MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
13 DE JULHO
As feridas da natureza como conseqüência do pecado
Os sentidos e os pensamentos do coração do homem são inclinados para o mal desde a sua mocidade (Gn 8, 21).
Pela justiça original a razão continha perfeitamente as forças inferiores da alma, e a mesma razão era aperfeiçoada por Deus, estando a Ele sujeita. Porém esta justiça original se perdeu pelo pecado do primeiro pai; e em consequência todas as forças da alma estão de certo modo destituídas da própria ordem com que naturalmente se ordenam à virtude; e a mesma destituição se chama lesão da natureza.
Porém, há quatro potências da alma que podem ser sujeitos das virtudes: a razão, na qual está a prudência; a vontade, assento da justiça; a potência irascível, na qual se acha a fortaleza; e a potência concupiscível, sujeito da temperança. Assim, pois, enquanto a razão é destituída de sua ordem ao verdadeiro, há lesão de ignorância; enquanto ao bem, há chaga de malícia; enquanto a potência irascível é despojada de sua ordem ao árduo, há lesão de debilidade; e enquanto a concupiscência é destituída de sua própria ordem ao deleitável moderado pela razão, temos a ferida da concupiscência.
Assim, pois, estas quatro lesões são as chagas inferidas a toda a natureza humana pelo pecado do primeiro pai, mas, porquanto a inclinação ao bem da virtude se diminui em cada um pelo pecado atual, também são, essas mesmas quatro feridas, conseqüências dos outros pecados, enquanto pelo pecado a razão se embota principalmente no agir, a vontade se endurece para o bem, se acresce a dificuldade para agir bem, e se inflama mais a concupiscência.
-S. Th. Iª IIæ, q, 85, a. 3.
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
12 DE JULHO
As trevas e a sombra da morte
Tirou-os das trevas e da escuridão (SI 106, 14).
1° Existem três classes de trevas, a saber: a) As trevas de ignorância. Não sabem nem entendem os seus deveres, andam nas trevas (SI 81, 5). Estas são trevas da razão, consideradas em si mesmas, enquanto que se ofuscam por si mesmas. b) As trevas de culpa, e a estas se refere o Apóstolo quando diz: Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor (Ef 5, 8). Estas são também da razão humana, não produzidas por si mesmas, senão pelo apetite, enquanto que, maldisposto pelas paixões ou pelo hábito, anseia por algo como se um bem fosse, ainda que na verdade não seja um bem. c) Por último, estão as trevas de condenação eterna. E a esse servo inútil lançai-o nas trevas exteriores (Mt 25, 30). As duas primeiras espécies de trevas se dão na vida presente; porém a terceira, ao término da vida.
Porém Cristo tirou-os das trevas, porque é a luz do mundo, não um sol criado, senão autor da criação do sol; e no entanto, como diz Santo Agostinho, a luz que criou o sol foi feita sob o sol, e está coberta pela nuvem da carne, não para obscurecê-la, senão para abrandá-la. E porque esta luz é universal, por isso expulsa universalmente todas as trevas. O que me segue não anda nas trevas (Jo 8, 12), quer dizer, nas trevas da ignorância, porque Eu sou a verdade; nem da culpa, porque Eu sou o caminho; nem da condenação eterna, porque Eu sou a vida.
-In Joan., VIII
2º A noite se entende de duas maneiras. Uma que resulta da subtração da graça atual, à qual leva o pecado mortal, e quando chega esta noite ninguém pode executar obras meritórias da vida eterna.
A outra é a noite consumada, quando se é não somente privado da graça atual pelo pecado mortal, mas também da faculdade de alcançá-la, por causa da condenação eterna no inferno, onde existe noite profunda, que envolverá aqueles de quem se diz: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 25, 41). Então ninguém poderá agir, porque não é tempo de merecer, senão de receber o merecido. Por conseguinte, enquanto vives, faz o que deves fazer. Por isso aconselha a Escritura: Faze com presteza tudo quanto pode fazer a tua mão, porque na sepultura, para onde te precipitas, não há nem obra, nem razão, nem ciência, nem sabedoria (Ecl 9, 10).
In Joan., IX
3º A morte é a condenação no inferno. Eles serão pasto da morte (SI 48, 15). A sombra da morte é a semelhança da condenação futura que existe nos pecadores. Mas a pena maior dos que estão no inferno é a separação de Deus; e posto que os pecadores já se separaram de Deus, por isso têm uma semelhança de condenação futura, ao contrário do que ocorre aos justos, que possuem uma semelhança da futura bem-aventurança.
-In Matth., V
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
VIA PURGATIVA
11 DE JULHO
A vocação dos homens
Deus quer que todos os homens se salvem (1Tm 2, 4).
Deus quer três coisas de nós:
1° Que possuamos a vida eterna. Pois o que faz alguma coisa com certo fim, quer para essa coisa aquilo para o qual a fez. Mas Deus criou o homem do nada, porém não para o nada, como se diz no Salmo: Porventura criaste em vão todos os filhos dos homens? (SI 88, 48). Logo, fez o homem para algo; mas não para as voluptuosidades, porque também as possuem as bestas; senão para que possuíssem a vida eterna.
Quando um ser alcança o fim para o qual foi feito, diz-se que se salva; porém quando não o consegue, diz-se que está perdido. Quando o homem consegue a vida eterna, diz-se que se salva; e isto o quer o Senhor, como diz o Evangelista: A vontade de meu Pai, que me enviou, é que todo aquele que vê o Filho e crê n'Ele tenha a vida eterna (Jo 6, 40).
Essa vontade está já cumprida nos anjos e nos santos que estão no céu, porque vêem a Deus e o
conhecem, e desfrutam d'Ele; porém nós desejamos que, assim como se cumpriu a vontade de Deus nos bem-aventurados que estão nos céus, cumpra-se igualmente em nós, que estamos na terra; e isto o pedimos quando oramos: Seja feita a vossa vontade em nós que estamos na terra, como nos santos que estão no céu.
2º Que guardemos seus mandamentos. Pois quando alguém deseja alguma coisa, não somente quer o que deseja, senão também todas as coisas pelas quais pode obtê-la, do mesmo modo que o médico quer a dieta, a medicina e outras coisas semelhantes para conseguir a saúde. Como pela observância dos mandamentos chegamos à vida eterna, Deus quer que guardemos os mandamentos.
3° Que o homem seja reposto ao estado de dignidade em que foi criado o primeiro homem, a qual dignidade foi tanta, que o espírito e a alma não sentiam nenhuma rebelião nem resistência da parte da carne e da sensualidade. Porque enquanto a alma esteve submetida a Deus, de tal modo esteve também a carne submetida ao espírito, que não sentiu nenhuma corrupção da morte ou das enfermidades e dos outros padecimentos; porém, desde o momento em que o Espírito e a alma, que estava situada entre Deus e a carne, se rebelou contra Deus pelo pecado, se rebelou então o corpo contra a alma, e começou a sentir a morte e as enfermidades, e a contínua rebelião da sensualidade contra o espírito. Assim se desencadeou esta contínua luta entre a carne e o espírito, e o homem se envilece continuamente pelo pecado. É, por conseguinte, a vontade de Deus que o homem seja restituído a seu estado primitivo, isto é, que não haja na carne coisa alguma que repugne ao espírito, como diz o Apóstolo: Esta é a vontade de Deus, que vos santifiqueis... que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santidade e honra (1Ts 4, 3-4).
-In Orationes Dominicae expos.
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
10 DE JULHO
A ceia do Senhor
Podemos distinguir três ceias de Cristo: sacramental, espiritual e eterna.
Da primeira se diz no Apocalipse: Bem-aventurados os que foram chamados ao festim das bodas do Cordeiro! (Ap 19, 9). Verdadeiramente são bem-aventurados, no presente pela graça, e no futuro pela glória. Todos os bens me vieram juntamente com ela (Sb 7, 11). A isto acrescenta a Glosa: "Aquele que recebe a Cristo no coração percebe a noção de todas as coisas, este tem aqui igualmente a virtude e a graça, e no futuro a vida eterna". Esta é a ceia na qual lavou Cristo os pés de seus discípulos, isto é, a parte afetiva de nossa alma dos pecados veniais, porque neste sacramento se verifica a transformação do homem em Cristo, pelo amor. E porque os pecados veniais são contrários ao fervor do amor, fervor que é excitado neste sacramento, por isso se perdoam, em conseqüência, os pecados veniais. E assim explica São Bernardo: "A alma se embriaga de celestial doçura no sacramento do altar, o pecado venial é destruído e o homem se robustece na graça".
Da segunda se diz também no Apocalipse: Eis que estou à porta e bato (Ap 3, 20), às portas fechadas do coração, segundo a Glosa; se alguém ouve a minha voz, e me abrir a porta, entrarei nele, e cearei com ele, e ele comigo, isto é, como se entende pela Glosa: "me deleitarei em sua fé e em suas obras". Esta ceia está expressa misticamente no Evangelho de São João, onde se diz: Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia... e deram-lhe lá uma ceia. Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Ele (Jo 12, 1-2). Pelo qual, explica Alcuíno, misticamente a ceia do Senhor é a fé da Igreja, que age por amor. Marta serve com fé, quando a alma executa as obras de sua devoção. Lázaro é um dos que estavam sentados, quando aqueles que ressuscitaram à justiça depois da morte dos pecados, juntamente com os que permaneceram na justiça, regozijam-se da presença da verdade e se sustentam com os dons da graça celestial. E bem se diz em "Betânia", que significa "casa de obediência".
Da terceira ceia diz o Senhor em São Lucas: Um homem fez uma grande ceia (Lc 14, 16), o que a Glosa explica assim: "porque nos preparou a saciedade da doçura interior". Esta é a ceia na qual João, isto é, todo o escolhido em quem reside a graça, está senta- do, livre do estrépito da vida presente; porque, como diz São Bernardo: Ali está o descanso dos trabalhos, a paz sem inimigos, a amenidade da novidade, a segurança da eternidade, a suavidade e a doçura da visão de Deus.
-De Humanitate Christi
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
9 DE JULHO
O amor de Deus
Tu amas tudo o que existe, e não aborreces nada do que fizeste (Sb 11, 25)
1. Deus ama as coisas existentes, pois tudo o que existe é bom, porque existe, e a existência mesma de cada coisa é um bem, o mesmo que cada uma de suas perfeições. A vontade de Deus é a causa de todas as coisas; e assim é necessário que em cada uma haja tanto de ser e de bem quanto Deus quis que houvesse. Por conseguinte, Deus quer algum bem para todas as coisas que existem, e como amor não é outra coisa que querer o bem para alguém, é evidente que Deus ama tudo quanto existe.
Porém não da maneira que nós amamos. Porque nossa vontade não é causa da bondade das coisas, senão que é movida por ela como por seu objeto; o amor nosso, pelo que queremos o bem para alguém, não é causa da bondade deste, senão que, pelo contrário, sua bondade real ou suposta incita esse amor com que queremos conservar-lhe o bem que tem e acrescentar-lhe o que não tem, e para este fim agimos.
Porém o amor de Deus infunde e cria a bondade nos seres.
Deste modo o amante sai fora de si transferindo-se ao amado, enquanto quer para este o bem e por sual providência o proporciona, como o faz para si. Por isso diz São Dionísio: "Se há de ter coragem e dizer com verdade que também Ele, causa de todas as coisas, sai de si mesmo na abundância de sua bondade amadora, provedora de todo o existente".¹
-S. Th. I, q. 20, a. 2
II. Deus ama com amor admirável os membros de seu Unigênito. O mundo conheça que tu me enviaste, e que os amaste, como amaste também a mim (Jo 17, 23).
É preciso saber que Deus ama todas as coisas que fez, dando-lhes o ser; porém ama sobretudo a seu Filho Unigênito, a quem deu toda sua natureza pela geração eterna. Entre estes dois amores está o amor que tem aos membros de seu Unigênito, quer dizer, aos fiéis de Cristo, dando-lhes a graça pela qual Cristo habita neles.
Os amaste, como amaste também a mim; estas palavras não expressam identidade de amor, senão motivo e semelhança. Como que dizendo: O amor com que me hás amado é razão e causa de vosso amor a eles; porque, ao amar-me a mim, amas aos que me amam e que são meus membros. O mesmo Pai vos ama, porque vós me amastes (Jo 16, 27).
É lógico que agora não podemos conhecer quanto nos ama Deus, porque os bens que Deus há de dar-nos excedem nosso apetite e desejo, e não podem ser contidos em nosso coração. Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no coração do homem, o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2, 9). Portanto o mundo crente, isto é, os santos, conhecerá por experiência quanto nos ama; porém os amadores do mundo, quer dizer, os maus, conhecerão isto vendo e admirando a glória dos santos, como diz o Livro da Sabedoria: Dirão dentro de si, tocados de inútil arrependimento, gemendo com angústia do espírito: Este é aquele de quem nós noutro tempo fazíamos zombaria, e a quem tínhamos por objeto de opróbrio. (Sb 5, 3). E mais abaixo: Vede como é contado entre os filhos de Deus, e entre os santos está a sua sorte? (Sb 5, 5).
-In Joan., XVII
Rodapé
¹ De div. nom, cap. 4.
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
- 8 DE JULHO -
Deus nosso Pai
1. Deus chama-se nosso Pai por razão de nossa criação singular, porque nos criou a sua imagem e semelhança, à diferença das demais criaturas inferiores. Também governa às demais coisas, porém a nós nos governa como a senhores, e às demais como a servos. Ademais, por razão da adoção, porque às demais criaturas lhes deu pequenos dons, porém a nós nos deu sua herança, porque somos filhos, como disse o Apóstolo: Se somos filhos, também somos herdeiros (Rm 8, 17), e no versículo 15 havia dito: Com efeito, não recebestes o espírito de escravidão para estardes novamente com temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, mercê do qual clamamos: Abba, Pai (Rm 8, 15).
II. Quatro coisas devemos a Deus:
1º A honra. Se eu, pois, sou vosso pai, onde está a minha honra? (MI 1, 6), Essa honra devida a Deus consiste em três coisas, uma das quais é o tributo do louvor devido a Deus: O que oferece sacrifício de louvor é o que me honra (SI 49, 23), louvor que não deve ser unicamente de boca, senão também de coração. Por isso se queixa o Senhor segundo Isaías: Este povo... com os seus lábios me glorifica, enquanto que o seu coração está longe de mim (Is 29, 13). A honra devida a Deus consiste também na pureza do corpo para nós mesmos: Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo (1Cor 6, 20), e na equidade de juízo para com o próximo: A honra do rei está em amar a justiça (SI 98,4).
2º A imitação, porque é pai: Chamar-me-ás pai, e não cessarás de me seguir. (Jr 3, 19). Esta imitação consiste em três coisas. No amor: Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Andai no amor (Ef 5, 1-2). É necessário que esse amor seja de coração, para que não seja simulado. Na compaixão, pois o amor deve ser compassivo: Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso (Lc 6. 36), e essa compaixão deve ser de obras. Na perfeição, porque o amor e a misericórdia devem ser perfeitos. Sede pois perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito (Mt 5, 48).
3° A obediência e a sujeição: Além disso, visto que nossos pais segundo a carne nos castigam, e nós os respeitamos, quanto mais não devemos ser obedientes ao Pai dos espíritos para ter a vida? (Hb 12, 9). E isto por três motivos: Por causa de seu domínio, pois Ele é o Senhor; pelo exemplo, pois o verdadeiro Filho de Deus Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte (Fl 2, 8); pela utilidade e vantagem: Diante do Senhor, que me escolheu... não só dançarei, mas também me farei mais vil do que me tenho feito, e se rei humilde aos meus olhos, e com isto aparecerei com mais glória diante das escravas (2Rs 6, 22).
4° Paciência nos castigos. Não rejeites, meu filho, a correção do Senhor, nem te agastes quando Ele te castiga, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, como um pai a seu filho querido (Pr 3, 11-12).
-In Orationes Dominicae expos.
se quiser assistir a missa, transmissões diariamente em vários horários.
tentei transmitir a missa, mas além de não saber configurar o obs corretamente, vou tentar resolver para próxima oportunidade a transmissão ser melhor
Já há algum tutorial de como fazer Live stream aqui no Nostr? 😅
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
6 DE JULHO
As utilidades derivadas da consideração de Deus como Criador
1° Por essa meditação, o homem se dirige ao conhecimento da majestade divina; porque o artista se sobressai sobre sua obra. E como Deus é artífice de todas as coisas, segue-se que Ele é mais eminente que todas elas. Por conseguinte, qualquer coisa que pode ser conhecida ou pensada, é menor que o mesmo Deus. Deus é grande e ultrapassa toda a nossa ciência (Jó 36, 26).
2° Por isso o homem se inclina a dar graças. Pois sendo Deus criador de todas as coisas, é certo que tudo o que somos e tudo quanto possuímos procede de Deus, como diz o Apóstolo: Que tens tu, que não tenhas recebido? (1Cor 4, 7). E o Rei Profeta: Do Senhor é a terra e tudo que ela encerra (Sl 23, 1). Por conseguinte, devemos dar-lhe ações de graças.
3º O homem é induzido à paciência nas adversidades. Porque, ainda que toda criatura proceda de Deus, e por isso seja boa segundo sua natureza, se em algo, no entanto, nos prejudica ou causa pena, devemos crer que essa pena procede de Deus, mas não a culpa; pois nenhum mal procede de Deus, senão o que se ordena ao bem. E, portanto, se toda pena que o homem sofre procede de Deus, deve-se suportar pacientemente. As penas purificam os pecados, humilham os réus, impelem os bons ao amor de Deus. Por isso dizia Jó: Se nós recebemos os bens da mão de Deus, por que não havemos de receber também os males? (Jó 2, 10).
4º Esta meditação nos leva a usar retamente as coisas criadas. Porque devemos utilizar as criaturas para o que foram feitas por Deus. Mas as coisas foram feitas com dois fins: para a glória de Deus, Tudo fez o Senhor para si mesmo (Pr 16, 4), isto é, para sua glória; e para utilidade nossa: Essas coisas que o Senhor teu Deus criou para Servir a todas as gentes, que estão debaixo do céu (Dt 4, 19). Devemos, portanto, usar das coisas para a glória de Deus, a fim de agradar-lhe com isso, e para utilidade nossa, isto é, de modo que, usando delas, não cometamos pecado. Tudo é teu, e o que recebemos da tua mão, isso mesmo te oferecemos (1Cr 29, 14). Logo, tudo o que tens, ciência, formosura, tudo deves referi-lo e usá-lo para a glória de Deus.
5° Nos leva ao conhecimento da dignidade humana. Porque Deus fez todas as coisas para o homem, como se diz no Salmo: Sujeitaste todas as coisas debaixo de seus pés (Sl 8, 8), e o homem é mais semelhante a Deus que todas as criaturas, excetuando os anjos. Por isso se lê no Gênesis: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gn 1, 26). Isto não o disse do céu nem das estrelas, senão do homem; porém, não enquanto corpo, senão enquanto alma, que possui vontade livre e é incorruptível, no que se assemelha a Deus mais que as demais criaturas.
Devemos, pois, considerar o homem, depois dos anjos, mais digno que as demais criaturas, e não diminuir de nenhuma maneira nossa dignidade pelo pecado e pelo apetite desordenado das coisas corporais, que são mais vis que nós e foram criadas para nosso serviço; antes, bem devemos conduzir-nos do modo que Deus nos fez. Porque Deus criou o homem para que presidisse a todas as coisas que estão na terra, e para que se sujeitasse a Ele. Devemos, portanto, dominar e presidir às coisas, porém submeter-nos a Deus, obedecer-lhe e servir-lhe, e com isto chegaremos ao gozo de Deus.
- In Symbol
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
5 DE JULHO
A imutabilidade de Deus
1. Existe em Deus uma maneira de ser ou perfeição, segundo a qual é imutável em sua natureza, como Ele mesmo atesta pelo Profeta Malaquias: Eu sou o Senhor, e não mudo (Ml 3, 6). Tudo o que se move adquire com seu movimento alguma coisa e chega àquilo ao que antes não chegava. Porém, sendo Deus infinito, e compreendendo em si mesmo toda a plenitude de perfeição de todo ser, nada pode adquirir, nem estender-se a nada onde antes não tocara. Por conseguinte, de nenhuma maneira é compatível com Ele o movimento.
É verdade que se diz no Livro da Sabedoria: A sabedoria é mais ágil que todo o movimento (Sb 7, 24). Porém se diz que a sabedoria é móvel por participação, em atenção a que esta Sabedoria difunde sua semelhança até o último dos seres; pois nada pode existir que não proceda em similitude da divina sabedoria, como de seu primeiro princípio efetivo e formal, ao modo com que também as obras de arte procedem da sabedoria do artista. Assim, pois, enquanto a semelhança da divina sabedoria procede gradualmente desde as criaturas superiores que mais participam de sua semelhança, até as coisas inferiores, que participam menos, se diz que há certa processão ou movimento da divina sabedoria às coisas; como se disséssemos que o sol baixa à terra, porquanto o raio de sua luz alcança e toca a terra.
Em sentido metafórico, usam-se estas palavras na Escritura: Aproximai-vos de Deus, e Ele se aproximará de vós (Tg 4, 8). Pois, assim como se diz que o sol entra em uma casa e sai dela, para indicar que seu raio chega até a casa, do mesmo modo se diz que Deus aproxima-se de nós ou afasta-se de nós para indicar que experimentamos influência de sua bondade ou nos separamos d'Ele.
- S. Th. Iª, q. 9, a. 1
II. Também nós devemos procurar, para constância da alma, sermos imutáveis no bem e não nos apartarmos do caminho da retidão, nem nos vergarmos pelas adversidades, nem nos deixar seduzir pela prosperidade. Porém, ah, somos excessivamente inconstantes nas santas meditações, nos afetos ordenados, na seguridade da consciência, na reta vontade. Ah!, quão subitamente nos mudamos do bem ao mal; da esperança ao temor injusto; e pelo contrário: do gozo à dor injusta; da taciturnidade à loquacidade; da circunspecção à leviandade; da caridade ao rancor ou à inveja; do fervor à secura; da humildade à vanglória ou à soberba; da mansidão à ira; da alegria e do amor espiritual ao carnal. E isso de tal modo que nunca permanecemos estáveis um só momento no mesmo estado, senão que somos constantes na inconstância, na infidelidade, na ingratidão, nos defeitos espirituais, na imperfeição, na perda de tempo, nas insensatezes, nos pensamentos e afetos impudicos. A instabilidade dos sentidos e dos membros exteriores acusa a mutabilidade dos afetos e dos movimentos interiores. Esforcemo-nos nestas coisas razoavelmente, e conduzamo-nos com igualdade e freqüentemente de um mesmo modo, isto é, com maturidade e benignidade no repouso e na maneira de andar, e em toda nossa vida.
- De Divinis Moribus
MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
4 DE JULHO
A presença de Deus em todas as partes
1° Deus está em todas as coisas, não como parte de sua essência ou como acidente, senão como um agente está naquilo em que faz. Sendo Deus ser por essência, é necessário que o ser criado seja seu efeito mais próprio, como queimar é o efeito próprio do fogo. Deus produz esse efeito nas coisas, não somente no primeiro momento de sua existência, senão também enquanto as conserva no ser, tal como a luz é produzida no ar pelo sol, enquanto o ar está iluminado. Logo, enquanto subsistir uma coisa, é necessário que Deus lhe esteja presente, conforme o modo de existência próprio dela. Ora, o ser é o que de mais íntimo tem uma coisa e o que de mais profundo existe em todas as coisas; pois, comporta-se como forma em relação a tudo o que na coisa existe, conforme no sobredito se colhe. Logo, é necessário que Deus esteja, e intimamente, em todas as coisas.
2º Está em todo lugar, quer dizer, em todas as partes, como diz a Escritura: Porventura não encho eu o céu e a terra, diz o Senhor? (Jr 23, 24). Assim como Deus está em todas as coisas, dando-lhes o ser, a virtude e a ação, do mesmo modo está em todo lugar, dando-lhe o ser e a virtude locativa. Mais. Preenche todos os lugares porque dá o ser a todos os lugares. Estar em todas as partes convém por si e primariamente a Deus e é coisa propriamente sua, porque, sejam quais forem os lugares que se ponham, é necessário que Deus esteja em cada um deles, não como parte, senão segundo seu próprio ser.
3º Deus está em todo lugar por essência, presença e potencia. Diz-se que Deus está em alguma coisa de duas maneiras: primeiro, como causa agente, e assim está em todas as coisas criadas por Ele; segundo, como objeto de operação no operante, o qual é próprio das operações da alma, porquanto o objeto conhecido está no cognoscente, e o desejado no que deseja. É desta segunda maneira que Deus está especialmente na criatura racional, que o conhece e ama atual e habitualmente. E como a criatura racional obtém isto pela graça, diz-se, neste sentido, que está por graça nos santos.
Mas para saber como está nas outras coisas criadas por Ele, é preciso examiná-lo por analogia com as coisas humanas. Diz-se que um rei está em todo o reino por seu poder, ainda que não esteja presente em todas as partes. Diz-se que uma coisa está presente em todas as coisas que estão ante o seu olhar, igual que de todas as coisas que estão em uma casa se diz que estão presentes em alguém; o qual, no entanto, não está substancialmente em cada parte da casa. Diz-se que uma coisa está essencialmente em um lugar no qual sua substância existe.
Por conseguinte, Deus está por potência em tudo, porque tudo está submetido a seu poder; está em tudo por presença, porque tudo está descoberto a seus olhos; e está em tudo por essência, porque se encontra presente em todas as coisas como causa de seu ser.
-S. Th Iª, q. 8, a. 1, 2 e 3
MEDITAÇÕES PARA EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
- 17° DIA -
A fidelidade
Sê fiel até à morte, e eu te darei a coroa da vida (Ap 2, 10).
1° Sê fiel equivale a "guardar a fé". Como se dissesse: sê sempre fiel, conserva a fé ou a fidelidade, como a esposa a seu marido, como o servo a seu senhor, como o amigo a seu amigo. A fé que deve a esposa ao marido é que não se una a nenhum outro. Dela diz Oséias: Desposar-me-ei contigo com uma inviolável fidelidade (Os 2, 20).
A fé que deve o servo a seu senhor consiste em que recolha bem seus bens, os guarde bem e os administre bem. Dessa fé se diz no Evangelho de São Lucas: Quem é o despenseiro fiel e prudente? (Lc 12, 42). E na Primeira Carta aos Coríntios se diz: Ora o que se requer nos despenseiros é que sejam fiéis (1Cor 4, 2).
A fé que deve o amigo a seu amigo é que esteja unido a ele em todo tempo, e não o abandone no tempo da necessidade. Dela diz o Eclesiástico: O amigo fiel é uma forte proteção; quem o encontrou, encontrou um tesouro (Eclo 6, 14). Não existe nenhuma comparação para o amigo fiel. E não há ouro nem prata que possa valer a bondade de sua fidelidade. Até à morte. Como se dissesse: "mesmo para evitar a morte não traias tua fé". Peleja até à morte pela justiça (Eclo 4, 33).
2º E eu te darei a coroa da vida, quer dizer, a vida interminável, ou a vida régia; a coroa da vida, equivale também à honra que vive sempre, e à qual não há coroa no mundo que possa comparar-se. Desta coroa mundana diz o Livro da Sabedoria: Coroemo-nos de rosas, antes que murchem (Sb 2, 8), quer dizer, de honra mundana que breve há de perecer. E no Livro de Isaías se lê: Ai da coroa soberba dos embriagados de Efraim, da flor caduca (Is 28, 1). As rosas ou flores com que se faz a coroa são as riquezas temporais, as delícias carnais, as honras mundanas. Delas diz o Profeta Jeremias: Dai flores a Moab (Jr 48, 9), porque brotará a flor sem levar fruto algum. Esta é a coroa que dá o mundo a seus vencedores. A primeira é a que dá Cristo aos seus.
- In Apoc., XI


