Aparentemente, a Doutrina Social da Igreja e o liberalismo econômico não são conciliáveis:

Trechos da carta encíclica Quadragesimo Anno:

"Ora a livre concorrência, ainda que dentro de certos limites é justa e vantajosa, não pode de modo nenhum servir de norma reguladora à vida económica. Aí estão a comprová-lo os factos desde que se puseram em prática as teorias de espírito individualista. Urge por tanto sujeitar e subordinar de novo a economia a um princípio directivo, que seja seguro e eficaz. A prepotência económica, que sucedeu à livre concorrência não o pode ser; tanto mais que, indómita e violenta por natureza, precisa, para ser útil a humanidade, de ser energicamente enfreada e governada com prudência; ora não pode enfrear-se nem governar-se a si mesma. Força é portanto recorrer a princípios mais nobres e elevados : à justiça e caridade sociais."

"Este despotismo torna-se intolerável naqueles que, tendo nas suas mãos o dinheiro, são também senhores absolutos do crédito e por isso dispõem do sangue de que vive toda a economia, e manipulam de tal maneira a alma da mesma, que não pode respirar sem sua licença. Este acumular de poderio e recursos, nota característica da economia actual, é consequência lógica da concorrência desenfreada, à qual só podem sobreviver os mais fortes, isto é, ordinariamente os mais violentos competidores e que menos sofrem de escrúpulos de consciência."

"[...] a livre concorrência matou-se a si própria; à liberdade do mercado sucedeu o predomínio económico; à avidez do lucro seguiu-se a desenfreada ambição de predomínio; toda a economia se tornou horrendamente dura, cruel, atroz."

"Para evitar o escolho quer do individualismo quer do socialismo, ter-se-á em conta o duplo carácter individual e social tanto do capital ou propriedade, como do trabalho. As relações mútuas de um com o outro devem ser reguladas segundo as leis de uma rigorosa justiça comutativa, apoiada na caridade cristã. A livre concorrência contida dentro de justos e razoáveis limites e mais ainda o poderio económico devem estar efectivamente sujeitos à autoridade pública, em tudo o que é da sua alçada"

Trecho da carta encíclica Quanta Cura:

"De fato, Veneráveis ​​Irmãos, vocês sabem muito bem que neste tempo não são poucos os que, aplicando à sociedade civil o princípio ímpio e absurdo do naturalismo (como eles o chamam), ousam ensinar que " a melhor natureza da sociedade pública e do progresso civil exigem que a sociedade humana seja constituída e governada sem qualquer consideração pela religião, como se ela não existisse ou, pelo menos, sem fazer qualquer distinção entre religiões verdadeiras e falsas ". Contrariamente à doutrina das Sagradas Letras da Igreja e dos Santos Padres, eles não hesitam em afirmar que " a melhor condição da sociedade é aquela em que ao Império não é reconhecido o dever de reprimir com penas estabelecidas os violadores da religião católica, exceto na medida em que a paz pública o exigir ". Com esta ideia absolutamente falsa de governo social, eles não temem defender a opinião, extremamente prejudicial à Igreja Católica e à salvação das almas, que Nosso Predecessor Gregório XVI, de venerada memória, chamou de delírio [Eadem Encycl. Mirari ], ou seja, que " a liberdade de consciência e de culto é um direito próprio de todo homem, que deve ser proclamado e estabelecido por lei em toda sociedade bem organizada, e que os cidadãos têm direito à liberdade completa, que não deve ser restringida por nenhuma autoridade eclesiástica ou civil, em virtude da qual podem manifestar e declarar aberta e publicamente suas ideias, quaisquer que sejam, seja por meio da fala, da impressão ou de qualquer outra forma "."

Trechos do Syllabus Errorum:

"X - Erros que se referem ao liberalismo atual (proposições condenadas)

LXXVII. Em nossa época, não é mais apropriado que a religião católica seja considerada a única religião do Estado, excluindo todos os outros cultos, quaisquer que sejam.

[...]

LXXIX. É absolutamente falso que a liberdade civil de qualquer religião, e similarmente a ampla faculdade concedida a todos de manifestar qualquer opinião e qualquer pensamento aberta e publicamente, levem à corrupção mais fácil dos costumes e das mentes do povo e à disseminação da praga do indiferentismo."

Trecho da carta encíclica Rerum Novarum:

"Sempre que o interesse geral ou qualquer classe particular sofre, ou é ameaçado por dano que não pode de outra forma ser atendido ou evitado, a autoridade pública deve intervir para lidar com isso"

Reply to this note

Please Login to reply.

Discussion

Caridade por lei civil? Isso é Teocracia, ou não? Misturar religião com estado? Lembre-se que em Israel o líder religioso não tinha o poder de governar e o rei não tinha o poder religioso.

A economia livre é uma bênção. Há um trecho bíblico que abençoa o vendedor e diz que aquele que retém a venda (entendo como a burocracia que entrava o livre mercado) é amaldiçoado.

Em Israel o livre mercado da demanda e oferta era respeitado. Em época de fome, até esterco de aves e cortes de alimentos imundos eram vendidos por alto preço por conta da demanda alta e pouca oferta. Até a profecia do terceiro selo do Apocalipse previa a inflação de tempos de escassez em que um dia de salário só daria para comprar uma medida de trigo ou três de cevada, embora isso seja encarado como uma profecia espiritual e não literal, o respeito pela livre demanda do mercado é ilustrado.

Outro exemplo é a venda de cereais no Egito por José, filho de Jacó. No primeiro ano era possível comprar o alimento do ano todo com um saco de moedas, no sétimo, eles venderam todas as propriedades por um ano de alimentação e queriam até se vender como escravos. Isso foi exagerado, exploratório e cruel ou foi bem quisto por Deus? Sobre a administração de José do começo ao fim do seu governo no Egito ele é mencionado como fiel e fazendo a vontade de Deus.

A liberdade para empreender tem limetes éticos óbvios, claro. Nada de pesos e balanças enganosas, mentiras para vender, etc. Essa questão de regular politicamente mesmo com intenções boas perverte tudo.

Você acha justo alguém cobrar o ar pra respirar? Ora, o ar é gratuito e parece absurdo conceber alguém que cobre por isso, pensando assim parece que quem fizer isso é um desalmado, mas a venda de oxigênio para fins médico hospitalares e para mergulho é um nicho de negócio importante e que precisa de recursos para manter a produção e ajudar pessoas que querem recurperar-se de casos de insuficiência respiratória ou fazer expedições profundas na água com segurança e vale cada centavo.

Caridade é feita como Jesus fez. Sua entrega foi voluntária vindo de um coração solidário e temente a Deus que não sofria imposição, senão da própria consciência e amor que sente por todo pecador que precisa de seu sangue. Deus também quer serviço feito com amor e boa vontade. Caridade feita por imposição de lei por força estatal não tem nada de caridade, pois amor não se impõe. Você prefere comer um alimento feito por amor por alguém disposto a fazer de bom grado ou por alguém que faz a contra gosto, de má vontade, por imposição?

Nem Deus intervém na liberdade (os calvinistas não vão concordar, óbvio), mas tanto católicos como protestantes sinergistas não aceitam supressão da sagrada liberdade e o trabalho deve ser feito assim, se alguém abusar da liberdade, Deus fará justiça e, ainda na Terra, a livre escolha e concorrência se encarregará de punir quem abusa dela com ostracismo, perda de clientes até falência ou prisão, se se aplicar no âmbito civil ou criminal.

A Quadragesimo Anno é um pouco estranha. Preciso refletir mais. De qualquer forma, a Igreja não é contra a economia de mercado.

Na Rerum Novarum:

"De facto, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado"

Outro trecho da mesma:

"Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem, inclusivamente, a acordar na cifra do salário"

"Uma vez livremente aceite o salário por uma e outra parte, assim se raciocina, o patrão cumpre todos os seus compromissos desde que o pague e não é obrigado a mais nada"

Bom, preciso pensar melhor no que Pio XI queria dizer na Quadragesimo anno, mas parece que queria enfatizar a necessidade de limites éticos e sociais, sem abolir a liberdade econômica.

As encíclicas devem ser lidas de acordo com o contexto da sua época. Elas formalizam a visão da Igreja sobre determinado assunto em determinada época, mas não são documentos infalíveis. Podem tornar-se anacrônicos.

Por exemplo, a recente encíclica laudato si foi elaborada no auge da histeria do aquecimento global e faz menções a estudos daquele painel do clima que hoje sabemos ser enviesados. Parte dela vai envelhecer mal.

Conforme vamos estudando a DSI da Igreja vemos considerações ambivalentes ao capitalismo e ao socialismo.

É normal ficar um pouco confuso porque a DSI da Igreja não subscreve integralmente nenhuma teoria econômica ou social.

A teoria social e econômica que mais se aproxima é o distributivismo. Procure ver alguns artigos comentando as ideias do Chesterton.

Tem um livro do padre Félix Serdá chamado "liberalismo é pecado" que ele critica o liberalismo clássico como o de Adam Smith.

Pelo que entendi, qualquer sistema ou política que prive os cidadãos de direitos naturais e o afaste das virtudes teologais é criticavel pelo DSI.

Liberalismo é pecado por quê?

Tem gente que fala que os liberais eram a favor da escravidão - ironicamente a igreja nunca proibiu a escravidão.

Bula Sicut Dudum, emitida pelo Papa Eugênio IV em 1435:

"2. Algumas dessas pessoas já eram batizadas; outras foram até mesmo, por vezes, enganadas e iludidas pela promessa do Batismo, tendo recebido uma promessa de segurança que não foi cumprida. Privaram os nativos de suas propriedades, ou as utilizaram para seu próprio benefício, e submeteram alguns dos habitantes das referidas ilhas à escravidão perpétua, venderam-nos a outras pessoas e cometeram diversos outros atos ilícitos e malignos contra eles, por causa dos quais muitos dos que permaneceram nas referidas ilhas, e condenando tal escravidão, permaneceram envolvidos em seus erros anteriores, tendo recuado em sua intenção de receber o Batismo, ofendendo assim a majestade de Deus, colocando suas almas em perigo e causando não pouco dano à religião cristã.

[...]

4. E não menos ordenamos e comandamos a todos e cada um dos fiéis de cada sexo, dentro do prazo de quinze dias a partir da publicação destas cartas no local onde residem, que restituam à sua liberdade anterior todas e cada uma das pessoas de ambos os sexos que residiram nas referidas Ilhas Canárias e que foram feitas cativas desde o momento da sua captura, e que foram submetidas à escravidão. Essas pessoas serão total e perpetuamente livres e serão libertadas sem exigência ou recebimento de dinheiro. Se isso não for feito após os quinze dias, incorrerão na sentença de excomunhão pelo próprio ato, da qual não poderão ser absolvidas, exceto na hora da morte, nem mesmo pela Santa Sé, nem por qualquer bispo espanhol, nem pelo mencionado Fernando, a menos que primeiro tenham libertado essas pessoas cativas e restituído os seus bens. Desejamos que a mesma sentença de excomunhão seja aplicada a todos aqueles que tentarem capturar, vender ou submeter à escravidão residentes batizados das Ilhas Canárias, ou aqueles que buscam livremente o Batismo, dos quais a excomunhão não pode ser absolvida, exceto conforme declarado acima."

Bula Veritas Ipsa, emitida pelo Papa Paulo III em 1537:

"[...]os ditos índios e todas as outras pessoas que mais tarde forem descobertas pelos cristãos, não devem de forma alguma ser privados de sua liberdade ou da posse de suas propriedades, mesmo que estejam fora da fé de Jesus Cristo; e que eles podem e devem, livre e legitimamente, desfrutar de sua liberdade e da posse de suas propriedades; nem devem ser de forma alguma escravizados; caso contrário, será nulo e não produzirá efeitos."

Esses são casos pontuais que até a Bíblia apresenta.

Você não pode sujeitar alguém à escravidão senão por contrato de dívida ou guerra. O crime de rapto para vender como escravo era punido com a morte na Torá.

Contudo nenhum profeta, sacerdote, rei, apóstolo, presbítero ou papa se levantou contra a escravização de pessoas que seguiam os requisitos já socialmente aceitos em sua época, isso até depois da revolução francesa, quando uma visão antropocêntrica começou a entrar no Cristianismo. E as coisas não mudaram muito, a escravidão moderna não é muito diferente, com o escravo tendo a impressão de ser livre.

Na verdade, além dessas, também tem a Commissum Nobis de Urbano VIII em 1639, a Immensa Pastorum de Bento XIV em 1741, a In Supremo Apostolatus de Gregório XVI em 1839 e a In Plurimis de Leão XIII em 1888.

Saindo dos papas, tem a Summa de Tratos y Contratos de Tomás de Mercado (frade dominicano espanhol) em 1571.

E figuras que, dentro da própria Igreja, se levantaram contra abusos ou a escravidão em si, como Bartolomeu de Las Casas, São Pedro Claver, Padre Antônio Vieira, Cardeal Charles Lavigerie, Dom José Pereira da Silva Barros e Padre Victor

É pecado porque o indivíduo não é soberano, assim como também não o são o mercado e a sociedade.

O individualismo é uma falha, assim como o coletivismo.

A democracia é um erro, assim como a autocracia.

Vontade popular é a vontade de Lúcifer disfarçada.

O pecado está em retirar a centralidade de Deus e substituí-la por doutrinas, filosofias e práticas que O afasta da vida das pessoas.

O liberalismo tem uma forte tendência naturalista e leva ao uso da razão própria e da insubmissão à razão divina.

Entenda neste contexto a crítica ao liberalismo da mesma forma com que se critica o cientificismo.

Liberdade e ciência são coisas boas e úteis, porém o liberalismo e o cientificismo são suas formas desvirtuadas.

Interessante e concodo com quase tudo especialmente que o problema está nas distorções que criamos.

Mas até a verdadeira submissão só pode ser feita com liberdade e ciência. Quem tem o direito de impor os limites para ambos em nome de Deus? Que imponha para si mesmo como exemplo para o resto.

Por mais imperfeito que seja, a liberdade, a ciência e o individualismo precisam existir até para que a adoração seja possível.

Eu preciso exisitr como indivíduo e não ser a mera propagação da consciência e pensamentos alheios. Somos a semelhança de Cristo e o ideal é ser como Ele, fala da unidade, contudo semelhança não é sinônimo de falta de identidade própria e unidade não é uniformidade, pois somos seres singulares. Até as Pessoas divinas são singulares e escolhem espontaneamente cooperar entre Si, são livres e oniscientes.

Não somos deuses, mas é fato que Jesus morreu para libertar, conceder domínio próprio (auto senhoriagem) e ciência. Isso em momento algum contradiz a submissão a Deus.

Adão era o senhor da terra por representatividade divina, mas não era divino e deveria reconhecer a soberania de Deus, se tivesse feito isso, as coisas seriam diferentes. Como administradores fiéis de Deus, podemos, sim, fazer valer a nossa liberdade de administrar os bens de Deus de acordo com nossa consciência e isso é sagrado e deve ser um direito até do descrente que nem crê que Deus é dono de dele e de tudo que tem e é um mero mordomo, porque Deus confiou suas coisas a cada indivíduo devemos respeitar a confiança de Deus. Obviamente estou falando de ganhos honestos e permitidos, o roubo é um crime contra a administração divina, a própria cobiça já é.

Resumindo: os conceitos espirituais estão cheios de antíteses: morra para viver, humilhe-se para ser exaltado, poderia acrescentar também submeta-se para dominar, sirva para ser livre, desaprenda para ficar sábio, entre outros é inegável que também a doutrina combina o individualismo e o coletivismo, em alguns momentos Deus fala a nós pessoalmente e, noutros, de forma coletiva.

Excelentes considerações. Vc segue alguma igreja ou tradição religiosa?

Vc já assistiu a um filme chamado Silêncio (2016). Ele retrata bem questões como liberdade de consciência, autonomia individual e papel do poder secular. Acho bem acertado seus pontos positivos e seria bacana trocar ideias sobre o filme.

Todos os dons que nos foram dados devem ser ordenados para fazer a vontade de Deus. O indivíduo, a liberdade e a ciência tornam-se erráticos e heréticos quando afastam-se de Sua autoridade infalível.

Pelo que entendi, a forte tendência ao naturalismo e ao racionalismo exacerbado seriam os pontos principais da crítica à mentalidade liberal.

Sou adventista.

Eu vou assistir esse filme, agradeço a sugestão. Depois falo o que achei.

Eu gosto dos ideais de liberdades e até já escrevi uma nota sobre isso que, a liberdade tem dois lados. Pior do que ser exteriormente limitado em sua liberdade é ser interiormente limitado pelo medo, covardia, pecado, fraqueza. Liberdade de verdade é em Cristo.

A nota é essa, se quiser ler o ponto que estou me referindo diretamente, leia o sub tópico "Livre expressão x Liberdade sujeitada".

nostr:nevent1qqs2j9snp30m2r7x0w0ge8avy4p20awg3eemxj65c7uwv85eqd9lvrspzamhxue69uhhyetvv9ujumn0wd68ytnzv9hxgtczyqnvmlvd4g3ks4rc6hnxg2prww5marl37rzl7yhdtwg6jvfyta2lzqcyqqqqqqgleelj3

Vou ler a sua nota. Já salvei aqui. Valeu!

Embora a comunidade do nostr seja pequena, é interessante ver como os valores convergem. Existem muitos libertários e um número significativo de cristãos conscientea e preparados para demonstrar as razões da sua fé.

Por alto, recordo do nostr:nprofile1qqsxhewvq6fq9lzjmfwqrpg2ufgl09uh2cksupa853zxv04u2fva4uqpzemhxue69uhhwmm59ehx7um5wgh8qctjw3uj7qgewaehxw309a3k7cnjv9n82mtp9e3k7mf0wfjkccteqy28wumn8ghj7ctvvahjuat50phjummwv5hs59rfvc nostr:nprofile1qqs9dwzk24sy0zmnr2dzhzq98lqdre2kf6jdunmuhhltqy5gaxwn3ncpzpmhxue69uhkummnw3ezumt0d5hsxqsj6a nostr:nprofile1qqsyjxh7htwmq277sl87wlld4lcpf0ujmp5558fcpmzww4y33djgxnspzamhxue69uhhyetvv9ujumn0wd68ytnzv9hxgtcppemhxue69uhkummn9ekx7mp0qy2hwumn8ghj7mn0wd68ytn00p68ytnyv4mz7v2d83h nostr:nprofile1qqszmkf9pv50vtruf9q4w32z85qlllm5ppx78mt72ymes5a7d6fgquspzfmhxue69uhk66tnwd4k27fwv9e8gtcpzpmhxue69uhkumewwd68ytnrwghsz8nhwden5te0dehhxarj94c82c3wwajkcmr0wfjx2u3wdejhgtcuhhk6y E tem mais gente que eu já vi ótimas postagens, porém não recordo o npub.

Se conhecerem mais alguém que não mencionei, coloquem aí para eu seguir também.

Sobre o filme, é a história de dois padres missionários que vão ao Japão buscar o paradeiro de um padre sumido.

Porém o enredo do filme é ambíguo. Meu colega entende ser uma história de perdão e redenção. Eu já acredito que seja uma história de derrota, apostasia e racionalização do erro. Seria legal ver outros pontos de vista.

Tem outros também.

Estou assistindo "Silêncio".

Espero que goste! Depois posta aí a sua visão sobre o enredo. Embora seja uma obra de ficção, a perseguição aos cristãos no Japão foi bem real. Vários tornaram-se mártires e os cristãos foram banidos até o século XIX.

Tem a história dos cristãos ocultos que mantiveram sua tradições cristãs escondidas por séculos, porém eles acabaram criando uma religião sincrética misturada com xintoísmo. É bem curioso, pois parte dos remanescentes não quiseram se associar com os missionários católicos e evangélicos que voltaram ao país com o fim do banimento.

https://youtu.be/dhUGp1f_WQw

Amanhã comento.

Só quero escrever uma nota breve considerando um ponto bem pertinente. Se eles tivessem ficado na Europa talvez o padre Rodrigues não tivesse negado a fé, mas teria dito não à um chamado claro que ardia em seu peito de partir por amor em resgate daquele do seu irmão de ministério, o que também seria errado. O homem deu um passo de fé tremendo com seu companheiro missionário. Jesus reconhece isso.

Ficou nítida a impotência humana em resgatar as pessoas que ama, não só da primeira morte, mas da segunda.

Você diz que a obra é ficção, não é baseado em cartas de relatório missionário reais enviadas do Japão à Europa? Mesmo que tivesse sido, as partes depois da captura são pura licença poética, porque parece que não lhe foi permitido corresponder com a Europa.

Acho que um católico tende a sofrer mais quando em cárcere do que um protestante, pois aquele depende dos símbolos religiosos enquanto este adora o invisível. Mas certamente seria muita pressão para tanto um quanto o outro poderia apostatar. Em alguns casos, o católico ficar firme e o protestante apostatar. Mas eu só dizia que o protestante já estaria acostumado a ficar sem a presença de algo palpável para validar sua fé e, no cárcere, acho que dificilmente deixavam os símbolos com os prisioneiros.

É um filme muito dramático. Em alguns momentos me via no lugar do padre Rodrigues. Amanhã comento mais a respeito.

Continuando os comentários sobre o filme...

O padre Rodrigues usou aquela frase que talvez fosse de historiadores romanos ou escritores patrísticos que diz que o sangue dos mártires é semente, dando a entender que haveria uma maior colheita de vidas para Deus através do martírio de uma pessoa fiel.

Mesmo ele sabendo que havia muitos cristãos no Japão, a perseguição ferrenha estava tentando destruir a fé e os fieis, muito se falou sobre o sucesso do Cristianismo na Europa, teria ele esquecido que a Europa também foi hostil ao Cristianismo desde o princípio, começando no Oriente sendo rerprimido pelo Sinédrio judeu, depois por algumas autoridades locais e, depois, pelos imperadores, acho que começando com Nero e por vários outros. Ele até citou os cultos secretos que aconteciam na catacumbas em Roma logo no começo do filme, mas na hora de falar com o líder inquisidor japonês, esqueceu de falar sobre isso, fazendo parecer que a Europa sempre aceitou a fé cristã sem resistência. Ele poderia dizer: mas lá também a fé foi reprimida e Cristo venceu! Aqui vamos vencer também!

O inquisidor estudou mesmo o catolicismo e tentou os cristãos e líderes no que consideravam sagrado, os símbolos e figuras. Para um protestante (acho que os holandeses que faziam comércio com o Japão no filme eram protestantes), eles não seriam tentados com imagens, mas eu confesso que, apesar de considerar imagens como sagradas (respeitando muito quem as considera), acho que seria pecado o ato de pisar na imagem de Cristo ou cuspir na cruz, seria atitude de desprezo. Mas no caso dos protestantes, acho que o inquisidor mudaria o método, tentaria obrigar os protestantes a blasfemar como eles queriam que os católicos também fizesssem contra Maria, no filme. O protestante seria obrigado a pecar com as palavras ou cuspir na Bíblia ou queirmá-la. Mas eu digo, mesmo não considerando imagens como sagradas (até entendendo como profanas em alguns casos, o contrário), eu não pisaria nelas. Conheço protestantes que desejariam destruir imagens de Cristo, eu sou indiferente à isso.

"Ficou nítida a impotência humana em resgatar as pessoas que ama, não só da primeira morte, mas da segunda."

Boa sacada. Não havia me ligado nisso conscientemente. Durante o filme inteiro o padre é impotente e fracassa em quase tudo. Por mais bem intencionado e desejoso em acabar com o sofrimento dos fiéis, só trilhou o caminho da derrota.

Essa derrota me pegou pessoalmente porque me faz lembrar que durante um ano eu namorei uma moça feminista, ateia e abortista (ela parecia uma moça normal, sem sinal óbvio dessas características) Óbvio que não deu certo o relacionamento e ela acabou pegando raiva de mim porque eu tentava convertê-la. A condição dela para continuar comigo era que eu parasse de "proselitismo". Um dilema, em muitíssimo menor grau, que remete ao filme.

O filme foi baseado num romance de um escritor japonês. Não conheço a origem do livro e também não fui atrás do "making of" do filme, mas, pelo que vi na época, os personagens da obra não são históricos. Provavelmente os produtores do filme devem ter tido assessoria de historiador na produção. Realmente parece a dramatização de uma história real.

Outro ponto que eu também não pensei. Talvez um missionário cristão reformado pudesse passar por menos sofrimento. Os ícones e os sacramentos da eucaristia e confissão são caros para os católicos. Já para os reformados, outros aspectos da fé que não são tangíveis têm mais importância.

Ah agora o rapaz não está mais marcado.

Enfim, a ficção é interessante também, ficção baseada em eventos históricos. Até os filmes biográficos tem ficção misturada também.

Sinto muito pelo relacionamento frustrado, seria bom se você tivesse êxito em levá-la a Jesus, mas que bom que ela não te levou para longe dEle. As estatísticas envolvendo "namoros missionários" com intenção de converter o namorado (a) dá errado. O que conhecemos popularmente como jugo desigual.

Mas muitos reformados também poderiam regenar a fé pelo medo. Na real, só não apostata quem ama e permanece no amor de Jesus. Como diria um pensador cristão, quem serve a Deus por interesse servirá qualquer um por uma recompensa (imediata) maior, porque a longo prazo ninguém pode oferecer o que Deus oferece para nós.

Deve ser muito difícil se colocar no lugar daqueles cristãos, mas considerando que estavam perdidos e sem esperança, a fé lhes deu um motivo para o que viver e morrer.

Eu tremo de pensar nisso, mas Deus permite que as coisas piorem para desejarmos nossa pátria celeste e não apegar aqui. Os japoneses do século XVII almejavam mais o Reino que eu e você, provavelmente. Nós vivemos em relativa paz e liberdade religiosa e magoamos fácil com Deus por qualquer coisinha. E nossa tendência é a de desejar o reino do príncipe desse mundo, onde vivemos temporariamente como peregrinos, fique cômodo e gostoso para nós vivemos para sempre. Minha mãe vive me dizendo isso quando comento os absurdos que estão fazendo com o Brasil, mas ela me lembra que o Brasil é terra estrangeira e que a Nova Jerusalém, minha pátria verdadeira, não está sujeita a nenhuma corrupção como aqui. Então vir os tempos difíceis nos fortelece, mas somente se ficarmos firmes em Cristo.

Ah, ele estava zoando. Converso com ele com frequência 😂

No computador eu uso o Nostter e ele não permite tirar menções da conversa. Ele só mostra bem discretamente que tem outros perfis mencionados.

Tive que usar o Jumble e virei jumblista, pelo menos no computador.

Durante certo tempo eu me revoltei por gostar muito daquela moça e não não poder tê-la em minha vida da forma que eu desejava. Aquilo estava fazendo mal para mim ao ponto de sentir uma revolta inconsciente tornar-se consciente. Cheguei a pensar em colocar mais para baixo nas prioridades a vida religiosa. Um homem apaixonado na vale nada. Paixão vem de "pathos": sofrimento, afetação, doença. Será que patético também vem de "pathos"? Fui um doente patético.

Da mesma forma essas questões políticas também me faziam mal e criavam em mim uma revolta contra a realidade. E este é um passo importante para a revolta contra Deus. Devemos modificar a realidade naquilo que é possível. No que não for, só resta aceitar, sem revolta.

Ponto bem colocado: qualquer coisinha nos afeta, ficamos magoadinhos e frustrados por qualquer vicissitude na vida. Tem aquele provérbio na língua inglesa "man plans, God laughs". Não que Deus seja sádico, mas é que a vontade que tem de ser feita não é a sua, apesar de todos seus planos e caprichos.

No filme, cena emblemática deste ponto, os camponeses assistindo ao martírio de familiares e amigos com consternação e muita dor, mas sem revolta. Esta é a mensagem mais importante para mim.

História imprevisível.

Vou procurar saber mais.