Católicos modernistas vivem em uma ilusão, acreditando que o estado moderno fundado sobre os princípios maçônicos irá funcionar de forma justa e proteger a igreja dos inimigos terrenos, preservar o que sobrou da moral cristã na sociedade.
iludidos.
Missão católica tradicional em Bragança do Pará.
Dom Rodrigo da Silva esteve lá administrando os sacramentos ao povo católico fiel a verdadeira Santa igreja católica.
O poder de jurisdição após 64 anos de Sé Vacante.
http://sededelasabiduria.es/2022/05/25/el-poder-de-jurisdiccion-tras-casi-64-anos-de-sede-vacante/
SEGUNDA-FEIRA DA OITAVA DE PENTECOSTES
Como nos move o Espírito Santo para Deus
I. Coisa muito própria da amizade é, sem dúvida, conversar com o amigo. Agora bem, a conversação do homem com Deus tem lugar por meio da contemplação, como dizia o Apóstolo: Nossa conversação está nos céus (Fl 3, 20). Se, pois, o Espírito Santo nos faz amadores de Deus, segue-se que a Ele também devemos o chegar a ser contempladores de Deus, como lemos na segunda carta aos Coríntios, 3, 18: Todos nós, pois, vendo de cara descoberta como num espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, pela ação do Senhor que é Espírito (2Cor 3, 18).
II. É também próprio da amizade sentir-se feliz na presença do amigo, alegrar-se de seus ditos e feitos, e encontrar nele o consolo em todas as aflições; por isso nas tristezas buscamos principalmente o consolo nos amigos. E como quer que o Espírito Santo nos constitui amigos de Deus, e faz com que Ele habite em nós e nós n'Ele, segue-se que recebemos de Deus, pelo Espírito Santo, gozo e consolo contra todas as adversidades e provas do mundo. Por isso o Espírito Santo é chamado, pelo Senhor, Paráclito, isto é, Consolador.
III. Igualmente é próprio da amizade consentir nos desejos do amigo; mas a vontade de Deus se nos manifesta por meio de seus preceitos; corresponde, portanto, ao amor com que amamos a Deus, cumprir seus mandamentos. E como o Espírito Santo é quem nos faz amar a Deus, por Ele também em certo modo somos movidos a cumprir os preceitos de Deus.
IV. Notemos, no entanto, que os filhos de Deus são movidos pelo Espírito Santo, não como servos, senão como livres. Porque sendo livre o que é causa de si mesmo, executamos livremente o que fazemos por nós mesmos, isto é, o que fazemos voluntariamente; e o que fazemos contra nossa vontade não o fazemos livremente senão servilmente. Mas o Espírito Santo nos inclina a agir de tal modo, que o fazemos livremente, do mesmo modo que nos faz amar a Deus. Assim, pois, os filhos de Deus são movidos livremente pelo Espírito Santo a agir por amor e não servilmente pelo temor. Por isso. diz o Apóstolo: Não recebestes o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos (Rm 8, 15).
-Contra Gentiles, lib. 4, cap. 22
Ontem no twitter vi dezenas de tweets de protestantes atacando a Maria, e cometendo os velhos e conhecidos ataques a pessoa da Santíssima Virgem Maria.
Os idiotas protestantes nem se dão conta que estão praticando a velha heresia nestoriana, condenada nos primeiros séculos.
🤦🏻♂️🤦🏻♂️
VIGILIA DE PENTECOSTES
Diversas operações do Espírito Santo
Mas o Paráclito, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, Ele vos ensinará todas as coisas (Jo 14, 26).
Aqui se advertem três coisas.
I. Há uma descrição do mesmo Espírito Santo, pois é chamado Consolador, Espírito e Santo. É Consolador, porque nos consola nas tristezas que procedem das perturbações deste mundo. E isto o faz enquanto é amor, que nos leva a amar a Deus e nos dá idéia de sua grandeza, a qual nos leva a padecer com alegria as afrontas, como se lê nos Atos dos Apóstolos: Porém eles saíam da presença do Sinédrio, contentes por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus (At 5, 41). Porque, sendo o Espírito Santo amor de Deus, nos faz desprezar as coisas terrenas e unir-nos a Deus, pelo qual exclui de nós a dor e a tristeza, e nos dá a alegria das coisas divinas. Nos consola ademais das tristezas dos pecados passados; e isto o faz enquanto nos dá a esperança do perdão.
É Espírito, porque move os corações a obedecer Deus. E porque este vocábulo Espírito envolve certa idéia de impulsão, pois todo movimento produz um efeito conforme a seu princípio, como a calefação dá calor, se deduz que o Espírito Santo faz semelhantes àquele de quem é Espírito, àqueles a quem é enviado, e portanto, sendo Espírito da Verdade, ensina toda a verdade. E como é o espírito do Filho, faz filhos.
É Santo, porque nos consagra a Deus; todas as coisas consagradas se chamam santas.
II. Descreve-se sua missão: A quem o Pai enviará em meu nome. Diz-se que o Espírito Santo é enviado, não porque mude de lugar, pois que Ele preenche todo o orbe, senão no sentido de que começa a habitar pela graça de um modo novo naqueles aos que faz templo de Deus. O Pai enviará em meu nome, porque o Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho, como se expressa no Apocalipse: Mostrou-me um rio de água viva (Ap 22, 1), isto é, ao Espírito Santo, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. Por isso, ao falar da missão do Espírito Santo, faz-se menção do Pai e do Filho, pelos quais é enviado com igual e idêntico poder.
III. Descreve-se seu efeito: Ele vos ensinará todas as coisas. Porque assim como o efeito da missão do Filho foi levar-nos ao Pai, assim o efeito da missão do Espírito Santo é conduzir os fiéis para o Filho. Sendo o Filho a Sabedoria engendrada, é a mesma Verdade. Por isso o efeito de tal missão é fazer aos homens participantes da divina sabedoria e conhecedores da verdade. O Filho nos entrega a doutrina, pois que é o Verbo; mas o Espírito Santo nos faz capazes dessa doutrina; pois diz: Ele vos ensinará todas as coisas, porque qualquer que seja o ensinamento exterior do homem, se o Espírito Santo não lhe dá interiormente inteligência, trabalha-se em vão, já que se o Espírito Santo não está presente no coração do que escuta, será letra morta o discurso do que ensina, e a tal ponto que mesmo falando o mesmo Filho pelo órgão de sua humanidade, não pode nada sem a assistência do Espírito Santo.
-In Joan., XIV, 26
aqui você pode baixar uns pdf para ler https://tipybit.com/petra/products
SEXTA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
O Espírito Santo não se dá ao mundo
A quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece (Jo 14, 17).
I. O Senhor chama aqui mundo aos amadores do mundo. Estes, enquanto amam ao mundo, não podem receber o Espírito Santo, que é amor de Deus. Ninguém pode amar a Deus e ao mundo com um amor que lhes considere como um fim, como diz São João: Se alguém ama o mundo, não há nele o amor do Pai (1Jo 2, 15). Pois diz São Gregório: "O Espírito Santo inflama tudo o que enche com o desejo das coisas invisíveis". E porque os corações mundanos somente amam as coisas visíveis, o mundo não recebe àquele, pois não se move a amar o invisível. Certamente, quanto mais se dilatam para fora os corações mundanos em seus desejos, mais se estreitam para receber o Espírito Santo.
II. Cristo dá a razão pela qual o Espírito Santo não se dá ao mundo, quando diz: Porque não o vê, nem o conhece. Pois os dons espirituais não se dão se não são desejados. A divina sabedoria antecipa-se a dar-se a conhecer aos que a desejam (Sb 6, 14). Porém os dons não são desejados se não são conhecidos de algum modo. Não são conhecidos por dois motivos: em primeiro lugar, porque o homem não se aplica a conhecê-los; em segundo lugar, porque se é incapaz desse conhecimento.
Os mundanos não possuem nenhuma destas duas coisas.
Primeiro, porque não têm vontade para desejá-los. E quanto a isto, diz: Resolveram fixar na terra os seus olhos (Sl 16, 11).
Segundo, tampouco podem conhecê-los. Por isso acrescenta: nem o conhece. Pois, como diz Santo Agostinho, o amor mundano não possui olhos invisíveis, pelos quais o Espírito Santo não pode ser visto senão invisivelmente. O homem natural não percebe aquelas coisas que são do Espírito de Deus (1Cor 2, 14). Assim como a língua infectada não sente o bom sabor por causa da corrupção do humor, do mesmo modo a alma infectada pela corrupção do mundo não saboreia a doçura das coisas celestiais.
III. Mas vós o conheceis, porque habita convosco e estará em vós (Jo 14, 17). Aqui ensina a quem se dá o Espírito Santo, quer dizer, aos fiéis. Daí estas palavras: Mas vós, que sois movidos pelo Espírito Santo, o conheceis. O Apóstolo diz aos corintos: Nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que vem de Deus (1Cor 2, 12). E isto, porque desprezais ao mundo: Não atendendo nós às coisas que se vêem, mas sim às que se não vêem (2Cor 4, 18).
A razão é: Porque habita convosco. Donde adverte primeiro a familiaridade do Espírito Santo para com os apóstolos, porque habita convosco, isto é, para vossa utilidade; e segundo, uma permanência íntima do mesmo Espírito, porque estará em vós, isto é, no íntimo de nosso coração.
-In Joan., XVI
QUINTA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
Preparação para receber o Espírito Santo
Se me amais, observareis os meus mandamentos; e eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará um outro Paráclito (Jo 14, 15-16).
I. Os discípulos tinham necessidade de uma dupla preparação: o amor do coração e a obediência na ação. O Senhor supõe que eles tinham uma das duas e por isso diz: Se me amais, e isto se vê em que os entristeceis por minha partida. Porém lhes ordena outra coisa futura, dizendo: observeis os meus mandamentos, como se dissesse: Não mostreis o amor que me tens com choros, senão com a obediência a meus mandamentos, pois este é o sinal evidente do amor. Essas duas coisas preparam ao recebimento do Espírito Santo. Já que, sendo o Espírito Santo amor, não se dá senão aos que amam. Eu amo os que me amam (Pr 8, 17). Também se dá aos obedientes: Quem atrai o meu olhar é o aflito, o contrito do coração, que teme as minhas palavras (Is 66, 2). ²²
II. Mas porventura a obediência e o amor preparam? Parece que não, porque o amor com que amamos a Deus nos vem pelo Espírito Santo, assim como também a obediência nos vem do Espírito Santo.
Mas convém saber que nos dons de Deus quem usa bem de um dom que lhe foi concedido merece receber um dom novo e uma graça maior; e quem o usa mal será privado disso mesmo que recebeu. Ao servo preguiçoso se lhe tirou o talento que havia recebido de seu senhor, porque não usou bem dele, e foi dado ao que havia recebido cinco. O mesmo ocorre com os dons do Espírito Santo.
Ninguém pode amar a Deus, se não é pelo Espírito Santo. Não somos nós os que prevenimos a graça de Deus, é ela a que nos previne a nós. Por isso deve dizer-se que os Apóstolos receberam efetivamente em primeiro lugar o Espírito Santo para que amassem a Deus e obedecessem a seus mandamentos. Porém era necessário ademais que recebessem mais amplamente o Espírito Santo, para usar bem do dom do Espírito Santo anteriormente recebido, amando e obedecendo. Neste sentido deve ler-se: Se me amais, pelo Espírito Santo que tens, e obedeceis a meus mandamentos, recebereis mais plenamente o Espírito Santo, que já possuís.
- In Joan., XIV
_______________
Rodapé
²² Esta citação está ligeiramente diferente do original latino, do espanhol e do francês, que citam o versículo das seguintes formas, respectivamente: "super quem requiescit spiritus meus et cetera"; "Sobre quien dascansa mi Espírito, etc."; e "Sur qui repose mon esprit, sinon sur le pauvre qui a le coeur brisé et qui écoute mês paroles avec tremblement". Porém a Vulgata Clementina apresenta-o assim: "ad quem autem respiciam, nisi ad pauperculum, et contritum spiritu, et trementem sermones meos?". E o padre Matos Soares traduz de forma coerente com a vulgata - NT.
QUARTA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
A fonte de todo consolo
Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, Pai de misericórdias e Deus de toda a consolação (2 Cor 1, 3).
I. Nós bendizemos a Deus, e Deus nos bendiz a nós, porém de maneira distinta. Para Deus, dizer é fazer, como diz a Escritura: Ele disse, e tudo foi feito (S1 32, 9). Para Deus, bendizer é fazer o bem e derramar o bem. Mas nosso dizer não é causal, reconhece apenas, e expressa o que existe. Para nós bendizer é o mesmo que reconhecer o bem. Logo, quando damos graças a Deus, o bendizemos, isto é, o reconhecemos como bom e provedor de todos os bens.
Por conseguinte, o Apóstolo retamente dá graças ao Pai, porque é misericordioso e consolador. Os homens necessitam sobretudo de duas coisas:
1° que se lhe tirem os males, e isto o faz a misericórdia, que tira a miséria. O compadecer-se é próprio do Pai.
2° Ser sustentado nos males que lhes sobrevêm, e isto se chama propriamente consolar, pois se o homem não tivesse algo em que descansar seu coração, quando lhe sobrevêm os males, não subsistiria. Então, alguém consola a outro, quando lhe leva algum refrigério com o que se alivia dos males. E mesmo quando em alguns males pode o homem ser consolado, descansar e ser fortalecido, não obstante, somente Deus é o que nos consola em todos os males. Por isso diz: Deus de toda a consolação, porque se pecas, te consola Deus, pois é misericordioso. Se és afligido, Ele te consola, ou tirando-te da aflição com seu poder, ou julgando com justiça. Se trabalhas, te consola recompensando-te: Eu sou a tua recompensa (Gn 15, 1). Por isso se diz: Bem-aventurados os que choram (Mt 5, 5).
II. Para que também possamos consolar os que estão em qualquer angústia (2Cor 1, 4).
Existe uma ordem nos dons divinos. Pois Deus dá a alguns dons especiais, para que estes, por sua vez, os derramem para utilidade dos demais; assim não dá a luz ao Sol para que se alumie a si mesmo, senão a todo o mundo; por isso quer que recaia sobre os outros alguma utilidade de todos nossos bens, seja riquezas, poder, ciência, sabedoria. E assim diz o Apóstolo: O qual nos consola em todas as nossas tribulações (2Cor 1, 4); mas para quê? Não unicamente para nosso bem pessoal, senão para que Ele aproveite aos demais. Por isso diz: Para que também possamos consolar.
Podemos consolar a outro pelo exemplo de nossa consolação; pois quem não experimentou consolo, não sabe consolar. O espírito do Senhor repousa sobre mim... para consolar todos os que choram (Is 61, 1-2). Podemos consolar exortando à paciência nos padecimentos, prometendo prêmios eternos. E deste modo nosso consolo se converte no consolo dos outros.
- In II Cor., I, 3
TERÇA-FEIRA DA OITAVA DA ASCENSÃO
A confiança no Pai celestial
Pelas palavras do Pai-Nosso: que estás nos céus, se nos anima a orar com confiança por três motivos: o poder daquele a quem pedimos, a familiaridade conosco e a oportunidade de nossa oração.
I. O poder daquele a quem pedimos está indicado, se entendemos pelos céus os céus corpóreos. E ainda quando Deus não está circunscrito por lugares corpóreos, como está escrito: Porventura não encho o céu e a terra? (Jr 23, 24), não obstante, se diz que está nos céus corpóreos para indicar duas coisas: a virtude de seu poder, e a sublimidade de sua natureza. O primeiro vai contra os que dizem que todas as coisas provêm necessariamente do destino dos corpos celestes, e, segundo essa opinião, é inútil pedir algo a Deus por meio da oração. Porém isto é uma necessidade, pois se diz que Deus está nos céus como Senhor dos céus e das estrelas. O segundo vai contra os que na oração forjam de Deus imagens corporais e fantásticas. Porém se diz nos céus, para significar, pelo que há de mais elevado nas coisas sensíveis, que a sublimidade divina excede a todas as coisas, mesmo ao desejo e ao entendimento do homem; portanto, tudo quanto pode pensar-se ou desejar-se é menor que Deus. Por isso se diz em Jó: Com efeito, Deus é grande e ultrapassa toda a nossa ciência (36, 26).
II. A familiaridade de Deus conosco está indicada, se pelos céus entendemos os santos. Pois, alguns disseram que Deus, por razão de sua elevação, não se ocupa das coisas humanas, segundo aquilo de Jó: As nuvens o cobrem dum véu, e ele não vê; passeia pela abóbada celeste (22, 14); e contra estes convém dizer e demonstrar que ele nos é mais íntimo que nosso íntimo mesmo. E isto dá confiança aos que oram, por dois motivos:
1° Pela proximidade de Deus, segundo aquilo do Salmo 144, 18: O Senhor está perto de todos os que o invocam. E São Mateus (6, 6): Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, quer dizer, no aposento do teu coração.
2° Pelo patrocínio dos demais santos, nos quais habita Deus; e este é outro motivo de confiança para alcançar o que queremos por seus méritos.
III. A oportunidade ou conveniência da oração se manifesta se pelos céus se entendem os bens espirituais e eternos, que constituem a bem-aventurança. E isto por dois motivos:
1º Porque com isso se excita nosso desejo para as coisas celestiais, já que nosso desejo deve dirigir-se para onde temos um pai, pois ali está nossa herança. Buscai as coisas que são lá de cima (Cl 3, 1). Para uma herança incorruptível, que não pode contaminar-se, nem murchar, reservada nos céus para vós (1Pd 1, 4).
2° Porque com isso se nos adverte que devemos levar uma vida celestial, que nos faz semelhantes ao Pai celestial, segundo aquilo do Apóstolo: Qual o celeste, tais também os celestes (1Cor 15, 48).
Estas duas coisas, o desejo celestial e a vida celestial, fazem-nos aptos para pedir; e assim nossa oração se faz convenientemente.
-In Oration. Dominic.
CONTRA O SOLA SCRIPTURA
O presente artigo tem como objetivo provar que nem as Escrituras e nem os Padres da Igreja defendiam a posição teológica base do Protestantismo: o "Somente as Escrituras". Mas, para isso, precisamos primeiramente esclarecer o que significa o "Somente as Escrituras", de fato.
Sola Scriptura: É a doutrina teológica que tem como fundamento a afirmação da suficiência, tanto material quanto formal, das Sagradas Escrituras. Mas o que seria a suficiência material e formal? Vamos explicar.
A suficiência material consiste na afirmação de que as Escrituras possuem todo o conjunto de doutrinas necessárias à salvação humana. Nesse posicionamento, as Escrituras seriam um conjunto de livros que, por si só, teria tudo o que um cristão deve saber para a sua salvação.
Já a suficiência formal consiste na afirmação de que nenhuma autoridade externa às Escrituras, seja a Tradição ou o Magistério da Igreja, são autoridade de sua interpretação. Segundo esse posicionamento, a régua de interpretação das Escrituras são as próprias Escrituras, e não a Igreja ou a Tradição.
Assim diz a Confissão de Westminster (1646), no capítulo "Das Sagradas Escrituras":
IV. A autoridade da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende somente de Deus (a mesma verdade) que é o seu autor; tem, portanto, de ser recebida, porque é a palavra de Deus.
(...)
VI. Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas.
(...)
VII. Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas.
(...)
IX. A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente.
A Confissão de Westminster nos deixa claro que Somente as Escrituras são autoridade para a vida cristã, e que somente ela pode ser a régua de interpretação dela mesma.
Mas claro, sabemos que nada disso funciona na prática, já que no fim das contas cada protestante atua como intérprete infalível das Escrituras.
Sim, cada um deles se declara infalível e guiado pelo Espírito Santo, mesmo pregando doutrinas absolutamente contraditórias. Agora nos resta saber se o Espírito Santo é um incentivador do caos, espalhando doutrinas erradas, ou se nenhum dos "iluminados" em questão de fato recebeu uma revelação divina e confiável. Me parece muito mais correta a segunda opção, já que aceitar a primeira seria blasfêmia contra o Espírito Santo.
Seria de bom proveito esclarecer uma coisa: nós, católicos, cremos na suficiência material das Escrituras, mas não em sua suficiência formal.
Isso significa que cremos que todo o conjunto de doutrinas necessárias à salvação humana estão presentes nas Escrituras, mas que as Escrituras necessitam de uma autoridade para sua interpretação, que não é a própria Escritura.
Logo, qualquer texto das Escrituras que afirmem a suficiência material não é problema nenhum aos católicos. Temos, por exemplo, alguns textos bastante utilizados por Protestantes para supostamente comprovar a Sola Scriptura. Entre estes textos se encontram:
"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra." (2 Timóteo 3,16-17)
"Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam." (João 5,39)
Ora, mas esses textos só comprovam a suficiência material, e não a suficiência formal. Ou seja, todas as Escrituras são inspiradas e possuem o conjunto de doutrinas necessárias à salvação, e isso qualquer católico pode afirmar sem problema algum.
Os protestantes, porém, ou afirmam também a suficiência formal, ou então o Sola Scriptura é impossível. Se não há suficiência formal, então alguma autoridade deve ser guia para a interpretação das Escrituras. Logo, não seria "Somente as Escrituras".
Vamos provar então que a suficiência formal das Escrituras não existe, e que é um conceito contraditório, conflituoso e inventado.
Testemunho das Escrituras:
Temos nas Escrituras boas indicações de que ela não é autoridade para sua própria interpretação. Um exemplo disso é o que Paulo diz aos Tessalonicenses:
"Estai firmes, irmãos, e guardem as tradições que receberam de nós, seja por viva voz ou por carta nossa." (2 Tessalonicenses 2,15)
Ou seja, tanto a Tradição escrita quanto a Tradição oral devem ser seguidas. Alguns protestantes podem objetar, dizendo o seguinte:
"A Tradição oral já está incluída nas Escrituras."
De fato, as Escrituras são sim um conteúdo da Tradição oral, mas nem toda a Tradição oral está presente nas Escrituras. Isso significa que as Escrituras possuem sim a Tradição oral, mas não ela completamente.
Dessa minha afirmação, alguns protestantes podem dizer:
"Então você acaba de negar também a suficiência material, já que acabou de dizer que nem toda a Tradição oral está nas Escrituras."
Definitivamente não, pois as próprias Escrituras mandam seguir a Tradição da Igreja, e dizem que a Igreja é autoridade também:
"Mas, se eu tardar, quero que saibas como te convém portar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade." (1 Timóteo 3,15)
"Porém, se recusar a ouvir a Igreja, considere-o como pagão ou publicano." (Mateus 18,17)
A Igreja é coluna e fundamento da verdade, e quem não ouvir a Igreja deve ser considerado alguém imoral, estranho à fé. Logo, ela também é autoridade para a fé. E isso definitivamente não nega a suficiência material, já que as próprias Escrituras nos ordenam seguir a Tradição oral e o Magistério.
Logo, se as Escrituras mandam seguir essas outras fontes, as Escrituras são sim uma fonte completa da revelação divina, pois está nos incentivando a buscar as outras fontes necessárias, e isso torna as Escrituras materialmente suficientes, porque têm em si a indicação de todas as doutrinas necessárias, seja nelas mesmo ou na Tradição e Magistério.
Muitos protestantes, desesperados em busca de uma confirmação de sua heresia nas Escrituras, apelam para os bereanos como uma prova implícita do Sola Scriptura.
"Os bereanos eram mais excelentes que os de Tessalônica, pois recebiam com avidez a pregação, analisando diariamente as Escrituras para comprovar se era de fato assim." (Atos 17,11)
Os protestantes interpretam essa passagem da seguinte maneira: se os bereanos verificavam nas Escrituras a pregação dos apóstolos para saber se era verdade ou não, logo, toda a doutrina deve ser provada única e exclusivamente nas Escrituras para que possa ser considerada válida.
Mas basta ler o contexto para observar que nada disso é dito pelo texto de Atos.
Em Atos 17,1-10, é narrado o debate de Paulo contra os judeus de Tessalônica, e é dito que os judeus causavam alvoroço contra os cristãos e os apóstolos, dizendo que a pregação deles era contra o governo de César:
"E alguns deles creram, e ajuntaram-se com Paulo e Silas; e também uma grande multidão de gregos religiosos, e não poucas mulheres principais. Mas os judeus desobedientes, movidos de inveja, tomaram consigo alguns homens perversos, dentre os vadios e, ajuntando o povo, alvoroçaram a cidade, e assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para junto do povo." (Atos 17,4-5)
Ou seja, rejeitando um debate sadio e estruturado, os judeus perseguiam os cristãos em Tessalônica, levando até Jasom e outros irmãos para um interrogatório.
Então o livro de Atos diz que Paulo e Silas foram para Beréia, na Macedônia, e chegando lá foram logo numa sinagoga dos judeus para pregar o Evangelho (Atos 17,10).
Daí vem o texto de Atos 17,11, dizendo que os judeus da Beréia, os bereanos, eram mais excelentes que os judeus de Tessalônica, pois aceitavam o debate sem brigas e alvoroço, e analisavam nas Escrituras para comprovar se Paulo e Silas estavam realmente corretos.
Ou seja, o texto aqui não quer dizer que somente as Escrituras têm valor de fé, mas sim trazer à tona o contraste entre a rebeldia dos judeus em Tessalônica e a hospitalidade dos judeus da Beréia.
No mesmo texto, podemos ter isso ainda mais claro, quando o livro de Atos diz que os Judeus de Tessalônica, ao saber que Paulo e Silas estavam pregando entre os judeus bereanos, foram para a Beréia agitar a multidão contra eles (Atos 17,13). Ou seja, o texto destaca a desobediência e inveja dos judeus em Tessalônica, e exalta a receptividade e aceitação dos judeus bereanos. Nada de Sola Scriptura aqui!
As Escrituras também desaprovam claramente e implicitamente a interpretação individual.
Pedro nos diz:
"Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia das Escrituras é de interpretação individual." (2 Pedro 1,20)
O livro de atos dos apóstolos também nos dá um testemunho contra a interpretação individual. O eunuco etíope, tentando entender as Escrituras, encontra dificuldades para com a interpretação do texto. O que ele faz? Tenta interpretar por si mesmo ou recorrer a alguma autoridade exterior? O eunuco escolhe a segunda opção, e recorre a Filipe para que explicasse o texto (Atos 8,26-39).
Ora, com tantas provas, a posição da suficiência material das Escrituras está mais que clara, e não contradiz os textos das Escrituras.
Visto que a defesa da Tradição e do Magistério não negam a suficiência material das Escrituras, vamos ter que refutar agora a suficiência formal.
A suficiência formal:
Os protestantes mais doutos, apoiados nos textos de Westminster, dizem que as Escrituras interpretam as próprias Escrituras, e não necessitam da autoridade da Tradição ou da Igreja para tal. Segundo eles, passagens mais confusas das Escrituras seriam explicadas por passagens mais claras das Escrituras. Sendo assim, as Escrituras explicariam completamente as próprias Escrituras, sendo desnecessária qualquer outra autoridade para sua interpretação.
Esse princípio é tão verdadeiro que existem atualmente milhares e milhares de seitas dentro desse movimento, seguindo esse mesmo princípio e chegando a doutrinas contraditórias.
Com a falta de evidências dessa posição nas Escrituras, eles buscam os Padres da Igreja para apoiar suas afirmações.
É interessante notar que, para apoiar a Sola Scriptura, muitos Protestantes recorrem às autoridades exteriores às Escrituras, como textos de Confissões Protestantes, ou mesmo os Padres da Igreja. Isso, por si só, quebra o conceito de Sola Scriptura. Mas, vamos admitir que recorrer aos textos dos Padres da Igreja seja algo que não contradiz essa crença, apenas para que possamos dar continuidade ao artigo.
Os protestantes então citam diversos textos dos Santos Padres, sem observar o contexto e até adulterando os textos originais, acrescentando palavras que nunca foram ditas por eles. Algumas vezes até ocorre de citações sem fontes ou fontes inexistentes.
Vamos buscar então, explicando o contexto de cada citação, refutar a afirmação de que os Padres da Igreja defendiam a heresia de John Wycliffe e Lutero.
Testemunho dos Padres:
Assim como separam os versículos das Escrituras de seu contexto original, os protestantes também separam os textos Patrísticos de seu contexto. Se fazem assim até com as Escrituras, não é de impressionar que façam isso também com os Santos Padres.
Tendo isso em mente, vamos provar que os Padres não acreditavam na suficiência formal das Escrituras, mas somente na suficiência material.
Alguns protestantes adoram citar um texto de São Vicente de Lérins, pensando que o santo acreditava com todas as suas forças na doutrina da Reforma. O texto é o seguinte:
"Posto que o Canon das Escrituras é em si mais que suficiente e perfeito para tudo, que necessidade há de se acrescentar a autoridade da interpretação da Igreja?" (Commonitorium)
Os protestantes então suspiram aliviados, e por um momento sentem suas almas mais leves e felizes, pensando que Vicente defendia a Sola Scriptura como John Wycliffe, Calvino e Lutero defendiam. Mas basta ler o texto inteiro para saber que Vicente estava justamente refutando essa doutrina. Mas, como é comum no meio Protestante, esquartejaram o pensamento de Vicente, mostraram um braço que restou depois da carnificina e disseram que aquele era o corpo inteiro.
O corpo inteiro, ou melhor, o texto antes do esquartejamento, diz justamente o contrário:
"Perguntando eu com toda a atenção e diligência a numerosos varões, eminentes em santidade e doutrina, que norma poderia achar segura, enquanto possível genérica e regular, para distinguir a verdade da fé católica da falsidade da heresia, eis a resposta constante de todos eles: quem quiser descobrir as fraudes dos hereges nascentes, evitar seus laços e permanecer sadio e íntegro na sadia fé, há de resguardá-la, sob o auxílio divino, duplamente: com a autoridade da Lei Divina e com a Tradição da Igreja Católica. Sem embargo, alguém poderia objetar: Posto que o Cânon das Escrituras é em si mais que suficientemente perfeito para tudo, que necessidade há de se acrescentar a autoridade da interpretação da Igreja? Precisamente porque a Escritura, por causa de sua mesma sublimidade, não é entendida por todos de modo idêntico e universal. De fato, as mesmas palavras são interpretadas de maneira diferente por uns e por outros. Se pode dizer que tantas são as interpretações quantos são os leitores." (XXIX, 76, PG.251)
Vicente ainda continua:
"Vemos, por exemplo, que Novaciano explica a Escritura de um modo , Sabélio de outro, Donato, Eunomio, Macedônio, de outro; e de maneira diversa a interpretam Fotino, Apolinar, Prisciliano, Joviano, Pelágio, Celestino, e em nossos dias, Nestório. É pois, sumamente necessário, ante as múltiplas e arrevesadas tortuosidades do erro, que a interpretação dos Profetas e dos Apóstolos se faça seguindo a pauta do sentir católico. Na Igreja Católica deve-se ter maior cuidado para manter aquilo em que se crê em todas as partes, sempre e por todos."
Ele finaliza sua exposição:
"Dissemos também que, na própria Igreja, deve-se ter em conta a voz consentida de universalidade igualmente com a da antiguidade, para que não sejamos arrancados da integridade da unidade e levados ao cisma, ou ser precipitado da religião da antiguidade em novidades heréticas. Dissemos, além disso, que nesta mesma antiguidade eclesiástica dois pontos são cuidadosamente e seriamente mantidos em vista por aqueles que querem manter-se afastados da heresia: primeiro, eles devem verificar se qualquer decisão foi dada nos tempos antigos quanto ao assunto em questão por todo o sacerdócio da Igreja Católica, com a autoridade de um Concílio Geral: e, em segundo lugar, se alguma nova questão surgir sobre o qual nenhuma decisão foi proferida, eles devem então recorrer às opiniões dos santos Padres, pelo menos daqueles que, cada um em seu tempo e lugar, permanecendo na unidade da comunhão e da fé, foram aceitos como mestres aprovados; e quaisquer que sejam estes pontos encontrados e mantidos, com uma mente e com um consentimento, isso deve ser considerado a doutrina verdadeira e católica da Igreja, sem qualquer dúvida ou escrúpulo." (XXIX, 77, PG.252)
Obs.: Traduzido da versão de Philip Schaff (Protestante)
Vicente além de refutar a afirmação Protestante sobre a suficiência formal, ainda descreve que muitos hereges usavam as Escrituras para fundamentar suas doutrinas. Ora, não é exatamente isso o que os protestantes fazem hoje em dia? Vicente apenas relatou o que os hereges já faziam nos tempos dele e até antes dele.
Ou seja, se o protestante realmente tivesse lido o Communitorium de Vicente, jamais teria usado esse texto como uma defesa do Sola Scriptura, já que no contexto inteiro o santo definitivamente refuta essa doutrina da Reforma, dizendo que as Escrituras podem ser entendidas de maneiras diferentes por todos, e que para manter uma interpretação única é necessário seguir o ensinamento da Tradição da Igreja Católica, dos Concílios e as opiniões dos Padres da Igreja.
Mas, como veremos abaixo, não é só São Vicente a vítima de esquartejamento pelos hereges.
Justino também é vítima da carnificina protestante. Citando alguns textos de seu Diálogo com Trifão, os protestantes mostram que não vieram para brincadeira quando se trata de dividir. Dividem a Igreja, as doutrinas, as interpretações, os versículos do contexto, etc. Enquanto a Igreja sempre apostou na multiplicação como a melhor operação matemática para a sobrevivência da fé, os protestantes apostam na divisão.
O texto citado pelos esquartejadores, ou melhor, pelos protestantes, é o seguinte:
"Não temos algum mandamento em Cristo que nos obrigue a crer nas tradições humanas, mas somente naquelas que os bem-aventurados profetas promulgaram, e que Cristo mesmo ensinou, e eu tenho cuidado, de referir todas as coisas às escrituras e pedir a elas os meus argumentos e minhas demonstrações.” (Diálogo com Trifão)
Primeiramente, pouquíssimos citam a fonte dessa citação, o que torna difícil a pesquisa na fonte original. E, quando citam, não citam exatamente o que diz a fonte original, mas acrescentam palavras que não foram ditas por Justino para dar a entender que o santo mártir acreditava na Sola Scriptura.
Vamos então à citação original. Trata-se do capítulo 48 de seu Diálogo com Trifão, que conta com tradução da Editora Paulus no Brasil. O texto diz:
"Com efeito, amigos, há alguns de vossa descendência que confessam Jesus como o Cristo, mas afirmam que ele é homem nascido de homem. Não estou de acordo com eles, mesmo que a maioria dos que pensam como eu dissessem isso. De fato, o próprio Cristo não nos mandou seguir os mandamentos humanos, mas aquilo que os bem-aventurados profetas pregaram e Ele próprio ensinou." (Diálogo com Trifão, cap 48, verso 4)
Ou seja, o texto citado pelos hereges que é atribuído a Justino na verdade contém palavras que ele jamais disse. A fonte original não nos ensina nada sobre Sola Scriptura.
O contexto nos mostra que Justino, na discussão sobre a preexistência e divindade de Cristo, diz que alguns judeus dizem que Cristo foi o Messias, mas negam sua divindade. Daí Justino diz que discorda deles, porque esse ensinamento não veio dos profetas e nem de Cristo, mas sim de suas próprias tradições humanas. Claramente estamos num contexto judaico, onde os judeus crêem que o Messias virá, mas será homem como todos nós, e não Deus.
Justino está justamente contra essa afirmação, e defende que essa afirmação de que Cristo não é Deus não vem dos profetas e do ensinamento do próprio Cristo. Além disso, Justino está contra a tradição dos judeus, e não contra a Tradição da Igreja.
Mais uma adulteração protestante foi demonstrada.
Também é citado por alguns protestantes como exemplo de defesa do Sola Scriptura. Além de não mostrarem a fonte, dizem que nosso bispo defendia algo que de fato ele jamais defendeu. O engraçado é que os Protestantes apontam o Concílio de Nicéia justamente como o ponto de paganização e corrupção do cristianismo primitivo, mas usam textos de Atanásio e Basílio em defesa do Sola Scriptura. Ou seja, usam textos dos maiores defensores do Credo Niceno em favor de sua doutrina. No mínimo engraçado!
Mas, como veremos, Basílio vai totalmente contra essa ideia. Em seu Tratado sobre o Espírito Santo, que conta também com tradução da Editora Paulus no Brasil, Basílio diz:
"Entre as verdades conservadas e anunciadas na Igreja, umas nós as recebemos por escrito e outras
nos foram transmitidas nos mistérios, pela Tradição apostólica. Ambas as formas são igualmente
válidas relativamente à piedade. Ninguém que tiver, por pouco que seja, experiência das instituições
eclesiásticas, há de contradizer. De fato, se tentássemos rejeitar os costumes não escritos, como
desprovidos de maior valor, prejudicaríamos imperceptivelmente o evangelho, em questões
essenciais. Antes, transformaríamos o anúncio em palavras ocas. Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal-da-cruz aqueles
que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? Que passagem da Escritura nos instruiu a nos voltarmos
para o Oriente durante a oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da “epiclese” no
momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção? Não nos bastam as palavras
referidas pelo Apóstolo e pelo evangelho; antes e depois proferimos outras, recebidas do magistério
oral, por terem grande importância para o mistério. Benzemos também a água batismal e o óleo do
crisma e além disso o próprio batizado. Conformamo-nos a que escrito? Não é por causa da tradição
secreta e mística? E então? Qual a palavra escrita que prescreveu a própria unção com o crisma?
Donde se origina a tríplice imersão? De que trecho da Escritura provêm as cerimônias
complementares do batismo, como a renúncia a Satanás e a seus anjos?" (Do Espírito Santo, cap. 66)
Basílio deixa claro que a Igreja não seguia o Sola Scriptura, e que tinha tradições orais que eram preservadas. Segundo Basílio, a Tradição oral e a as Escrituras têm a mesma validade, e se rejeitamos a Tradição oral, estamos prejudicando o ensinamento do Evangelho.
Basílio então deixa muitíssimo claro no capítulo seguinte:
"Um dia inteiro não nos bastaria se quiséssemos expor os mistérios da Igreja que não constam das
Escrituras. Deixando de lado tudo mais, pergunto de quais passagens retiramos a profissão de fé no
Pai e no Filho e no Espírito Santo."
(Do Espírito Santo, cap. 67)
Está mais que claro que Basílio não acreditava no Sola Scriptura, e afirmou categoricamente que muitos mistérios não estão nas Escrituras, mas na Tradição oral da Igreja.
Mais um dos Santos Padres que é citado de forma desonesta por protestantes.
Utilizam seu livro "Contra as Heresias" para afirmar que Ireneu defendia o Sola Scriptura. Também forçam uma conclusão absurda dos textos de Ireneu contra a tradição oral dos Gnósticos para afirmar que Ireneu era contra qualquer tipo de Tradição oral fora das Escrituras.
Usam textos como este:
"Não foi, portanto, por ninguém mais que tivemos conhecimento da economia da nossa salvação, mas somente por aqueles pelos quais nos chegou o Evangelho, que eles primeiro pregaram e, depois, pela vontade de Deus, transmitiram nas Escrituras, para que fosse para nós fundamento e coluna da nossa fé."
(Livro III, cap 1,1)
Claro, ignorando todo o contexto e outras citações do autor, utilizam de alguns textos e de conclusões forçadas para defender algo que o autor nunca defendeu. Ireneu, no texto acima, diz apenas o que qualquer católico em sã consciência diria: as Escrituras vieram da Tradição oral e é o fundamento da nossa fé.
Isso é completamente diferente de dizer que somente as Escrituras são fundamento da fé cristã.
Ireneu nos deixa ainda mais claro a defesa da Tradição da Igreja em outros textos.
Ireneu diz:
"Quando são vencidos pelos argumentos tirados das Escrituras retorcem a acusação contra as próprias Escrituras, dizendo que é texto corrompido, que não tem autoridade, que se serve de expressões equívocas e que não podem encontrar a verdade nele os que desconhecem a tradição."
(Livro III, cap 2,1)
Ou seja, os Hereges usavam de uma tradição oral para interpretar as Escrituras. Quando era demonstrado que a interpretação deles estava errada, os hereges diziam que as Escrituras usavam expressões erradas ou que não tinham autoridade.
O mesmo também faziam com a Tradição da Igreja. Ireneu diz:
"E quando, por nossa vez, os levamos à Tradição que vem dos apóstolos e que é conservada nas várias igrejas, pela sucessão dos presbíteros, então se opõem à Tradição, dizendo que, sendo eles mais sábios do que os presbíteros, não somente, mas até dos apóstolos, foram os únicos capazes de encontrar a pura verdade."
(Livro III, cap 2,2)
Ou seja, Ireneu não é contra a Tradição Apostólica. Ele é contra a tradição dos Gnósticos, justamente porque ela não tinha origem apostólica, como o próprio Ireneu diz:
"Ora, se os apóstolos tivessem conhecido os mistérios escondidos e os tivessem ensinado exclusiva e secretamente aos perfeitos, sem dúvida os teriam confiado antes de a mais ninguém àqueles aos quais confiavam as próprias Igrejas. Com efeito, queriam que os seus sucessores, aos quais transmitiam a missão de ensinar, fossem absolutamente perfeitos e irrepreensíveis em tudo, porque, agindo bem, seriam de grande utilidade, ao passo que se falhassem seria a maior calamidade."
(Livro III, cap 3,1)
Os Gnósticos acreditavam que os apóstolos tinham uma tradição que eles só passaram aos perfeitos, e que não ensinavam a todos os membros da Igreja. Essa tradição, segundo eles, seria a interpretação gnóstica das Escrituras, que acreditava em outros deuses, e até em uma tripla predestinação, entre outras heresias. O argumento de Ireneu é justamente refutando essa afirmação: se os apóstolos tinham uma tradição que ensinavam apenas aos perfeitos em segredo, por que eles não ensinavam essas tradições gnósticas aos bispos da Igreja? Se os apóstolos confiavam até mesmo suas próprias Igrejas aos bispos, porque não ensinaram a tradição dos Gnósticos pra eles?
É justamente contra isso que Ireneu escreve. A tradição oral dos Gnósticos não foi ensinada pelos apóstolos e era secreta, ou seja, os Gnósticos primeiro imitavam os bispos da Igreja em seu modo de pregar, chegando até a dizer que acreditavam nas mesmas coisas que os Bispos e que eram condenados injustamente pela Igreja. Mas, quando ganhavam os ouvintes pelos argumentos sedutores, eles ensinavam coisas secretas sobre o Pleroma, o Demiurgo, a Potência Suprema e todas as outras heresias que eles inventaram. Ireneu diz isso também em seu livro:
"Eles fazem discursos ao povo com a finalidade de atingir os que pertencem à Igreja, que eles chamam de gente comum ou gente de igreja, e assim enganam e atraem os mais simples, simulando nossa maneira de falar, para que venham mais vezes a escutá-los. E se queixam de nós porque, mesmo pensando como nós, nós nos recusamos, sem motivo, a estar em comunhão com eles: dizem as mesmas coisas que nós, professam a mesma doutrina e, mesmo assim, os chamamos hereges! Mas quando, à força de apresentar dificuldades, convencem alguém a abandonar a fé, e a levar os ouvintes a não contradizê-los, então, separadamente, desvendam-lhes o mistério inexprimível de seu Pleroma." (Livro III, cap. 15,2)
Ou seja, Ireneu era contra a tradição secreta dos Gnósticos, mas não contra a Tradição da Igreja.
O mesmo Ireneu diz, sobre o bispo Policarpo de Esmirna:
"É ele que no pontificado de Aniceto, quando esteve em Roma, conseguiu reconduzir muitos destes hereges, de que falamos, ao seio da Igreja de Deus, proclamando que não tinha recebido dos apóstolos senão uma só e única verdade, aquela mesma que era transmitida na Igreja." (Livro III, cap. 3,4)
E continua dizendo:
"Sendo as nossas provas tão fortes, não é necessário procurar noutras pessoas aquela verdade que facilmente podemos encontrar na Igreja, porque os apóstolos trouxeram, como num rico celeiro, tudo o que pertence à verdade, a fim de que cada um que o deseje, encontre aí a bebida da vida. É ela definitivamente o caminho de acesso à vida e todos os outros são assaltantes e ladrões que é mister evitar. Por outro lado, deve-se amar com zelo extremo o que vem da Igreja e guardar a tradição da verdade." (Livro III, cap. 4,1)
Após isso, refuta completamente a doutrina do Sola Scriptura, dizendo o seguinte:
"Ora, se surgisse alguma controvérsia sobre questões de mínima importância, não se deveria recorrer a Igrejas mais antigas, onde viveram os apóstolos, para saber delas, sobre a questão em causa, o que é líquido e certo? E se os apóstolos não nos tivessem deixado as Escrituras, não se deveria seguir a ordem da tradição que transmitiram àqueles aos quais confiavam as Igrejas?" (Livro III, cap 4,1)
Ireneu está dizendo claramente: se os apóstolos não tivessem deixado as Escrituras, deveríamos também seguir a tradição oral passada aos bispos. No próximo capítulo, Ireneu cita os povos bárbaros como exemplo de fé sem as Escrituras. Ele diz:
"Muitos povos bárbaros que crêem em Cristo se atêm a esta maneira de proceder; sem papel nem tinta, levam a salvação escrita em seus corações pelo Espírito, guardam escrupulosamente a antiga tradição, crêem num só Deus, Criador do céu e da terra e de tudo o que está neles e em Jesus Cristo, Filho de Deus,..."
(Livro III, cap. 4,2)
Está mais que claro que Ireneu não acreditava em Sola Scriptura. E outro fato é interessante notar: os protestantes usam textos de Ireneu supostamente em favor do Sola Scriptura, ignorando o resto da obra.
E os textos onde Ireneu fala da sucessão apostólica? E os textos em que Ireneu fala da Primazia de Roma? E os textos sobre o papel de salvação de Maria? Os protestantes aceitam esses textos? Evidente que não. Ireneu está errado em tudo o que diz, menos naquilo que convém a eles.
Ele próprio dá testemunho a favor da tradição dos bispos da Igreja. Além do testemunho de Ireneu sobre ele, Policarpo nos deixou uma carta aos Filipenses, recomendada por Ireneu como conteúdo proveitoso para aprender a verdadeira fé (AH, Livro III, cap. 3,4).
Policarpo diz em sua carta a Diogneto:
"Desde que me tornei discípulo dos apóstolos, sou doutor do povo. O que me foi transmitido, ofereço-o aos discípulos, que são dignos da verdade.”(Carta a Diogneto, Cap XI)
Ou seja, Policarpo diz que ele era uma autoridade de fé, justamente por ter sido discípulo dos apóstolos e sucessor deles. Segundo a lógica Protestante, a única autoridade a ser seguida é a Escritura Sagrada, e nenhum homem ou Igreja. Policarpo dá testemunho de que ele era sim uma autoridade, "doutor do povo", aquele que ensina, justamente por ter tido contato pessoalmente com os apóstolos e recebido a tradição deles.
Obs.: Vale notar que a carta a Diogneto não tem autor certo, embora seu conteúdo revele que era alguém próximo aos Apóstolos, e o estilo lembra bastante Policarpo de Esmirna. Logo, deduzimos que seja ele o autor (e essa probabilidade é a maior). Mesmo se não for, o documento dá testemunho daquilo que era feito pelos cristãos daquela época, sendo parte de uma fonte histórica confiável.
Foi bispo notável de uma das mais importantes Igrejas da época: a Igreja de Cartago. Famoso por sua teologia ortodoxa, foi bastante venerado durante sua vida e após sua morte, pelo seu martírio. Ele também nos dá um testemunho interessante sobre a interpretação dos hereges sobre as Escrituras. Cipriano, em sua obra "de ecclesiae catholicam unitate" (da unidade da Igreja católica), nos diz um pouco sobre a maneira de agir dos hereges.
Falando sobre a unidade da Igreja e as seitas, Cipriano relata que os hereges utilizavam o texto de Mateus 18,20 para argumentar que não precisavam da Igreja Católica para alcançar Cristo. Assim diz o texto:
"Onde quer que estiverem dois ou três reunidos em meu nome, estou com eles." (Mateus 18,20)
E não é de hoje que os cismáticos usam o mesmo versículo para argumentar a mesma coisa. Os protestantes também usam o mesmo versículo para afirmar que "A Igreja não é uma instituição, e sim nós mesmos, independente de placa de denominação!".
Cipriano vai contra essa afirmação, e nos fornece o seguinte:
"Nem venha alguém se enganar por uma superficial interpretação do que disse o Senhor: 'Onde quer que estiverem dois ou três reunidos em meu nome, estou com eles '. Os corruptores do Evangelho, falsos intérpretes, aproveitam a conclusão desprezando o que a precede; recordam-se de uma parte, e ardilosamente suprimem a outra;assim como se separam da Igreja, separam as sentenças de um único capítulo." (De ecclesiae unitate, cap 12)
Ou seja, segundo Cipriano, os cismáticos e membros de seitas se utilizavam dessas passagens para afirmar que o verdadeiro Evangelho não depende da Igreja, e sim de uma reunião de pessoas no nome de Cristo, sem necessidade da unidade.
É contra isso que Cipriano escreve, logo a seguir:
"O Senhor, aconselhando paz e unanimidade a seus discípulos, disse: 'Eu vos asseguro que se dois de vós concordarem em todas as coisas na terra, tudo o que pedirdes ser-vos-á dado por meu Pai que está nos céus. Onde quer que estiverem dois ou três reunidos em meu nome, estou com eles'. Mostrou assim ser ouvida não a multidão, mas a unanimidade dos que imploram. 'Se dois de vós concordarem na terra': primeiro colocou a unanimidade, impôs a concórdia da paz como condição; desse modo nos ensina como nós podemos reunir fiel e firmemente. Como, porém, pode alguém concordar com outro se discorda do corpo da Igreja mesma e da comunidade dos irmãos? Como podem dois ou três de associarem em nome de Cristo, se permanecem separados do Cristo e de seu Evangelho?" (De ecclesiae unitate, cap 12)
Continua:
"Foram eles que se separaram, não nós; pois as heresias e os cismas são posteriores; foram eles que, ao constituírem para si pequenas e diversas assembleias, abandonaram o princípio da verdade. O Senhor, no entanto, fala de sua Igreja,daqueles que estão na Igreja; se estes, ainda que sejam só dois ou três, concordarem em se unirem para orar juntamente, segundo ele mandou e aconselhou, obterão o que pedem da majestade de Deus." (De ecclesiae unitate, cap 12)
Conclui a verdadeira interpretação dizendo:
"Quando, portanto, colocou entre seus preceitos e declarou: 'Onde estiverem dois ou três, estou entre eles’, não separou os homens da Igreja que instituíra e fundada; mas, exprobrando a discórdia dos infiéis, recomendou a paz aos fiéis. Mostrou que é melhor estar entre dois ou três unânimes na oração, que entre muitos dissidentes; mostrou mais valer a oração concorde de poucos que a prece turbulenta de muitos." (De ecclesiae unitate, cap 12)
"Que paz podem prometer-se os inimigos dos irmãos? Que sacrifício podem celebrar os imitadores dos sacerdotes? Os que se reúnem fora da Igreja de Cristo julgam acaso ter consigo, em suas assembleias, o Cristo?" (De ecclesiae unitate, cap 13)
Cipriano foi tão preciso e claro em sua exposição que só seria mais óbvio se ele nomeasse as seitas protestantes da atualidade. Ele estava lidando com outras heresias, mas a semelhança é tão grande que impressiona.
Concluímos então que, para Cipriano, a interpretação dos hereges ignorando a autoridade da Igreja era falsa, e que era necessário estar no corpo da Igreja única para seguir o verdadeiro Evangelho. Certamente uma grande prova contra a suficiência formal e a interpretação individual.
Também teve contato com os apóstolos, e é citado por Ireneu como um homem que: "ainda guardava viva em seus ouvidos a tradição que recebeu dos apóstolos" (AH, Livro III, 3,3). Ele é citado como o quarto Bispo de Roma, após Pedro, Lino e Anacleto, tanto por Ireneu como também por Santo Agostinho.
Nos deixou uma importante carta aos Coríntios, por causa de divisões que estavam surgindo naquela comunidade. Nessa carta, além de encontrarmos indícios da Primazia da Igreja de Roma, encontramos também uma defesa à autoridade da Tradição Apostólica. Ele diz:
"Devido às repentinas e repetidas calamidades e desventuras que se têm abatido sobre nós, precisamos reconhecer que tardamos um pouco em voltar nossa atenção para os assuntos de disputas entre vocês, amados; e especial-mente a abominável e ímpia rebelião, alienígena e estrangeira aos eleitos de Deus, que umas pessoas temerárias e rebeldes inflamaram a tal loucura que o seu nome venerável e ilustre, digno de ser amado por todos os homens, têm sido difamado. ” (Carta aos Coríntios, I,1)
Ora, não haviam mais comunidades próximas a Corinto, como Tessalônica e Éfeso? Por que os Coríntios tiveram que esperar uma resposta de Roma? Por que Roma teve que interferir na questão das divisões entre os Coríntios? Justamente porque a Igreja de Roma já era uma Igreja de maior autoridade, como dizia Ireneu de Lião (AH, Livro III, 3,2).
“Aceitem o nosso conselho e não terão nada a lamentar.” (Carta aos Coríntios 58,2).
“Se, porém, alguns não obedecerem ao que foi dito por nós, saibam que se envolverão em pecado e perigo não pequeno” (Carta aos Coríntios 59,1).
Ou seja, se os Coríntios não ouvissem a Igreja de Roma e a carta de Clemente, estariam lançados no pecado e correndo grande risco. Mas não são somente as Escrituras a regra de fé e autoridade final? Como Clemente ousa interferir numa comunidade se dividindo por uma interpretação diferente das Escrituras? Vemos que não há nada de Sola Scriptura no contexto da carta de Clemente. O próprio Clemente defende a sucessão apostólica explicitamente em sua carta. Mas os protestantes aceitam? Claro que não. Todos os Padres da Igreja estavam errados, exceto naquilo que convém a eles, ou então a partir de textos adulterados e tirados do contexto.
Certamente é o preferido dos Protestantes na afirmação de que ele supostamente defendia o Sola Scriptura. Engraçado afirmar que um bispo e teólogo católico, doutor da Igreja, defendia uma heresia Protestante. Eles chegam ao absurdo de dizer que Agostinho era um proto-protestante, ou seja, um Protestante antes da Reforma. Isso é completamente ridículo.
Eles ignoram textos em que Agostinho defende explicitamente a Tradição da Igreja e a autoridade do Magistério, apelando para citações que, fora do contexto e do pensamento total do autor, aparentam defender Sola Scriptura. Vamos citar alguns dos textos ignorados pelos protestantes:
“Eu não creria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja católica.” (Contra a Carta de Mani 5,6)
Agostinho ensina o mesmo em suas Confissões. Falando sobre seus pensamentos perigosos sobre a fé, exalta a Deus, que o guardou dos maus pensamentos. Ele diz o seguinte:
"Tu [Deus], porém, não deixavas que as oscilações do meu pensamento me afastassem da fé, pela qual cria que tu és e que tua substância é imutável, que te ocupas dos homens e os julgas e que puseste em Cristo, teu Filho Nosso Senhor, e nas Sagradas Escrituras aprovadas pela autoridade de tua Igreja Católica o caminho da salvação humana, rumo àquela vida que haverá depois da morte." (Confissões, VII, 2, PG.179)
Ou seja, pela autoridade da Igreja Católica é que Agostinho acreditava no Evangelho. A autoridade da Igreja era o critério de fé de Agostinho em relação às Escrituras. Isso soa pouquíssimo protestante, não é mesmo?
Sobre a Tradição, Agostinho diz:
"Mas com relação àquelas observâncias que seguimos cuidadosamente e que o mundo todo mantém, e que não vêm da Escritura, mas da Tradição, é-nos concedido compreender que foi ordenado e recomendado que a guardássemos seja pelos próprios apóstolos, seja pelos Concílios plenários, a autoridade que é tão vital para a Igreja.” (Carta de Agostinho para Januário 54,1)
Agostinho, assim como Basílio Magno em seu Tratado sobre o Espírito Santo, atesta a existência de costumes e crenças da Igreja que não estavam nas Escrituras.
Mais um texto ignorado é o texto sobre o batismo de crianças. Ele diz o seguinte:
"Acredito que esta prática venha da tradição apostólica, assim como tantas outras práticas não encontradas nos escritos deles nem nos concílios de seus sucessores, mas que, porque são observadas por toda a Igreja em todos os lugares, acredita-se que tenham sido confiadas e concedidas pelos próprios apóstolos.” (Do batismo 1,12,20)
Sobre a fé da Igreja, diz:
"É óbvio que se a fé permite e a Igreja Católica aprova, então deve ser crido como verdade” (Santo Agostinho, Sermão 117,6).
Novamente a exaltação da autoridade da Igreja.
Concluindo, Agostinho ensina que:
"Deve ser seguida por nós aquela religião cristã, a comunhão daquela Igreja que é católica, e católica é chamada não só pelos seus, mas também por todos os inimigos.” (De vero religio, c. 7; n 12).
Claro que os protestantes ignoram esses textos, como também textos de Agostinho sobre Maria, sobre o Primado de Pedro e da Sé Apostólica, como o que vemos e um de seus sermões:
"Por isso, duas cartas foram enviadas para a Sé Apostólica, de onde também nos chegou a resposta. O assunto está encerrado." (Sermão 131,10)
Costumamos resumir esse texto da seguinte forma: "Roma falou, assunto encerrado ", pois foi exatamente o que Agostinho disse. A resposta de Roma chegou, e o assunto está resolvido.
Nada de Sola Scriptura em Santo Agostinho, e tal afirmação só pode ter vindo de quem não leu suas obras e sermões, ou então as leu fora de contexto e de maneira desonesta.
Famoso autor cristão, também é utilizado pelos hereges para defender algo que ele jamais defendeu. Tertuliano, em sua obra "De Praescriptionem Haereticorum", nos demonstra a validade da Tradição da Igreja.
"Erros de doutrina nas comunidades eclesiais devem ter surgido necessariamente sobre vários assuntos. Quando, contudo, se encontrava de forma unânime e igual aquela doutrina que fora passado a muitos, não era resultado de um erro, mas da tradição.Pode alguém, então, ser tão irresponsável que diga que aqueles que receberam a tradição estavam em erro?” (Prescrição contra os Hereges, 28).
Ou seja, quando havia uma discordância de doutrinas, isso indicava que havia um erro. Mas, quando o ensinamento era unanimemente proclamado pela Igreja, não era fruto de um erro, mas dá tradição apostólica.
Tertuliano continua:
"Os Apóstolos] logo foram pelo mundo e pregaram a mesma doutrina da mesma fé às nações. Eles, portanto, de modo semelhante, andaram pelas igrejas em cada cidade, e dessas para todas as igrejas, uma após outra, e transmitiram a tradição da fé e as sementes da doutrina, e a cada dia as passavam adiante para constituírem igrejas. Certamente, é por causa disso somente que foram capazes elas próprias de se considerarem apostólicas, tendo sua origem nas igrejas apostólicas. Cada espécie de coisa deve necessariamente voltar às suas origens para sua adequação. Daí, as igrejas, embora sejam tantas e tão grandes, são ligadas a uma única igreja primitiva [fundada] pelos apóstolos, delas todas [fonte]. Dessa maneira todas são primitivas e todas apostólicas, enquanto são todas confirmadas por uma, [indissolúvel] unidade, por sua comunhão pacífica, por característica de irmandade e por laço de hospitalidade, privilégios que nenhuma outra norma determina senão que uma única tradição do mesmo mistério.” (Tertuliano, Prescrição Contra os Hereges, 20).
Será que os Protestantes aceitam a doutrina da sucessão apostólica como Tertuliano escreveu? Evidente que não.
Dos textos de Tertuliano podemos tirar duas coisas:
1- a Igreja é autoridade para a verdade, e recebeu uma tradição dos apóstolos.
2- Ela é autoridade para disputas de fé, de modo que se há discórdia, aquilo não veio da Igreja, e quando há unanimidade, aquilo é resultado da tradição.
Dogmas como a maternidade divina de Maria, sua Imaculada Conceição, a infalibilidade do Papa, ou até mesmo Concílios sobre o Canon das Escrituras, como Hipona, Cartago, Trento, Roma, foram feitos sob unanimidade da Igreja e baseados na Tradição da Igreja. Os Protestantes aceitam esses Concílios e dogmas? Novamente, claro que não. Rejeitam o título de theotokos, também rejeitam a infalibilidade do Papa, e ainda retiram 7 livros do Canon definido pelos Concílios da Igreja em unanimidade.
Cirilo de Jerusalém concorda com o que eu e Tertuliano dizemos:
"Aprendei também diligentemente da Igreja quais são os livros do Antigo Testamento e quais os do Novo” (Leituras Catequéticas, 4,33).
Ou seja, a Igreja é a única que possui autoridade para definir o Canon das Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamento.
Os protestantes vão aceitar esse ensinamento? Não, não e não.
Irmão de Basílio Magno, assim como o irmão, herdou sua teologia fortemente ligada a sermões precisos e diretos. Desta vez, nos mostra a origem da Tradição. Gregório diz:
"Pois é suficiente para provar nossa afirmação de que a Tradição veio até nós por nossos pais, transmitida como uma herança, por sucessão dos apóstolos e dos santos que os sucederam. Aqueles, por outro lado, que mudaram suas doutrinas com novidades, necessitariam do suporte de abundantes argumentos, se quisessem mostrar seus pontos de vista, não à luz de homens controversos e instáveis, mas de homens de peso e firmeza. Mas já que suas posições se apresentam sem fundamentos e sem provas, quem é tão louco e tão ignorante para considerar os ensinamentos dos evangelistas e apóstolos, e daqueles que sucessivamente brilharam como luzes nas igrejas de menos força do que tais coisas sem sentido e sem provas?” (Contra Eunômio, 4,6).
Ou seja, a Tradição tem origem apostólica e faz parte da pregação do Evangelho. Concorda inteiramente com o que Basílio disse.
O bispo ícone do Concílio de Nicéia, defensor da encarnação do Verbo, também tem sido utilizado pelos protestantes como fonte de sua argumentação errônea. Até mesmo o maior defensor da autoridade dos Concílios da Igreja é utilizado contra as doutrinas da Igreja. Mas, Atanásio, grande doutor e teólogo católico que foi, jamais defendeu a heresia Protestante. Ele nos ensina:
"Estamos de acordo com o fato de que este não é o ensinamento da Igreja Católica, nem os pais o sustentam”. (S. Atanásio, A Epicleto, Epístola 59,3).
Ou seja, Atanásio argumenta que um ensinamento deveria ser aceito pela Igreja e pelos Pais, e caso isso não acontecesse, tal ensinamento não seria um ensinamento cristão. Com isso concluímos que a autoridade da Igreja e dos Padres da Igreja é sim digna de fé, e não somente as Escrituras.
Sobre o Concílio de Nicéia, Atanásio afirmou:
"A confissão chegada a Nicéia era, afirmamos, mais suficiente e bastante a si mesma para a subversão de toda heresia contrária à religião, e para a segurança e desenvolvimento da doutrina de Cristo.” (Ad Afros 1)
Ou seja, a autoridade do Concílio, para Atanásio, é inquestionável e faz parte da segurança da doutrina de Cristo.
Ainda nos diz que os hereges, mesmo utilizando as Escrituras, interpretam de maneira equivocada:
"Mas depois do demônio, e com ele, vêm todos os que inventam heresias ilegais, que muito embora se refiram à Escritura, não mantém as mesmas opiniões que os Santos transmitiram, e, não as conhecendo nem ao seu poder, recebem tradições de homens caindo em erro.” (Festal Letter 2)
Mais uma vez um Padre da Igreja defendendo a Tradição da Igreja frente às tradições humanas.
CONCLUSÃO:
Deixamos de citar muitos outros textos de outros Padres da Igreja, porque esses são suficientes para destruir a afirmação de que os Padres defendiam a Sola Scriptura e a suficiência formal. Se os protestantes realmente investissem seu tempo, sentando à uma mesa com as obras dos Santos Padres em mãos e estudassem, certamente não estariam falando tamanha baboseira. Os Padres da Igreja só defendiam Sola Scriptura na cabeça de protestantes que não se deram ao trabalho de ler as fontes, e vivem de textos recortados tanto das Escrituras como também dos Santos Padres.
Tudo o que dizemos e afirmamos chegou até nós através da sucessão dos Bispos e pelo ensinamento perene da Igreja, que preserva a verdadeira pregação do Evangelho, que guarda o verdadeiro sentido das Escrituras.
A Igreja é coluna e fundamento da verdade, e não pastor A, B ou C.
Qualquer ensinamento que seja contrário ao ensinamento da Tradição da Igreja, transmitido pelos Santos Padres e pelos Doutores, não é digno de fé, e muito menos deve ser chamado de cristão. Apenas o ensinamento preservado pela sucessão dos apóstolos é digno de fé.
Com isso, encerramos nossa exposição, demonstrando aquela que é a doutrina eterna da Igreja, desde o seu nascimento até o fim dos tempos. Deus seja com todos os nossos leitores. Amém!
Autor: Francisco de Almeida Neto
Publicador: Brayan Nitka
*Todos os créditos das citações à Editora Paulus (SP)*
Observações: algumas citações foram retiradas de sites católicos (créditos ao site "Apologistas da Fé Católica") que traduziram fontes escritas em outras línguas. Foram pouquíssimas, e serviram apenas para complementar as citações oferecidas pela Editora Paulus através da Coleção Patrística.
Fontes:
Padres Apostólicos (Vol 1- Paulus)
Justino de Roma (Vol 3- Paulus)
Ireneu de Lião (Vol 4- Paulus)
Basílio de Cesaréia (Vol 14- Paulus)
Gregório de Nissa (Traduzido da Sources Chrétiennes- França)
Atanásio de Alexandria (Traduzido da Sources Chrétiennes- França)
Tertuliano (Traduzido da Sources Chrétiennes- França/ citações retiradas de sites católicos)
Vicente de Lérins (Commonitorium- Traduzido de Philip Schaff, PG.251-252,
https://medium.com/@textec520/contra-o-sola-scriptura-9e52206c959d
World Jewish Congress made a video boasting that Jews were leaders in shifting Western society
Away from traditionalism & into the progressive, LGBTQ, multicultural landscape we see today
But if you said anything like this you’d be called an antisemite. It’s all so confusing.
Via Elijahshaffer on twitter
https://nostr.build/av/2fc5f2e359c033fce0565857276fb79652bfef54a209a78fd3663ad705340c4f.mp4
