a consciência com que agimos não é individual, não surge de nós enquanto entes separados do mundo, mas, ao mesmo tempo, sim, passa pela nossa singularidade e não a exclui nesse processo. acreditar que mudamos a nós mesmos individualmente é como pensar que estamos separados do outro que escutamos e nos inspirou a mudança, por exemplo. mas, sim, tem uma solitude em tudo isso, e eu tenho tentado investigar o que é essa singularidade em nós, o que é essa solitude, e tenho visto que ela não é uma solitude de separação, mas de composição.

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Discussion

Compreendo o sistema global que você coloca, no sentido mais holístico da coisa, mas, se entendessemos o mundo só por essa forma, não precisaríamos ter razão e individuação, em forma física (individuos humanos) e pensamento (ideia), concorda?

Não precisariamos nos esforçar individualmente para nos manter, construir, mudar de ideia, nos aprimorar, até mesmo para perceber essa esfera macro e até em se ver com cooperador para uma harmonia maior no sentido geral...

Sei que tudo o que existe tem conexões, mas tem uma boa razão biológica para sermos separados em corpos, mentes e experiências, caso contrário, nós não estariamos aqui agora como estamos e conversando, ou sequer existiria "eu".

Vejo a escala total e a particular como diferentes lentes, mas ambas tanto ilusórias quanto necessárias, pois tanto nunca conseguimos conceber a realidade como ela é, quanto não conseguimos ver algo sem olhar.

eu estou tateando as experiências nesse sentido mais holístico, porque eu sempre fui bastante orientada pelo individualismo, de pensar que os indivíduos é que são responsáveis pelo modo como as coisas estão e, portanto, cabe a eles as mudanças.

mas os pequenos instantes em que vivi algo diferente foram, por exemplo, um pensamento que não surge de mim, mas de um insight depois de um processo de deixar esse eu pequenininho, só o suficiente para sustentar o corpo em estado de presença. um pensamento que surge em composição com uma experiência, e não de um esforço para chegar em um lugar conhecido. uma ideia que surge de um lugar livre de condicionamentos desse eu tão crente de que é algo fixo e sólido.

mas isso que você questiona também é um dos assuntos que mais me interessa investigar. um dia, uns sete anos atrás, comecei a elaborar uma pergunta sobre isso, mas me perdi. vou deixá-la aqui:

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dizer que eu não existo como aparento pressupõe a minha existência. e é claro, eu existo, e até faço essa pergunta, mas que é essa existência singular?

eu não existo inerentemente, só existo em uma relação com tudo o que também existe. é possível, sentir ou pelo menos me dar conta da minha existência singular, daquilo que me é único, que me torna parte indispensável pra que essa composição seja como é? dentro dessa enorme teia de relações, eu consigo encontrar meus contornos, vou chamar de minha essência, sem me distrair com as coisas que eu penso que não são eu?

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eu não sei porquê temos esses corpos separados, mas eu vejo que só existe composição porque somos diferentes. só existe esse ambiente rico em interações e transformações porque somos singulares.

Nós vivemos hoje em um mundo com excesso de intelectualismo, racionalização e informações, e isso torna tudo muito mais pesado, por isso concordo com você que é ainda mais importante se afastar, cutivar a solitude e eliminar esses excessos e condicionamentos, compreendendo essas questões com um olhar mais distanciado do tumulto externo e interno.

Mas, nesse passo, vejo que deve também haver um reequilibrio entre a intuição e da racionalização, nem num excesso de plenitude que deixa de ver as partes, nem num excesso de divisão que deixa ver o panorama, até porque somos seres naturalmente construtores, nos satisfazemos pensando, imaginando e criando, precisando do intelecto para isso, embora também somos seres espirituosos, buscamos elevação interior na simplicidade, no ócio, na caminhada e ao observar as coisas de formas mais profundas, precisando da intuição para isso.

O pensamento econômico, por exemplo, é fundamentalmente individualista, mas longe de ser pesado, é necessario. As pessoas produzem e armazenam os resultados para usar depois para si ou para trocar porque é natural de si e precisam sobreviver, assim como outros seres vivos fazem. Mas, a partir do conjunto desses comportamentos de troca de recursos surge o coletivo, o mercado, de forma que não tem como qualquer pessoa prever a ação humana nesse processo, não se conhece o todo, embora possa cooperar pontualmente com o que acredita, pode e sabe fazer.

Já a percepção da amplitude, essência e leveza das coisas, também depende de nós, mas é algo mais íntimo e indireto, pois depende de como as coisas a volta se apresentam a nós, assim como depende do quanto estamos abertos a olhar e interagir, ou seja, também nunca será algo que você tirará a completa compreensão tanto interior como externa, já que cada associação entre as coisas em si e o que você percebe, será sempre diferente. Tudo estará se modificando ao redor, e a sua figura e a sua essência também, permanecendo sempre majoritariamente indefiníveis.

Em relação a singularidade, depende do que você chamar de singular, de único, de "um": A existência, universo, planeta, espécie humana, eu, célula... Todos são raros por serem diferentes e todos geram algo a partir de como são e onde estão, embora nós, seres humanos, não saibemos lidar com tantas coisas ao mesmo tempo e temos a singularidade mais como um sentimento de apreciação da coisa percebida.

O meu ponto com tudo isso é que tudo isso é buscável e treinável, e depende do que nós individualmente decidimos fazer dentre de várias outras coisas e independente da situação a nossa volta: A solitude, a observação, a retirada do que não nos serve, a intuição, o intelecto, o equilíbrio, a construção, a inspiração, a participação, a percepção, a apreciação e etc, pois somos movidos pela nossa consciência e instinto a buscar significância e sentido.

olha, eu tô tentando investigar isso tudo aqui, então se algo for contraditório ou confuso pode ficar à vontade pra apontar.

me chamou atenção isso que você falou sobre se afastar do excesso de racionalização e de informações. e eu acho que eu tenho tentado fazer isso como uma decisão racional (embora não consciente) e isso só gera mais uma interferência e peso. a experiência que eu tenho vivido é de observar esses excessos, estar consciente de como eles têm atuado em minha vida, sem precisar me identificar com eles. e isso coloca a razão, o conhecimento e as informações no lugar onde precisam estar, na composição das coisas, e não como ponto de partida de tudo.

quando a razão ou o conhecimento são o ponto de partida das ações, ficamos sujeitos aos nossos próprios limites e não estamos abertos às possibilidades do que a razão não alcança. é como se começássemos de dentro de uma caixa e, claro, tem espaço pra intuir, ser criativo e tudo dentro dessa caixa, mas já começa ali dentro e não tem espaço para ir além.

agora, começar observando a razão, os pensamentos, ideias, mas sem se deixar levar por elas, com abertura pra investigar se elas se sustentam mesmo, é isso que nos permite observar a caixa, e nos torna aptos a criar com ela e não presos a ela. esse observador se percebe enquanto observador e se inclui na observação. o que eu descubro quando me observo é que eu não sou exatamente aquilo que eu supunha, e que há muito mais abertura do que a razão concebe. acho que tem algo aqui, mas estou me perdendo.

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surge isto:

estar aberta ao todo observando as partes, com consciência de que uma parte é uma parte e compõe o todo e atua no todo e pelo todo é tocada. a consciência de que parte e todo são indissociáveis, não a teoria, mas a observação prática, a investigação presente dessa afirmação, talvez seja o ponto de partida para a não exclusão de nenhuma das nossas potencialidades.

queria falar mais sobre o pensamento econômico e tudo o que surge a partir desse olhar, mas eu não consigo agora.

Creio que compreendo o que você colocou e entendo como uma postura importante, mas tendo a entender que o desapego e a abertura também podem se tornar excessivos, tanto quanto o apego e as caixinhas, pois podemos nos perder no excesso de observação, no excesso de desprendimento, no excesso de busca por paz e beleza, tal como percebo que algumas pessoas que divagam ou até alucinam com algo ou em si mesmas (mesmo que ritualisticamente) se tornam.

Nós não somos só espirituais, conexões, interações, somos também corpo, particularidade e ente. Há coisas subjetivas e que nos encantam, e coisas objetivas e que nos instrumentalizam.

Noto que a espiritualidade mais ao oriente, por exemplo, tende mais à quietude, solitude, paciência e ao desapego, enquanto a espiritualidade mais ao ocidente tende mais a expressão, comunidade, agência e realização, um mais subjetivo e outro mais objetivo. E entendo que não há um certo e um errado, apenas tendências. O nosso próprio cérebro, por exemplo, mesmo que seja um órgão só, também é dividido em hemisférios, um mais analítico, objetivo e racional, e outro mais intuitivo, subjetivo e emocional.

Por isso digo que o equilíbrio é importante, pois mesmo sair da caixinha cria uma nova caixa, que ainda que mais ampla, que não necessáriamente sustenta bem o que está dentro das caixinhas menores, sem elas.

é isso. observar as caixas que se formam inclusive a partir do pensamento sobre a abertura. porque a abertura não pode estar em uma caixa ou foi capturada pela racionalidade, virou um conhecimento - e tem o seu lugar, mas não me parece ser o de base.

tem algo em nós que observa as caixas, mas não está dentro de nenhuma, nem da mais ampla. é o que é íntimo do mistério.

não sei se é uma questão de equilíbrio como se um desse lugar ao outro, me parece mais algo que acontece simultaneamente: razão e abertura, ao mesmo tempo. introspecção e ampliação, ao mesmo tempo. mas talvez um ou o outro apareça mais em momentos diferentes. como agora, para escrever é claro que uso a razão e algum conhecimento da língua, e, ao mesmo tempo, tem algo de aberrura - embora eu veja que eu sou o tempo todo tomada pela tentativa de encaixar os pensamentos no que me é conhecido. me parece mais o lugar onde deixamos a razão atuar. me parece que a razão está deslocada e poderia estar em um lugar muito mais potente.

eu tenho essas tendências: excesso de pensamento e mais lentidão nas ações, e também a tendência a me perder mergulhando nas partes, nos indivíduos e com dificuldade de ampliar a visão e olhar para o todo.

mas é um destreino que estou experimentando fazer e observando o que acontece. vivo alguns lampejos de inspiração em que eu me encontro nesse estado de abertura por instantes, eapecialmente na relação com crianças e meu marido, mas normalmente a razão - e as emoções não reconhecidas, tomam a frente dos processos.

só que essa conversa tem tantos conceitos ao mesmo tempo que eu queria esmiuçar cada coisa, mas não tenho a menor esperança de conseguir.

O ato de observar é algo que já está em nós, é uma capacidade inata, tal como bebês que aprendem as coisas por ver os rostos dos pais e o que acontece por associação, pois já nascemos com inteligencia. Mas nisso, a observação em si mesma não tem repertório e tende justamente a capitar o que o redor diz ainda que seja falso, pois em grande parte não há filtro.

O filtro só surge quando desenvolvemos a reflexão e interpretação observacional, pois elas sempre vão tomar como base as suas experiências anteriores, mas mesmo assim com condicionantes internos já absorvidos que sempre estruturam limites, por isso chamo de uma 'caixa geral'.

Em relação a simultaneidade da razão e intuição, entendo que depende onde mantemos a atenção. Não dá para manter os dois olhos abertos e fechados ao mesmo tempo, por exemplo, logo só dar para os abrir, fechar, ou manter um fechado e outro aberto, assim como no dia a dia parcelamos a intuição e a razão, um em função do outro, por isso falo do equilíbrio, só conseguimos ter fluidez, ao invés do tédio ou ansiedade, do excesso de subjetividade ou de objetividade, para cada coisa, por isso precisamos treinar para cada uma individualmente para ter um alto controle e autocontrole, tal como não conseguimos usar o mesmo tipo de flow do exercício físico ao buscar aprender uma nova língua.

Já em relação das nossas tendências individuais, eu tambem tendo a ser mais de pensar que de agir, mas noto que o nosso comportamento natural em relação aos pensamentos e ações tem também tem relação com o nosso metabolismo e não só com a nossa vivência. Por outro lado, não necessariamente essas propensões devem ser sempre equilibradas, o ideal é usar as virtudes da tendência de mais pensamentos para coisas que exigem isso, como por exemplo, para escrever, se comunicar melhor ou planejar algo, e por outro lado, nos vícios da maior tendência de pensamento buscarmos equilibrar com o treino da quietude (caminhada, meditação, contemplação...).

É realmente muita coisa, e é até um pouco complicado explicitar bem os pontos, mas muita coisa que eu falo aqui, eu já fiz ou já presenciei por experiência própria. Acho que dá para perceber que eu gosto de investigar coisas, de testar e de escrever 😅