(2) a maneira a qual suas peças estão dispostas, etc. Não podemos confundir a forma com o formato de algo: o formato é meramente a extensão geométrica da matéria, a forma compreende isso e ainda a maneira pelo qual a matéria se organiza; a forma é ato da matéria.Nesse sentido, se fosse o olho um ser ou animal autônomo, a visão seria sua forma (pois a visão é o ato do olho), portanto,
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(3) a visão é a alma do olho. O mesmo se aplica aos demais órgãos do corpo se fossem eles animais autônomos e não partes de um todo.
Aristóteles acreditava que, nos seres vivos irracionais, como plantas e animais, a alma é material (no sentido de possuir operações puramente materiais). Um vez que se destrói o olho, se destrói a visão, se se destrói os tímpanos, igualmente a audição, etc. Por esse motivo, quando se mata o+
(4) animal, sua alma não sobrevive (pois ela se reduz meramente às operações sensíveis, como a audição, tato, paladar, visão, etc.) Tampouco a alma da planta sobreviveria, pois ela igualmente só faz operações materiais (como a fotossíntese).
Entretanto, no caso do homem, a história muda de figura. Não poderia o homem, de fato, conseguir pensar e imaginar sem o órgão que diz respeito+
(5) a essa operação (o cérebro), uma vez que estivesse morto. Entretanto, há operações da alma racional (alma humana) que não são meramente materiais. O homem é o único animal capaz de criar um conceito universal acerca de algo, através do processo de abstração. Quando pensamos em "cadeira", não pensamos nesta ou naquela cadeira, pensamos simplesmente na ideia de um acento com encosto. Um conceito universal não poderia+
(6) ser algo material, ou algo produzido por um órgão material. Ora, a matéria é sempre singular, só diz respeito ao sensível e ao indivíduo. Um conceito é algo insensível, não pode ser visto, tocado, cheirado, etc. Nem tampouco é singular e indivíduo: esta cadeira é somente esta cadeira, só ocupa um lugar no espaço e diz respeito somente a ela. O conceito de cadeira diz respeito não somente a essa cadeira, mas àquela e acolá também. O conceito da cadeira é, portanto, imaterial, pois não ocupa lugar no espaço, nem é singular e tampouco sensível.+
(7) Não se vê o conceito de "cadeira" desfilando por aí, nem ele diz respeito somente a um único indivíduo (esta ou aquela cadeira), e muito menos pode ser tocado pelos sentidos.
Agora, pergunto, como um conceito imaterial poderia ser produzido por uma alma material? Se fosse a alma do homem material, ela seria como a dos animais irracionais. Só poderíamos nos contentar com as experiências singulares, que nossos sentidos nos mostram, e só reagiríamos a elas nos conformes dos instintos produzidos por nossos órgãos.
A alma é imaterial pois+
(7) só assim poderíamos pensar no imaterial. E se é imaterial, ela sobrevive a destruição do corpo.
Ora, como poderia a corrupção da matéria, dos órgãos, interferir naquilo que não se reduz às operações deles? O intelecto é uma parte do homem que está além dos órgãos, ou seja, não poderia ser destruído junto deles por serem partes distintas.
Apesar da alma sobreviver, ela não poderia pensar/imaginar ou sentir alguma coisa, pois os órgãos que permitem essas operações estariam destruídos. Ou seja, é necessário que nossa alma, preservada+
(8) após a morte, ressuscitasse num novo corpo para que então fosse operante. Aristóteles, por não ter o auxílio da fé, não concebia essa parte.
Em outras palavras, se nossa alma não fosse ressuscitada num novo corpo, ela descansaria eternamente. Porém, como Deus é absolutamente+
(9) benigno, não poderia Ele permitir que os justos e injustos compartilhassem do mesmo destino sem prestar contas. Por isso a crença num céu e num inferno é plenamente racional, pois a justiça divina só poderia ser concretizada dessa forma.
