrastado por um algoz. Vê-O, como ali está meio despido, se bem que coberto de chagas e sangue, com as carnes todas rasgadas, com aquele

farrapo de manto purpúreo, que serve tão somente para escarnecê-Lo, e

com a cruel coroa que continuamente o atormenta. Vê a que estado se

acha reduzido o teu Pastor, para te achar, a ti, sua ovelha perdida.

Ah meu Jesus! Quantos papéis de teatro fazem-Vos os homens

representar, mas todos eles de dor e de ignomínia. Ó dulcíssimo Redentor,

inspirais compaixão às próprias feras, mais aí não achais piedade! Ouve o

que aquele povo responde Crucifige, crucifige eum! (2) — “Crucifica-o,

crucifica-o!” Mas, ó Senhor meu, o que dirão no último dia, quando Vos

virem na glória, sentado como Juiz num trono de luz? Ai de mim! Jesus

meu, houve um tempo em que eu também disse: “Crucifica-o, crucifica-

o!” Foi quando Vos ofendi pelos meus pecados.

Agora arrependo-me deles mais que de todos os outros males e amo-Vos

sobre todas as coisas, ó Deus de minha alma. Perdoai-me pelos

merecimentos de vossa Paixão. — Ó Mãe de dores, Maria, fazei que no dia

do juízo eu veja vosso Filho aplacado e não irado para comigo.

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