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Petra Veritatis
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catholic sedevacantista

São Vicente Ferrer, o Anjo do apocalipse vislumbrou o presente que estamos vivendo.

Quinta-Feira - O dia do Amor.

Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – “Vimo-Lo, e

não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos” (Is 53, 2)

Sumário.

Embora Jesus Cristo em todo o curso de sua vida mortal nos

tivesse amado ardentemente e nos tivesse dado mil provas do seu amor

infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a

prova mais patente pela instituição do Santíssimo Sacramento. Ai o

Senhor se faz não só nosso constante companheiro, mas ainda nosso sustento e se nos dá todo inteiro. Com muita razão, portanto, Santa Maria

Madalena de Pazzi chamava a quinta-feira santa o Dia do Amor.

I. Um pai amoroso nunca patenteia melhor a sua ternura e o seu afeto

para com o filhos do que no fim da sua vida, quando os ve em torno do

seu leito, aflitos e com os olhos em pranto, e pensa que em breve deve

abandoná-los. Tira do seu coração e põe sobre os seus lábios o resto de

sua vida prestes a extinguir-se, abraça aqueles penhores queridos do seu

amor, exorta-os a serem sempre bons, imprime-lhes no rosto os mais

ternos beijos, e misturando as suas lágrimas com as dos filhos, beijos, e

misturando as suas lágrimas com as dos filhos, lança-lhes a sua bênção.

Depois manda trazer o que mais precioso possui e dando a cada um uma

última lembrança: Tomai, diz, e lembrai-vos sempre do amor que vos

tenho dedicado.

Foi exatamente assim que quis fazer conosco Jesus Cristo, verdadeiro Pai

da nossa alma e Pai tão amante, que na terra não tem havido, nem jamais

haverá outro igual. Embora em todo o curso da sua vida mortal nos tivesse

amado com amor ardente, e nos tivesse dado mil provas do seu amor

infinito, todavia, quando chegou ao termo dos seus dias, quis dar-nos a

prova mais patente, pela instituição do Santíssimo Sacramento. E por isso,

na mesma noite em que devia ser traído, reuniu os seus discípulos ao

redor de si, instituiu a Santíssima Eucaristia, e disse-lhes para os consolar

de sua próxima partida:

Filhos meus, vou morrer por vós, para vos mostrar o amor que vos tenho.

Posto que, escondido debaixo das espécies sacramentais, deixo-vos o meu

corpo, a minha alma, a minha divindade, a mim mesmo todo. Numa

palavra, não quero nunca estar separado de vós, enquanto estiverdes na

terra: Ecce ego vobiscum sum, usque ad consummationem saeculi (1) –

“Eis que estou convosco, até a consumação dos séculos”.

– Meu irmão, que tal te parece esta extrema fineza de Jesus Cristo? Não

tinha razão Santa Maria Madalena de Pazzi de chamar a quinta-feira santa

o dia do amor?

II. Jesus Cristo não satisfez o seu amor, fazendo-se nosso constante

companheiro; quis ainda fazer-se nosso sustento, afim de se unir intimamente à nossa alma, e santificá-la com a sua presença. E nesta

manhã, qual amante apaixonado, que deseja ser correspondido, de dentro

da Hóstia consagrada, onde nos observa sem ser visto, está espreitando

todos os que se preparam para alimentar-se com a sua carne divina,

observa em que pensam, o que amam, o que desejam e as ofertas que

irão apresentar-lhe.

Irmão meu, prepara-te para recebê-lo com as devidas disposições. Aviva a

tua fé na presença real de Jesus Cristo neste inefável mistério; dilata o teu

coração pela confiança, lembrando-te que te pode fazer todo o bem,

muito te amam e vem a ti exatamente para te enriquecer com as suas

graças. Humilha-te profundamente diante da sua divina majestade, e

lembrando-te que no passado, em vez de amares um Deus tão bom, o tens magoado, voltando-lhe as costas e desprezando a sua amizade, pede-

lhe perdão e toma a resolução de que para o futuro antes quererás morrer

do que tornar a ofendê-lo. – Mas prepara-te sobretudo para receber Jesus

Cristo com amor, e convida-o pelo desejo.

Vinde, ó meu Jesus, vinde depressa e não tardeis. Ó meu paraíso, meu

amor, meu tudo, quisera receber-Vos com aquele amor com que Vos

receberam as almas mais santas e mais amantes, com que Vos recebeu

Maria Santíssima. Uno a minha comunhão de hoje com as suas. –

Santíssima Virgem e minha Mãe Maria, eis que vou receber o vosso Filho.

Quisera ter o vosso coração e o amor com que recebeis a santa

comunhão. Dai-me hoje o vosso Jesus, assim como o destes aos pastores e

aos santos Magos. Desejo recebê-lo de vossas mãos puríssimas. Dizei-lhe

que sou vosso servo devoto, porque assim me olhará com olhar mais

amoroso e me apertará mais estreitamente contra o seu Coração, quando

vir a mim.

Quarta-Feira- Quarta Dor de

Maria Santíssima – Encontro com Jesus, que carrega a cruz.

Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – “Vimo-Lo, e

não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos” (Is 53, 2)

Sumário.

Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o

Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares

são como outras tantas setas que lhes traspassam o Coração amante. Se

víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera

havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria

que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por

nós? Tenhamos compaixão, e procuremos também acompanhar a seu

Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.

I. Medita São Boaventura que a Bem-aventurado Virgem passou a noite

que precedia a Paixão de seu Filho sem tomar descanso e em dolorosa

vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita

Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos a seu Filho na casa de

Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a

flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a

Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela

o que Jeremias tinha predito: Non est qui consoletur eam ex omnibus caris

eius (1) — “Não há quem a console entre todos os seus queridos”.

Veio finalmente São João e lhe disse:

“Ah, Mãe dolorosa! Teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando

Ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se O queres ver e dar-Lhe o

último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar”.

Ao ouvir isto, Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra

borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma

por uma estrada mais breve e coloca-se na entrada de uma rua para se

encontrar com o aflito Filho, nada se-lhe dando das palavras insultuosas

dos judeus, que a conheciam como mãe do condenado. — Ó Deus, que

causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos

outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma

espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a

sentença pronunciada contra o seu Jesus.

Mais eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros

da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! Um homem todo cheio de sangue

e de chagas, dos pés até a cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e

dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para Ele, e quase não O

conhece, dizendo então com Isaías: Vidimus eum, et non erat aspectus (2)

— “Nós O vimus e não havia n’Ele formosura”. Mas finalmente o amor lho

faz reconhecer e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi

revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó

olhares dolorosos, com que, como tantas flechas, foram então

traspassadas aquelas almas amantes!

II. Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os

insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o

Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue — muito embora preveja que a

vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a

tornaria rainha dos mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando

também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após Ele, para ser

crucificada com Ele.

Se víssemos uma leoa que vai após o filho conduzido à morte, aquela fera

nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que

vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós?

Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho

e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. —

Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis

ser só, mas a levar a Cruz quis ser ajudado pelo Cirineu? E responde: Ut

intelligas, Christi crucem non sufficere sinne tua: Não basta para nos salvar

só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até a morte

também a nossa.

Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o

vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também

com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber

acompanhar-vos com a minha cruz até a morte! Vós e Jesus, sendo

inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho

merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós

espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.

Meditação para a tarde de terça-feira - Jesus é condenado e vai ao Calvário.

Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigerunt – “Então entregou-lhes Jesus, para ser crucificado” (Jo 19, 16)

Sumário.

Imaginemos ver Jesus Cristo que escuta a injusta sentença de

morte, aceita-a por nosso amor, e abraçando a cruz, se encaminha para o

Calvário. Os judeus temendo que a cada momento expire, e desejosos de

O ver morrer crucificado, obrigam a Simão Cirineu a levar a cruz atrás de

Jesus. Unamo-nos ao ditoso Simão, e abraçando com resignação a nossa

cruz, carreguemo-la atrás de Jesus, que no-la manda para nosso bem.

I. Considera como Pilatos, depois de proclamar diversas vezes a inocência

de Jesus, finalmente a torna a proclamar, lavando as mãos e protestando

que é inocente do sangue daquele justo. Se, pois, havia de morrer, os

judeus deveriam responder por Ele. Em seguida lavra a sentença e

condena Jesus à morte. Ó injustiça nunca mais vista no mundo! O Juiz

condena o acusado ao mesmo tempo que o declara inocente!

Lê-se a iníqua sentença de morte na presença do Senhor condenado; este

escuta-a, e todo conformado com o decreto de seu Eterno Pai, que o

condena à cruz, aceita-a humildemente, não pelos delitos que os judeus

lhe imputavam falsamente, mas pelas nossas culpas verdadeiras, pelas

quais se tinha oferecido a satisfazer com a sua morte. Na terra, Pilatos diz:

Morra Jesus; e o Pai Eterno confirma a sentença no céu dizendo: Morra

meu Filho. E o mesmo Filho acrescenta: Eis-me aqui, obedeço e aceito a

morte, e a morte de cruz: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque

ad mortem, mortem autem crucis (1) — “Humilhou-se a si mesmo, feito

obediente até a morte, e morte de cruz.”

Meu amado Redentor, aceitais a morte que eu devia sofrer, e pela vossa

morte me alcançais a vida. Agradeço-Vos, ó amor meu, e espero ir ao céu

para cantar eternamente as vossas misericórdias: Misericordias Domini in

aeternum cantabo (2) Mas, já que Vós inocente aceitais a morte de cruz,

eu pecador aceito de boa vontade a morte que me destinais; aceito-a com

todas as penas que a tenham de preceder ou de acompanhar, e desde

agora ofereço-a a vosso Eterno Pai em união com a vossa santa morte.

Vós morrestes por meu amor, eu quero morrer por vosso amor.

II. Lida a sentença, o povo desgraçado levanta um brado de júbilo e diz:

“Felizmente Jesus é condenado à morte! Vamos depressa, não percamos

tempo, prepare-se a cruz, e façamo-Lo morrer antes do dia de amanhã, que é a Páscoa.” — E no mesmo instante agarram a Jesus, tiram-Lhe o

manto vermelho dos ombros e entregam-Lhe os seus próprios vestidos; a

fim de que, segundo diz Santo Ambrósio, fosse reconhecido pelo povo por

aquele mesmo impostor (assim o chamavam) que poucos dias antes fora

recebido como Messias. Depois tomam duas rudes traves, que compõem

em forma de cruz, e mandam-Lhe com insolência que a leve sobre seus

ombros até o lugar do suplício. Ó Deus, que crueldade, carregar com

tamanho peso um homem tão maltratado e enfraquecido!

Jesus abraça a cruz com amor e encaminha-se para o Calvário. O seu

aspecto naquele caminho é tão lastimoso, que as mulheres de Jerusalém,

ao vê-Lo, O acompanham, chorando e lamentando tamanha crueldade.

Mas, nem assim os pérfidos judeus são levados à compaixão! Ao contrário,

desejando, por um lado, ver Jesus crucificado, e, por outro, temendo que

expirasse no caminho, visto que caía quase a cada passo, tiraram-Lhe a

cruz dos ombros e obrigaram certo homem, de nome Simão, a carregá-la.

— Minha alma, une-te ao ditoso Cirineu; abraça a tua cruz por amor de

Cristo, que por teu amor padece tanto. Vê como Ele vai adiante e te

convida a segui-Lo: Qui vult venire post me, tollat crucem suam, et

sequatur me (3) — “Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-

me”.

Não, meu Jesus, não quero deixar-Vos; quero seguir-Vos até morrer. Pelos

merecimentos desse caminho doloroso, dai-me força para carregar com

paciência a cruz que quiserdes mandar-me. Ah! Vós nos fizestes

nimiamente amáveis os sofrimentos e os desprezos, abraçando-os por nós

com tanto amor! Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por mim.

Terça-Feira - 27 de março - Jesus é coroado de espinhos e apresentado ao povo

Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius – “E

entrançando uma coroa de espinhos Lha puseram na cabeça” (Jo 19, 1)

Sumário. Depois de terem açoitado a Jesus, os algozes, tratando-O como

rei de comédia, atiram-Lhe sobre os ombros um manto de púrpura,

colocam-Lhe um caniço na mão, e põem-Lhe na cabeça uma coroa de

espinhos, na qual batem fortemente com o caniço, a fim de que penetre

mais. O Senhor ficou reduzido a tão triste estado, que Pilatos julgou que

comoveria de compaixão os próprios inimigos, só com apresentá-Lo.

Contemplemo-Lo também, e pensando que foi tão maltratado por nosso

amor, não tenhamos a crueldade de dizer com os judeus: Crucifigatur —

“Seja crucificado”.

I. Contemplemos os outros bárbaros suplícios que os soldados infligiram a

nosso Senhor já tão atormentado. Instigados, e, como afirma São João Crisóstomo, subornados pelo dinheiro dos Judeus, reúnem ao redor de

Jesus toda a corte, põem-Lhe aos ombros um manto vermelho a servir de

manto real, nas mãos colocam-Lhe um caniço a servir de cetro e na cabeça

um feixe de espinhos a servir de coroa. Os espinhos estavam entrelaçados

em forma de capacete, de modo que Lhe cobria a cabeça toda: Et

plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius.

Mas, porque os espinhos com a força das mãos não penetravam bastante

na cabeça sagrada, já tão ferida pelos açoites, tomam-Lhe o caniço, e

enquanto Lhe escarravam também no rosto, batem com toda a força

sobre a cruel coroa, de sorte que rios de sangue corriam da cabeça ferida

pelo rosto e sobre o peito. Ah, espinhos ingratos! É assim que atormentais

o vosso Criador? — Mas, para que acusar os espinhos? Ó pensamentos

perversos dos homens, sois vós que transpassastes a cabeça do meu

Redentor.

Eia, minha alma, prostra-te aos pés de teu Senhor coroado; detesta ali os

teus consentimentos pecaminosos, e roga-Lhe que te traspasse com um

daqueles espinhos, consagrados pelo seu preciosíssimo sangue, a fim de

que não o tornes mais a ofender. — Enquanto os bárbaros algozes,

juntando o escárnio à dor, o tratam como rei de comédia, d’Ele motejam e

o esbofeteiam, tu, pelo menos, reconhece-O pelo Supremo Senhor de

tudo, como na verdade é; feito agora Rei de dor por amor dos homens.

II. Voltando outra vez Jesus ao pretório de Pilatos, depois da flagelação e

coroação de espinhos, este, ao vê-Lo todo dilacerado e desfigurado,

capacitou-se de que comoveria o povo à compaixão, só com mostrá-Lo.

Saiu, pois, para a varanda com o nosso aflito Salvador, e disse: Ecce homo

— “Eis aqui o homem”. Como se dissesse: Judeus, contentai-vos com o

que este inocente tem sofrido até agora; vede a que estado se acha

reduzido. Que medo ainda podeis ter que Ele queira fazer-se vosso rei,

visto que não pode mais viver? Deixai-O ir morrer em sua casa. Exivit ergo

Iesus, portans coronam spineam, et purpureum vestimentum (1) – “Jesus

saiu coroado de espinhos e vestido de um manto de púrpura”.

Minha alma, tu também contempla naquela varanda a teu Senhor, ligado

e arrastado por um algoz. Vê-O, como ali está meio despido, se bem que coberto de chagas e sangue, com as carnes todas rasgadas, com aquele

farrapo de manto purpúreo, que serve tão somente para escarnecê-Lo, e

com a cruel coroa que continuamente o atormenta. Vê a que estado se

acha reduzido o teu Pastor, para te achar, a ti, sua ovelha perdida.

Ah meu Jesus! Quantos papéis de teatro fazem-Vos os homens

representar, mas todos eles de dor e de ignomínia. Ó dulcíssimo Redentor,

inspirais compaixão às próprias feras, mais aí não achais piedade! Ouve o

que aquele povo responde Crucifige, crucifige eum! (2) — “Crucifica-o,

crucifica-o!” Mas, ó Senhor meu, o que dirão no último dia, quando Vos

virem na glória, sentado como Juiz num trono de luz? Ai de mim! Jesus

meu, houve um tempo em que eu também disse: “Crucifica-o, crucifica-

o!” Foi quando Vos ofendi pelos meus pecados.

Agora arrependo-me deles mais que de todos os outros males e amo-Vos

sobre todas as coisas, ó Deus de minha alma. Perdoai-me pelos

merecimentos de vossa Paixão. — Ó Mãe de dores, Maria, fazei que no dia

do juízo eu veja vosso Filho aplacado e não irado para comigo.

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Segunda-Feira -- Jesus é levado a

Pilatos e a Herodes, e posposto a Barrabás.

Et vinctum adduxerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato praesidi – “E

preso O conduziram e entregaram ao governador Pôncio Pilatos” (Mt 27,

2)

Sumário.

Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de

gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de

Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este, para livrá-Lo, apresenta-O

ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde:

Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! Todas as vezes que

pecamos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a

um pouco de fumo, a um vil prazer.

I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus

réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, a fim de que este O

condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes

tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e

que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não

acha em Jesus culpa alguma para condená-Lo. Vendo, porém, que os

Judeus se empenhavam sumamente em fazê-Lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem (1)

— “devolveu-O a Herodes”.

Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença.

Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais

tinha ouvido falar. Interrogou-O muito, mas Jesus se calou e não lhe deu

resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At

ipse nuhil illi respondebat (2). Ai da alma a qual o Senhor não fala mais.

— Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido

tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado

Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit

servus tuus (3) — “Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta”. Dizei-me o

que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo.

Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-O e tratando-O

como a um doido, fez escárnio d’Ele, mandando-O vestir uma túnica

branca, e motejou dele com toda a sua corte, e assim desprezado e

escarnecido mandou-O de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com

aquele manto de escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém.

— Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser

tratado como um doido. Cristão, vede como o mundo trata a Sabedoria

eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como

doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os

sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo

suportado em paz por amor d’Ele, do que mil disciplinas.

II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no

grande dia da Páscoa que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que

Pilatos lhes mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem

vultis dimittam, vobis, Barabbam an Iesum? (4) — “Qual quereis que vos

solte, Barrabás ou Jesus?” Pilatos esperava que o povo com certeza

preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos

deviam detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de

repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado

ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitor, diz: Quid igitur

faciam de Iesu? — “Que farei então de Jesus?” Todos gritam: “Seja porém gritam com mais força: “Seja crucificado!” Crucifigatur!

Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também

perguntou-se ao Pai Eterno, qual Ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o

pecador. E o Pai Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o

pecador. É o que nos afirma o Apóstolo (5); é o que nos diz Jesus Cristo

mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Flium suum unigenitum daret (6) —

“Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito”. — Mas,

como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?

Ai de mim, meu Senhor! Todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os

Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil

prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus. É

assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e

digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros do mundo. Ó

Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a

Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-

me a santa perseverança.

Obrigado pelo sats #[2] Deus abençoe

o protestantismo ajudou muito nisso, especialmente nos últimos 2 séculos pelo menos, e ainda assumiram o domínio geopolítico e religioso, ajuda e muito a ditar os rumos do mundo, hoje em dia é praticamente impossível derrota-los.

Segunda-Feira -- Jesus é levado a

Pilatos e a Herodes, e posposto a Barrabás.

Et vinctum adduxerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato praesidi – “E

preso O conduziram e entregaram ao governador Pôncio Pilatos” (Mt 27,

2)

Sumário.

Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de

gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de

Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este, para livrá-Lo, apresenta-O

ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde:

Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! Todas as vezes que

pecamos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a

um pouco de fumo, a um vil prazer.

I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus

réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, a fim de que este O

condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes

tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e

que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não

acha em Jesus culpa alguma para condená-Lo. Vendo, porém, que os

Judeus se empenhavam sumamente em fazê-Lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem (1)

— “devolveu-O a Herodes”.

Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença.

Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais

tinha ouvido falar. Interrogou-O muito, mas Jesus se calou e não lhe deu

resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At

ipse nuhil illi respondebat (2). Ai da alma a qual o Senhor não fala mais.

— Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido

tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado

Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit

servus tuus (3) — “Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta”. Dizei-me o

que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo.

Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-O e tratando-O

como a um doido, fez escárnio d’Ele, mandando-O vestir uma túnica

branca, e motejou dele com toda a sua corte, e assim desprezado e

escarnecido mandou-O de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com

aquele manto de escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém.

— Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser

tratado como um doido. Cristão, vede como o mundo trata a Sabedoria

eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como

doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os

sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo

suportado em paz por amor d’Ele, do que mil disciplinas.

II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no

grande dia da Páscoa que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que

Pilatos lhes mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem

vultis dimittam, vobis, Barabbam an Iesum? (4) — “Qual quereis que vos

solte, Barrabás ou Jesus?” Pilatos esperava que o povo com certeza

preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos

deviam detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de

repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado

ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitor, diz: Quid igitur

faciam de Iesu? — “Que farei então de Jesus?” Todos gritam: “Seja porém gritam com mais força: “Seja crucificado!” Crucifigatur!

Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também

perguntou-se ao Pai Eterno, qual Ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o

pecador. E o Pai Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o

pecador. É o que nos afirma o Apóstolo (5); é o que nos diz Jesus Cristo

mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Flium suum unigenitum daret (6) —

“Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito”. — Mas,

como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?

Ai de mim, meu Senhor! Todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os

Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil

prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus. É

assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e

digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros do mundo. Ó

Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a

Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-

me a santa perseverança.

Domingo de Ramos -- Jesus faz a sua entrada triunfal em Jerusalém.

Ecce rex tuus venit tibi mansuetus, sedens super asinam et pullum filium

subiugalis – “Eis que o teu Rei aí vem a ti cheio de mansidão, montado

sobre uma jumenta e um jumentinho, filho do que está sob o jugo” (Mt

21, 5)

Sumário.

Imaginemos ver Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém.

O povo em júbilo lhe vai ao encontro, estende seus mantos na estrada e

juncam-na de ramos de árvores. Ah! Quem teria dito então que o Senhor,

acolhido agora com tão grande honra, dentro em poucos dias teria de

passar ali como réu, condenado à morte? Mas é assim: O mundo muda

num instante o Hosanna em Crucifige. E não obstante isso somos tão

insensatos, que por um aplauso, por um nada nos expomos ao perigo de

perdermos para sempre a alma, o paraíso de Deus.

I. Estando próximo o tempo da Paixão, o nosso Redentor parte de Betânia

para fazer a sua entrada em Jerusalém. Contemplemos a humildade de

Jesus Cristo, que, sendo o Rei do céu, quer entrar naquela cidade montado

numa jumenta. — Ó Jerusalém, eis que o teu rei aí vem humilde e manso.

Não temas que Ele venha para reinar sobre ti ou apossar-se das tuas

riquezas; porquanto vem a ti cheio de amor e piedade para te salvar e dar-

te a vida pela sua morte.

Entretanto os habitantes da cidade, que, havia já tempos, O veneravam

por causa de seus milagres, foram-Lhe ao encontro. Uns estendem os seus

mantos na estrada por onde passa, outros juncam o caminho, em honra

de Jesus, com ramos de árvores. — Oh! Quem teria dito que o mesmo

Senhor, acolhido agora com tanta demonstração de veneração, havia de

passar por ali dentro em poucos dias como réu condenado à morte, com a

cruz aos ombros!?

Meu amado Jesus, quisestes fazer a vossa entrada tão gloriosa, a fim de

que a vossa paixão e morte fosse tanto mais ignominiosa, quanto maior

foi a honra então recebida. A cidade, ingrata, em poucos dias trocará os

louvores que agora Vos tributa, por injúrias e maldições. Hoje cantam:

“Glória a vós, Filho de Davi; sede sempre bendito, porque vindes para

nosso bem em nome do senhor.” E depois levantarão a voz bradando:

Tolle, tolle, crucifige eum (1) — “Tira, tira, crucifica-O”. — Hoje tiram os

próprios vestidos; então tirarão os vossos, para Vos açoitar e crucificar.

Hoje cortam ramos e estendem-nos debaixo de vossos pés; então

tomarão ramos de espinheiro, para Vos ferir a cabeça. Hoje bendizem-

Vos, e depois hão de cumular-Vos de contumélias e blasfêmias. — Eia,

minha alma, chega-te a Jesus e dize-Lhe com afeto e gratidão: Bendictus,

qui venit in nomine Domine (2) — “Bendito o que vem em nome do

Senhor”.

II. Refere depois o Evangelista, que Jesus chegando perto da infeliz cidade

de Jerusalém, ao vê-la, chorou sobre ela, pensando na sua ingratidão e

próxima ruína. — Ah, meu Senhor, chorastes então sobre Jerusalém, mas

chorastes também sobre a minha ingratidão e perdição; chorastes ao ver a

ruína que eu a mim mesmo causava, expulsando-Vos de minha alma e

obrigando-Vos a condenar-me ao inferno. Peço-Vos, deixai que eu chore, pois que a mim compete chorar ao lembrar-me da injúria que Vos fiz

ofendendo-Vos. Pai Eterno, pelas lágrimas que vosso Filho então

derramou por mim, dai-me a dor de meus pecados, já que os detesto mais

que qualquer outro mal e resolvido estou a amar-Vos para o futuro, de

todo o coração.

Depois que Jesus entrou em Jerusalém, e se fatigou o dia todo na

pregação e na cura de enfermos, quando chegou a noite, não houve quem

o convidasse a descansar em sua casa; pelo que se viu obrigado a voltar

para Betânia. — Santa Teresa considerando certa vez num Domingo de

Ramos, naquela descortesia para com o seu divino Esposo, convidou-O

humildemente a vir hospedar-se no seu pobre peito. Agradou-se o Senhor

tanto do convite de sua esposa predileta, que, ao receber a sagrada

Hóstia, afigurava-se à Santa que tinha a boca cheia de sangue vivo e ao

mesmo tempo gozava uma doçura paradisíaca.

Também tu, meu irmão, dirige a Jesus, especialmente quando te

aproximas da santa comunhão, o convite que venha hospedar-se em tua

alma, a fim de não sofrer mais.

— E agora roga a Deus que, “tendo Ele feito Nosso Senhor tomar carne e

sofrer a morte de cruz, para dar ao gênero humano um exemplo de

humildade para imitar, te conceda a graça de aproveitar os documentos

de sua paciência e de alcançar a glória da ressurreição” (3). —

Recomenda-te também à intercessão da Virgem Maria.

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O jogo se passa em 1899, a economia do jogo ainda é no padrão ouro, quando o jogador tem que doar para alguém mendigo ou doar para alguém aleatório, 10 dólares é uma verdadeira fortuna dentro do jogo.

Até o mais boomer dos americanos deve ficar indignado com o que fizeram com a economia americana depois de jogar esse jogo. 😅😅

O jogo é muito bonito.

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Sábado - Jesus é apresentado aos pontífices e por eles condenado à morte.

At illi, tenentes Iesum, duxerunt ad Caiphan principem sacerdotum – “Eles,

prendendo a Jesus, O levaram a Caifás, príncipe dos sacerdotes” (Mt 26,

57)

Sumário.

Imaginemos ver a Jesus Cristo perante o tribunal de Caifás. Ali é

esbofeteado, tratado de blasfemador, declarado réu de morte, e como tal,

maltratado de mil modos. Jesus, porém, no meio de tantos opróbrios, nada perde de sua serenidade e doçura, e parece que com o seu silêncio nos diz: Se quiserdes desagravar-me das injúrias que me fazem, suportai

por meu amor os desprezos, assim como eu os suporto por vosso amor.

I. Eis que o Redentor é levado como em triunfo à presença de Caifás, que já O estava esperando, e vendo-O diante de si, só e desamparado de seus discípulos, ficou cheio de contentamento. Minha alma, contempla o teu Senhor, que ali está todo humilde e manso. Contempla o seu belo rosto, que, no meio de tantas injúrias e desprezos, não perdeu a sua serenidade e doçura. O ímpio pontífice interroga Jesus sobre seus discípulos e sobre

sua doutrina para achar algum pretexto de condenação. Jesus responde-lhe com humildade: “Eu não falei em segredo, mas em público; todos estes que aqui estão podem dar testemunho do que eu falei”. Senão,

quando depois de uma resposta tão justa e tão branda, um algoz mais insolente avança do meio da chusma e, tratando Jesus de atrevido, lhe dá uma forte bofetada dizendo: “É assim que respondes ao sumo sacerdote?” Ó Deus, como pôde uma resposta tão humilde e tão modesta

merecer tão grave insulto?

Entretanto, o Conselho procurava testemunhas para o condenar à morte;

mas não encontravam; pelo que o pontífice vai novamente buscar matéria

de condenação nas palavras de nosso Salvador mesmo, e lhe diz: Adiuro te

per Deum vivum, ut dicas nobis, si tu es Christus Filius Dei (1) — “Eu te

conjuro, pelo Deus vivo, que nos digas, se tu és o Cristo, o Filho de Deus”.

O Senhor, ouvindo que O conjuravam em nome de Deus, confessa a

verdade e responde: “Sim, eu o sou: e um dia me verás, não tão

desprezível como estou agora diante de ti, mas assentado num trono de

majestade como juiz de todos os homens, acima das nuvens do céu”.

Ouvindo estas palavras, o pontífice, em vez de prostrar-se com o rosto em

terra para adorar a seu Deus, rasga seus vestidos e diz: “Para que mais

precisamos de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfêmia. Quid vobis

videtur? (2) — “Que vos parece?” E todos os outros sacerdotes

responderam que sem dúvida alguma Ele era réu de morte. — Ah, meu

Jesus, o mesmo disse também vosso Eterno Pai, quando Vos oferecestes a

expiar os nossos pecados. Meu Filho, disse, já que queres satisfazer pelos

homens, és réu de morte, e por isso é necessário que morras.

II. Tunc expuerunt in faciem eius, et colaphis eum ceciderunt (3) — “Então

cuspiram-Lhe no rosto e deram-Lhe bofetadas”. Sendo Jesus Cristo

declarado réu de morte, puseram-se todos a maltratá-Lo como a um

malfeitor. Um cospe-Lhe no rosto, outro dá-Lhe empuxões, mais outro Lhe

dá bofetadas. Vendando-Lhe os olhos com um pano, escarnecem d’Ele,

chamando-O falso profeta, e dizendo: “Já que és profeta, profetiza agora quem Te bateu”. Escreve São Jerônimo que foram tantos os insultos e injúrias que naquela noite foram feitos ao Senhor, que só no dia do juízo

final serão conhecidos todos.

O sofrimento de Jesus foi ainda aumentado pelo pecado de Pedro, que O renega e jura que nunca O conheceu. Vai, minha alma, vai ter naquela prisão com o teu Senhor aflito,

escarnecido e abandonado; agradece-Lhe e consola-O com o teu arrependimento, visto que tu também algum tempo O desprezaste e

renegaste. Dize-Lhe que quiseras morrer de dor, lembrando-te que no passado Lhe amarguraste tanto o doce Coração, que tanto te amou. Dize-

Lhe que agora O amas e não queres senão padecer e morrer por seu amor.

Ah! Meu Jesus, esquecei os desgostos que Vos dei, e lançai sobre mim um

olhar de amor, assim como lançastes sobre Pedro, depois que Vos

renegou. Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, que padeceis por

aqueles mesmos homens que Vos odeiam e maltratam! Vós sois a glória

do paraíso: honra demasiada tereis feito aos homens, se os houvéreis

admitido somente a beijar-Vos os pés. Mas, ó Deus, quem Vos reduziu a

esse extremo de ignomínia, de servirdes de ludibrio à gente mais vil do

mundo? Dizei-me, meu Jesus, que posso fazer para Vos desagravar da

desonra que vossos algozes vos infligem com os seus insultos? Ouço-Vos

responder-me: Suporta por meu amor os desprezos, assim como eu os

suportei por teu amor. Sim, Redentor meu, quero obedecer-Vos. Ó Jesus,

desprezado por minha causa, aceito e desejo ser desprezado por vossa

causa, quanto Vos agradar. Dai-me, porém, a graça para Vos ser fiel. Fazei-

o pelas dores da vossa e minha querida Mãe Maria.

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Sexta-Feira -- Comemoração das sete Dores de Maria Santíssima.

O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte, si est dolor sicut dolor meus – “Ó vós todos os que passais pelo ca­minho, atendei e vede, se há dor semelhante à minha dor” (Lm 1, 12)

Sumário.

Bem compete à Bem-Aventurada Virgem o título de Rainha dos Mártires, porque, semelhante em tudo a Jesus, sofreu, em toda a sua vida, no coração um martírio, ao mesmo tempo o mais longo e o mais doloroso.

E o seu martírio não ficou estéril; muito ao contrário, produziu um fruto inestimável de vida eterna, de modo que todos os que se salvam, são disso devedores, depois de Jesus Cristo, às dores de Maria. Se nos queremos mostrar verdadeiros filhos da nossa aflita Mãe, imitemos a sua paciência e resignação.

I. Assim como Jesus se chama Rei de Dores e Rei dos Mártires, porque

padeceu na sua vida mais que todos os outros mártires; assim Maria é

com razão chamada Rainha dos Mártires. Mereceu este titulo por ter

sofrido o martírio mais longo e mais doloroso que se possa padecer depois

do de seu Filho.

A Virgem pôde dizer o que o Senhor disse pela boca de Davi: Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus (1) — A minha vida passou-se toda em dor e lágrimas, porquanto a minha dor, que era a compaixão de meu amado Filho, não se afastava jamais do meu pen-samento, vendo eu sempre todas as penas e a morte que Ele um dia devia padecer. — Revelou a mesma divina Mãe a Santa Brígida, que, ainda depois da morte do Filho e depois de sua ascensão ao céu, a lembrança da sua paixão

estava sempre fixa e recente no seu terno coração de mãe, quer comesse,

quer trabalhasse.

O martírio de Maria foi também de todos o mais dolo-roso, porquanto, ao

passo que os outros mártires tiveram o corpo dilacerado pelo ferro, ela

teve a alma traspassada e martirizada, como já lhe predisse São Simeão:

Et tuam ipsius animam (doloris) gladius pertransibit (2) — “E uma espada

(de dor) te traspassará a alma”. Ora, quanto a alma é mais nobre que o

corpo, tanto maior foi a dor de Maria que a de todos os mártires. — A

tudo isso acresce que ela padeceu sem alívio algum. Para os outros

mártires, o seu amor a Jesus fazia-lhes os tor-mentos doces e suaves; para

a divina Mãe, porém, o mesmo amor se lhe tornou cruel algoz, e fazia

todo o seu martírio. Numa palavra, conclui um sábio escritor, o martírio de

Maria na Paixão do Filho foi tão grande, porque ela só podia dignamente

compadecer-se da morte de um Deus feito homem.

II. A dor de Maria na Paixão de Jesus Cristo não foi estéril, como a das

mães comuns à vista dos filhos que sofrem. Não; foi, ao contrário, uma

dor que produziu frutos abundantes de vida eterna. São Cipriano, falando dos mártires, disse que o seu sangue era como que uma semente de

cristãos, querendo dizer que por um só homem que caía vítima da

perseguição, surgiam logo muitos pagãos a pedirem o batismo e

abraçarem a religião perseguida. Esta fecundidade, porém, do martírio,

nada é em comparação da do martírio da Rainha dos Mártires.

Com efeito, sabemos que pelo mérito do sacrifício dolo-roso que Maria fez

na morte de seu Filho, foi ela feita de-positária dos merecimentos de Jesus

Cristo, Co-Redentora do gênero humano e Mãe de todos os fiéis que lhe

foram confiados na pessoa de João: Mulier, ecce filius tuus (3) — “Mulher,

eis aí teu filho”. De sorte que todos os que se salvaram, se salvam e ainda

vierem a salvar-se, todos serão devedores da sua salvação, depois de

Jesus Cristo, ao martírio do Coração de Maria. — Se, portanto, nós

também quisermos um dia ir gozar no céu, sejamos devotos servos desta

querida Mãe, e, à imitação dela, soframos com paciência as penas que

tenhamos a sofrer, e todas as graças que queiramos pedir ao Senhor,

peça-mo-las pelos merecimentos das incomensuráveis dores que ela

sofreu no correr de toda a sua vida, e especial-mente na Paixão de seu

Filho.

Sim, ó Rainha dos Mártires, prometemos ser-vos fiéis; mas vós mesma

deveis alcançar-nos esta graça.

— “E Vós, ó meu Deus, em cuja paixão, segundo a profecia de Simeão, a

alma dulcíssima da gloriosa Virgem e Mãe Maria foi traspassada por uma

espada de dor: concedei propício que nós, que celebramos a memória de

suas dores e padecimentos, possamos, pelos méritos gloriosos e

inter-cessão de todos os Santos que se acharam ao pé da cruz, obter os

felizes frutos dessa mesma paixão”.

Quinta-Feira -- Jesus é preso,

ligado e conduzido a Jerusalém.

Comprehenderunt Iesum et ligaverunt eum – “Eles prenderam a Jesus e o

ligaram” (Jo 18, 12)

Sumário.

Imaginemos ver a Jesus, que, abandonado de seus discípulos, é

preso, ligado e levado a desoras e com grande tumulto pelas ruas de Jerusalém. Ao verem-No assim, todos que O veneraram, já O odeiam e se envergonham de O terem tido pelo Messias. Se nós, à vista de um Deus tão humilhado por nosso amor e para nosso ensino, ainda amarmos os bens fugazes da terra, ambicionarmos as honras e preeminências, não somos dignos do nome de cristãos.

I. O Redentor, sabendo que Judas se aproximava, acompanhado dos Judeus e dos soldados, levanta-se, banhado ainda no suor da agonia mortal. Com o rosto pálido, mas com o coração todo abrasado em amor,

vai-lhes ao encontro para se lhes entregar nas mãos, e vendo-os chegados perto, diz: Quem quaeritis? — “A quem buscais?” — Afigura-te, minha alma, que neste momento Jesus te pergunta também: Dize-me, a quem

buscas? Ah, meu Senhor, a quem poderei buscar senão a Vós, que descestes do céu à terra para me buscar e não me ver perdido?

Comprehenderunt Iesum, et ligaverunt eum — “Eles prenderam a Jesus e

o ligaram”. Ó céus, um Deus ligado! Que diríamos, se víssemos um rei

preso e ligado pelos seus servos? E que dizemos agora vendo um Deus

entregue às mãos da gentalha? Ó cordas bem-aventuradas! Vós que

ligastes o meu Redentor, ah! Liga-me a Ele, mas liga-me de tal modo que

nunca mais me possa separar de seu amor. — Considera, minha alma,

como um lhe liga as mãos, outro o injuria, mais outro o empurra, e o

Cordeiro inocente se deixa ligar e empurrar quanto quiserem. Não procura

fugir das mãos deles, não chama por auxílio, não se queixa de tantas

injúrias, nem mesmo pergunta por que é tratado assim. Eis, pois, realizada

a profecia de Isaías: Oblatus est quia ipse voluit, et non aperuit os suum;

sicut ovis ad occisionem ducetur (2) — “Foi oferecido, porque ele mesmo

quis, e não abriu a sua boca; ele será levado como uma ovelha ao

matadouro”.

Mas onde é que se acham os seus discípulos? Que fazem? Já não podendo

livrá-Lo das mãos de seus inimigos, ao menos que o tivessem

acompanhado para defenderem a inocência de Jesus perante os juízes, ou

sequer para o consolarem com a sua presença! Mas não; o Evangelho diz:

Tunc discipuli eius, relinquentes eum, omnes fugerunt (3) — “Então os

seus discípulos desamparando-O, fugiram todos”. Qual não devia ser a

tristeza de Jesus, vendo que até os seus discípulos queridos fugiam e O

desamparavam? Mas, ó céus, então o Senhor viu ao mesmo tempo todas

aquelas almas que, sendo por Ele mais favorecidas, haviam de abandoná-

Lo depois e de Lhe virar as costas.

II. Ligado como um malfeitor, o nosso Salvador entra em Jerusalém, onde poucos dias antes fora aclamado com tantas honras e louvores. Passa a desoras pelas ruas, entre lanternas e tochas, e tão grande é o alarido e

tumulto, que todos deviam pensar que se levava qualquer grande

criminoso. A gente chega à janela e pergunta: quem é que foi preso? e

respondem-lhe: Jesus, o Nazareno, que foi desmascarado como sendo um

sedutor, um impostor, um falso profeta e réu de morte. — Quais não

deviam ser então em todo o povo os sofrimentos de desprezo e

indignação, quando viram Jesus Cristo, acolhido primeiro como o Messias,

preso por ordem dos juízes, como impostor!

Ah! Como se trocou então a veneração em ódio, como se arrependeu

cada um de O ter honrado, envergonhando-se de ter honrado um

malfeitor, como se fosse o Messias! — Eis, pois, a que estado se reduziu o

Filho de Deus para nos mostrar o nada das honras e dos aplausos do

mundo! E como é que eu, apesar de ver um Deus tão humilhado e

injuriado por meu amor, como é que eu hei de viver tão amante dos bens

fugazes da terra, ambicionar as honras, as dignidades, as preeminências, e

não saber sofrer o mínimo desprezo? Ai de mim, pecador e soberbo!

Donde, ó meu Senhor, me pode vir tamanho orgulho, depois que mereci

tantas vezes o inferno? Meu Jesus, suplico-Vos pelos merecimentos dos

desprezos que sofrestes, dai-me a graça de Vos imitar. Proponho com o

vosso auxílio reprimir de hoje em diante todo o ressentimento e receber

com paciência, alegria e contentamento todas as humilhações, todas as

injúrias e todas as afrontas que me possam ser feitas. Proponho, além

disso, para Vos agradar, fazer todo bem possível a quem me despreza; ao

menos falarei sempre bem dele e rogarei por ele. Vós, ó meu Senhor,

pelas dores de Maria Santíssima, fortalecei estes meus propósitos e dai-

me a graça de Vos ser fiel.

(Prisão de Jesus)

Não se esqueça de rezar o rosário.

Quarta-Feira -- Jesus ora no

Horto e sua sangue.

Tunc venit Iesus cum illis in villam, quae dicitur Gethsemani – “Então foi

Jesus com eles a uma herdade, que é chamada Gethsemani” (Mt 26, 36)

Sumário.

O Filho de Deus, para nos ensinar o modo de orar, pede no horto a seu Pai divino, que O exima de beber o cálice de sua Paixão; com

resignação, porém, acrescenta que se conforma em tudo à divina vontade.

Prostra-se com a face na terra, e é tão grande o temor, o aborrecimento e a tristeza que Lhe sobrevém pela previsão dos seus padecimentos e da nossa ingratidão, que chega a suar sangue vivo.

Ah, meu pobre Senhor, se eu menos houvera pecado, Vós menos teríeis sofrido.

I. Finda que foi a ação de graças depois da Ceia, Jesus sai do cenáculo com

os seus discípulos, entra no horto de Getsêmani e se põe em oração. Mas,

ai! No mesmo instante assaltam-No juntos grande temor, grande aborrecimento e grande tristeza. Com o coração oprimido pela dor, o

nosso Redentor diz que a sua alma bendita está triste até à morte: Tristis est anima mea usque ad mortem (1). — Jesus quis que então Lhe fosse

presente aos olhos toda a funesta cena dos tormentos e opróbrios que

Lhe estavam preparados. Na Paixão, estes tormentos afligiram-No um

após outro; mas ali no horto vieram cruciá-Lo todos juntos, as bofetadas,

os escarros, os açoites, os espinhos, os cravos e os vitupérios, que depois

deveria sofrer. Submisso, aceita-os todos; mas, aceitando-os treme,

agoniza e ora.

Mas, meu Jesus, quem Vos constrange a sofrer tantas penas? Constrange-

me, responde, o amor que tenho aos homens. — Ah! Que assombro devia

causar no céu o ver a força feita fraqueza! Um Deus aflito! E para que?

Para salvação dos homens, suas criaturas! Naquele horto foi oferecido o

primeiro sacrifício: Jesus foi a vítima, o amor, o sacerdote e o ardor de seu

afeto para com os homens foi o fogo sagrado que consumiu o sacrifício.

Pater mi, si possibile est, transeat a me calix iste (2) — “Pai meu, se é

possível, passe de mim este cálice”. Assim ora Jesus: Meu Pai, se é

possível, isenta-me de beber este cálice tão amargoso. Mas Jesus ora

assim, não tanto para ficar isento, como para nos fazer compreender a

pena que padece e aceita por nosso amor. Ora assim também para nos

ensinar que nas tribulações nos é permitido pedir a Deus que nos livre;

mas ao mesmo tempo devemo-nos conformar em tudo com a vontade

divina, e dizer o que Ele disse: Verumtamen non sicut ego volo, sed sicut

tu (3) — “Todavia não seja como eu quero, mas sim como tu”.

Sim, meu Senhor, por vosso amor abraço todas as cruzes que me queiras

enviar. Vós, embora inocente, padecestes tanto por meu amor, e eu,

pecador como sou, depois de haver tantas vezes merecido o inferno, me

recusei a sofrer para Vos agradar e obter de Vós o perdão e a graça! Non

sicut ego volo, sed sicut tu; seja feita não a minha vontade, mas, sim,

sempre a Vossa!

II. Procidit super terram (4). Durante a sua oração, Jesus prostrou-se com

a face em terra, porquanto, vendo-se coberto com a vestidura sórdida de

todos os nossos pecados, parece que se envergonhava de levantar os

olhos ao céu. — Ó meu amado Redentor, não me animaria a Vos pedir

perdão de tantas injúrias que Vos fiz, se as vossas penas e os vossos merecimentos não me dessem confiança. Eterno Pai: Respice in faciem Christi tui (5) — “Ponde os olhos no rosto de vosso Cristo”; olhai, não para

as minhas iniquidades, mas para esse vosso Filho dileto, que treme, que

agoniza e sua sangue a fim de obter para mim o vosso perdão. Vede-O e

tende piedade de mim.

Que! Jesus meu, não há nesse jardim para Vos suplicar nem algozes, nem

açoites, nem espinhos, nem cravos; que é então que faz correr o vosso

sangue? Ah! compreendo agora: não foi a previsão de vossos tormentos

próximos a causa de vossa aflição, pois espontaneamente Vos oferecestes

a sofrê-las. Foi a vista de meus pecados; eles foram o cruel lagar que fez

correr o sangue de vossas sagradas veias. De sorte que não Vos foram

desumanos os algozes, nem cruéis os açoites, os espinhos, a cruz;

desumanos e cruéis vos foram, ó meu dulcíssimo Jesus, os meus pecados,

que tanto Vos afligiram no horto. Se eu menos houvera pecado, menos

houvéreis Vós padecido. Eis então, ó meu Jesus, como correspondi ao

amor que vos trouxe a morrer por mim: não fiz mais que ajuntar novas

penas e tantas outras que tivestes de sofrer.

Ó meu amado Senhor, pesa-me de Vos ter ofendido; sinto dor, mas não

bastante; quisera conceber uma dor capaz de me tirar a vida. Ah! pela

cruel agonia que sofrestes no horto, dai-me uma parte do horror que

tivestes de meus pecados. Se outrora Vos afligi por minha ingratidão, fazei

que Vos agrade daqui em diante por meu amor. — Ó Maria, Mãe das

dores, recomendai-me a vosso Filho aflito e triste por meu amor.