MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA ILUMINATIVA
2 DE SETEMBRO
A causa e o efeito da devoção
I. A causa da devoção. No decorrer da minha reflexão um fogo se ateou (S1 38, 4).
A causa extrínseca e principal da devoção é Deus. Mas a causa intrínseca por nossa parte é necessário que seja a meditação ou a contemplação; pois a devoção é um ato da vontade para que o homem se entregue prontamente ao obséquio divino. Mas todo ato da vontade procede de alguma consideração, porque o bem conhecido é objeto da vontade. Por isto diz Santo Agostinho que "a vontade nasce da inteligência". Por conseqüência, é mister que a meditação seja causa da devoção, enquanto o homem concebe pela meditação o entregar-se ao obséquio divino.
A ele lhe move, com efeito, uma dupla consideração: Uma por parte da bondade divina e de seus benefícios. Segundo aquilo do Salmo: Mas para mim é bom estar junto de Deus, pôr no Senhor Deus o meu refúgio (Sl 72, 28). Esta consideração excita o amor, causa próxima da devoção.
E outra, por parte do homem, que considera seus defeitos, por causa dos quais necessita apoiar-se em Deus, como diz a Escritura: Levanto os meus olhos para os montes: donde me virá o socorro? O meu so- corro vem do Senhor, que fez o céu e a terra (Sl 120, 1). Esta consideração exclui a presunção, que impede o homem de submeter-se a Deus, pois que se apóia em suas próprias forças.
A ciência, com efeito, e tudo quanto revela grandeza, é uma ocasião de que o homem confie em si mesmo e por isso não se entregue totalmente a Deus. Daí é que tais coisas impeçam, às vezes, ocasionalmente a devoção, e a devoção abunda nas pessoas simples e nas mulheres, cujo orgulho é reprimido. Porém se o homem submete perfeitamente a Deus a ciência e qualquer outra perfeição, por isto mesmo se acrescenta a devoção.
II. O efeito da devoção é a alegria. *
A devoção causa de per si, e principalmente, alegria espiritual da mente; mas como conseqüência e somente acidentalmente produz tristeza.
A devoção procede de duas considerações; principalmente da consideração da bondade divina, pois tal consideração pertence como ao término do movimento da vontade do que se entrega a Deus, e dela procede per se a deleite, segundo aquilo do Salmo: Lembrei-me de Deus, e senti-me cheio de gozo (SI 76, 4). Porém acidentalmente esta consideração causa certa tristeza naqueles que, todavia, não gozam plenamente de Deus, como diz o Profeta: A minha alma tem sede de Deus, fonte viva,** e depois segue: Minhas lágrimas são o meu pão (SI 41, 3 e 4).
A consideração dos defeitos próprios ocasiona secundariamente a devoção; porque esta consideração pertence ao término, do qual o homem se separa pelo movimento da vontade devota para que já não exista em si mesmo, senão que se submeta a Deus. Esta consideração é de índole oposta à primeira; porque lhe é natural produzir per si a tristeza, ao pensar nos pró- prios defeitos, porém acidentalmente causa alegria, pela esperança no auxílio divino.
E deste modo se evidencia que o deleite segue de per si e primariamente à devoção, porém secundariamente e acidentalmente segue a tristeza, que é segundo Deus.
-S. Th. IIª IIæ, q. 82, a. 3 e 4
Rodapé
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* Santo Tomás neste mesmo artigo cita a belíssima oração do Breviario Romano (Laudes da sexta-feira da quarta semana da Quaresma) que transcrevo ao português em obsequio aos leitores seculares: "Concede, te rogamos, Deus onipotente, que àqueles aos quais castigam os jejuns votivos (os prescritos pelas leis da Igreja) regozije assim mesmo a devoção santa, para que atenuados os afetos terrenos, mais facilmente alcancemos as coisas celestiais".
** Santo Tomás segue aqui uma versão anterior à correção de Clemente VIII, pois depois desta o texto diz: fortem, vivum-forte, vivo, no lugar de fonte viva.