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Petra Veritatis
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MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

25 DE JULHO

O sacramento da Penitência

Se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo (Lc 13, 3).

É absolutamente necessário para a salvação aquilo sem o qual ninguém pode alcançá-la, como a graça de Cristo e o sacramento do Batismo, pelo qual se renasce em Cristo. O sacramento da Penitência é necessário hipoteticamente, porque não é necessário a todos, senão unicamente aos que estão sujeitos ao pecado, pois se diz que o pecado, quando tiver sido consumado, gera a morte (Tg 1, 15). E, por conseguinte, é necessário para a salvação do pecador que o pecado seja apartado dele, o qual não pode verificar-se sem o sacramento, juntamente com o qual se opera a virtude da Paixão de Cristo pela absolvição do sacerdote juntamente com a ação do penitente que coopera com a graça para a destruição do pecado; pois, como diz Santo Agostinho: "O que te criou sem ti, não te justificará sem ti". É, portanto, evidente que o sacramento da Penitência é necessário para a salvação depois do pecado, como o remédio corporal o é depois que o homem cai em uma enfermidade perigosa.

Retamente diz São Jerônimo que a penitência é a segunda tábua depois do naufrágio. Porque assim como o primeiro remédio para os que passam o mar está em que se mantenham dentro da nave íntegra, e o segundo remédio, depois de destroçada a nave, é apegar-se a uma tábua, assim também o primeiro remédio no mar desta vida é que o homem conserve a integridade; e o segundo é que, se pelo pecado houver perdido a integridade, recobre-a pela penitência.

Certamente se lê nos Provérbios: A caridade cobre todas as faltas (Pr 10, 12), e mais abaixo: Pela misericórdia e pela fé se purgam os pecados (Pr 15, 27), Porém desde o momento que alguém incorre no pecado, a caridade, a fé e a misericórdia não livram o homem do pecado sem a penitência, porque a caridade requer que o homem se doa da ofensa cometida contra o amigo, e que procure com empenho satisfazer-lhe. Requer também a fé que, por virtude da Paixão de Cristo, que opera nos sacramentos da Igreja, procure justificar-se de seus pecados; e requer também a misericórdia ordenada que o homem, arrependendo-se, preste auxílio à sua própria miséria, na que incorre pelo pecado, segundo aquilo da Escritura: O pecado torna miseráveis os povos (Pr 14, 34). Pelo que diz o Eclesiástico: Tem piedade da tua alma, procurando agradar a Deus (Eclo 30, 24).

-S. Th. Iª IIæ, q. 84, a. 5, 6

July 24 is the feast of the Blessed Martyrs of Daimiel: 26 Passionist priests and brothers murdered by the Reds during the Spanish Civil War.

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

24 DE JULHO

A felicidade não se deve buscar nesta vida

Esta felicidade não pode ser encontrada:

I. No pecado. Porque o pecado atrapalha como uma carga. Fardos que os fatigam por causa do seu grande peso (Is 46, 1). Efetivamente o pecado atrapalha:

Pela solicitude em pensar como vão pecar. Porque os maus não dormem, sem terem feito mal (Pr 4, 16).

Pelo trabalho na execução. Cansamo-nos nas sendas da iniqüidade e da perdição (Sb 5, 7).

Pela confusão ao examinar a consciência. Que fruto tirastes então daquelas coisas, de que agora vos envergonhais? (Rm 6, 21).

Pelo fracasso na esperança. A esperança dos iníquos é aniquilada (Pr 11, 7).

- In Is., XLVI

II. A felicidade não se encontra nos deleites corporais. Porque a suprema perfeição do homem não pode consistir em que se una a coisas inferiores a ele, senão em unir-se a coisas mais altas; pois o fim é melhor que o que se ordena ao fim. Pois bem, os deleites corporais consistem em que o homem segundo os sentidos se una a algo inferior a ele, quer dizer, a coisas sensíveis.

Ademais, se os deleites corporais fossem bons em si, seria necessário que fosse muito bom usar deles o mais possível. Porém é evidente que isto é falso; porque o abuso deles é um vício, prejudicial ao corpo, e impede os mencionados deleites. Por conseguinte, não são em si mesmos um bem para o homem.

Por outro lado, o último fim é Deus; portanto é preciso estabelecer como último fim do homem aquele que mais lhe aproxima de Deus. Pois bem, os deleites corporais impedem ao homem a suprema aproximação de Deus, que se verifica pela contemplação. Estes deleites a impedem em grande medida, porque submergem profundamente o homem nas coisas sensíveis, e por conseguinte o retraem das coisas espirituais. Não deve, portanto, colocar-se a felicidade humana nos deleites corporais.

- Contra Gentiles, lib. 1, cap. 3

III. Nesta vida não se encontra a felicidade. Isto o demonstraremos por duas considerações:

Primeiro, pela razão mesma da bem-aventurança. Porque sendo a bem-aventurança o bem perfeito e suficiente, exclui todo mal e sacia todo desejo; porém nesta vida é impossível subtrair-se de todo mal, como que está sujeita a muitos males inevitáveis, seja de ignorância por parte do entendimento, seja de desordenado afeto no apetite, como também muitas penalidades no corpo. Tampouco é possível saciar nesta vida o desejo do bem, porquanto o homem deseja naturalmente a permanência do bem que possui; e os bens da vida são transitórios, como o é a vida mesma, que nós naturalmente possuímos e quiséramos prolongar à perpetuidade, posto que todo homem recusa naturalmente a morte. Por conseguinte, é impossível obter nesta vida a bem-aventurança propriamente como tal.

Segundo, se consideramos em que consiste especialmente a bem-aventurança, quer dizer, a visão da divina essência, é inacessível ao homem nesta vida. Tudo isto prova evidentemente que ninguém nesta vida pode alcançar a verdadeira e perfeita bem-aventurança.

Alguns se dizem bem-aventurados nesta vida, ou pela esperança de lograr a bem-aventurança na vida futura, segundo o que diz o Apóstolo: Na esperança é que fomos salvos (Rm 8, 24); ou por alguma participação da bem-aventurança em certa fruição do sumo bem.

-S. Th. Iª IIæ, q. 5 a. 3

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

23 DE JULHO

A grandeza moral ou social da pessoa que peca agrava o pecado

Existem duas classes de pecados. Uma que provém sub-repticiamente, por debilidade da natureza humana; e tal pecado se imputa menos ao que possui virtude em maior grau, porque descuida menos o reprimir semelhantes pecados, aos que, no entanto, a debilidade humana não permite evitar de todo. Outros pecados procedem de deliberação, e se imputam tanto mais a alguém quanto maior seja. E isto pode ser por quatro razões:

Primeiro, porque os maiores podem resistir mais facilmente ao pecado, por exemplo, os que avantajam aos demais em ciência e em virtude; pelo que diz o Senhor: Aquele servo, que conheceu a vontade do seu senhor, e nada preparou, e não procedeu conforme a sua vontade, levará muitos açoutes (Lc 12, 47).

Segundo, pela ingratidão, porque todo bem com que alguém se engrandece é beneficio de Deus, a quem o homem se faz ingrato pecando; e quanto a isto, certa supremacia, mesmo nos bens temporais, agrava o pecado, conforme àquela sentença do Livro da Sabedoria: Os poderosos serão poderosamente atormentados (Sb 6, 7).

Terceiro, por especial repugnância do ato do pecado à grandeza da pessoa, como se um príncipe, que está constituído em custódio da justiça, a violara, e o sacerdote, que tem feito o voto de castidade, fornicara.

Quarto, por conta do exemplo ou escândalo, porque como diz São Gregório: "A culpa se estende veementemente ao exemplo, quando o pecador é honrado pela reverência de sua posição".

Mas, se Deus castiga mais os maiores por um só e mesmo pecado, não faz nisso acepção de pessoas, porque a superioridade dos mesmos influi na gravidade do pecado.

-S. Th. Iª IIæ, q. 73, a. 10

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MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

22 DE JULHO

O pecado se agrava segundo a condição da pessoa contra quem se peca

Na Sagrada Escritura se vitupera especialmente o pecado que se comete contra os servos de Deus; também o pecado cometido contra os parentes; e por último o pecado que se comete contra as pessoas constituídas em dignidade.

A pessoa contra a qual se peca é, em certo modo, objeto do pecado. A primeira gravidade do pecado se considera por parte do objeto; e em atenção a este se computa tanto maior a gravidade no pecado, quanto mais principal seja o fim de seu objeto. Mas os fins principais dos atos humanos são Deus, o próprio homem, e o próximo; já que tudo o que fazemos o referimos a algum destes três, mesmo que também cada um destes três esteja subordinado ao outro. Pode, pois, considerar-se maior ou menor a gravidade no pecado, segundo a condição da pessoa contra quem se peca.

Primeiro, por parte de Deus, a quem tanto mais se une o homem quanto mais virtuoso seja e mais consagrado a Deus esteja; e, portanto, a injúria inferida a tal pessoa redunda mais contrária a Deus, segundo aquilo: aquele que tocar em vós, toca na menina dos seus olhos (Zc 2, 8). Por conseguinte, o pecado se faz mais grave quando se peca contra uma pessoa mais unida a Deus por sua virtude ou por razão de seu oficio.

Segundo, da parte de si mesmo é manifesto que se peca tanto mais gravemente quanto mais pecar contra pessoa a ele unida, ou por razão de parentesco natural, ou por benefícios ou por qualquer outra união, porque parece que peca mais contra si mesmo, e portanto peca mais gravemente, segundo consta no Eclesiástico: Para quem será bom aquele que é mau para si? (Eclo 14, 5).

Terceiro, por parte do próximo, peca-se tanto mais gravemente quanto maior for o número dos que afete o pecado, e portanto o pecado que se comete contra pessoa pública, por exemplo, contra o rei ou o príncipe, que representam em sua pessoa a toda a multidão, é mais grave que o pecado que se comete contra uma só pessoa privada. Pelo que se diz especialmente: Não amaldiçoarás o príncipe do teu povo (Ex 22, 28). E do mesmo modo a injúria que se faz a alguma pessoa insigne, parece ser mais grave porque redunda em escândalo e perturbação de muitos.

-S. Th. Iª IIæ, q. 73, a.9

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

21 DE JULHO

O que peca por malícia peca mais gravemente que o que peca por paixão

O pecado que por cálculo se comete, por este mesmo merece pena mais grave, segundo aquilo de Jó: Feriu-os como ímpios à vista de todos. Esses que, como de propósito, se apartaram d'Ele (Jó 34, 26). E assim como o castigo não aumenta senão pela gravidade da culpa; logo o pecado se agrava por ser de propósito ou com malícia certa.

O pecado que procede de malícia certa é mais grave que o que se comete por paixão, por três razões:

Primeiro, porque, consistindo principalmente o pecado na vontade, quanto mais próprio da vontade seja o movimento do pecado, tanto mais grave será o pecado em igualdade de circunstância; porém, quando se peca por malícia certa, o movimento do pecado é mais próprio da vontade que por si mesma se move ao mal, que quando se peca por paixão, quer dizer, como por certo impulso extrínseco a pecar; e assim o pecado, pelo mesmo que procede de malícia, agrava-se tanto mais quanto mais veemente for a malícia, e, sendo por paixão, tanto mais se diminui quanto mais violenta for a paixão.

Segundo, porque a paixão, que inclina a vontade ao pecado, passa rápido; e assim o homem retorna prontamente ao bom propósito, arrependendo-se do pecado; porém o hábito com que o homem peca por malícia é uma qualidade permanente; e, portanto, quem peca por malícia, peca com mais persistência. Pelo que o Filósofo compara ao intemperante, que sofre continuamente; e ao incontinente, que peca por paixão, com o que padece a intervalos.

Terceiro, porque quem peca por malícia certa está maldisposto quanto ao mesmo fim, que é o princípio no operável; e assim seu efeito é mais perigoso no operável; e assim seu efeito é mais perigoso que o daquele que peca por paixão, cujo propósito tende a um bom fim, ainda quando este propósito se interrompa transitoriamente por causa da paixão. Porém, sempre o defeito de princípio é péssimo; e, portanto, é evidente que é mais grave o pecado que procede da malícia que o que procede da paixão.

Ademais, o impulso que procede da paixão é como por defeito exterior da vontade; mas pelo hábito a vontade é inclinada como que de dentro. O que peca por paixão peca, certamente, escolhendo, porém não por escolha, toda vez que a escolha não é nele o primeiro princípio do pecado, senão que é induzido pela paixão a escolher o que, livre de paixão, não escolheria. Mas o que peca por malícia certa, escolhe de per se o mal e, portanto, a escolha que há nele é princípio de pecado, e por isto se diz que peca por escolha.

-S. Th. Iª IIæ, q. 78, a. 4

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

20 DE JULHO

Os pecados espirituais

Os pecados espirituais são de maior culpa que os pecados carnais; no qual não deve entender-se que qualquer pecado espiritual é de maior culpa que qualquer pecado carnal; senão que, considerada somente esta diferença de espiritualidade e carnalidade, são mais graves os espirituais que os carnais em igualdade de circunstâncias.

Disto podem destacar-se três razões:

A primeira de parte do sujeito, porque os pecados espirituais pertencem ao espírito, ao qual é próprio dirigir-se a Deus e apartar-se d'Ele; mas os pecados carnais se consumam no deleite do apetite carnal, ao qual corresponde principalmente dirigir-se ao bem corporal; e por conseguinte o pecado carnal, como tal, tem mais de conversão, pelo que também é de maior adesão; porém o pecado espiritual tem mais de aversão, da qual procede a razão de culpa; e, pela mesma razão, o pecado espiritual, como tal, é de maior culpa.

A segunda razão pode tomar-se de parte daquele contra quem se peca; porque o pecado carnal, como tal, vai contra o próprio corpo, o que é menos digno de amor, segundo a ordem da caridade, que Deus e o próximo, contra os quais se peca pelos pecados espirituais; e assim estes, como tais, são de maior culpa.

A terceira razão pode tirar-se do motivo, porque quanto mais grave é o que impulsiona a pecar, tanto menos peca o homem; mas os pecados carnais têm mais veemente incitativo, que é a mesma concupiscência da carne, inata em nós, e por conseguinte os pecados espirituais, como tais, são de maior culpa.

É certo, como disse Santo Agostinho, que o Diabo se goza muito do pecado de luxúria, não porque seja mais grave, senão porque é de máxima aderência, e dificilmente pode ser arrancado dele o homem; pois o apetite deleitável é insaciável.

Porém que os pecados carnais sejam de maior infâmia, não quer dizer que sejam mais graves. Pois é mais torpe ser incontinente de concupiscência que incontinente de ira, já que participa menos da razão; e os pecados de intemperança são em grande maneira reprováveis, porque têm por objeto aqueles deleites que nos são comuns com as bestas; pelo que, de certo modo, por esses pecados o homem se torna brutal; e daí provém que, como disse São Gregório, sejam de maior infâmia.

- S. Th. Iª IIæ, q. 73, a. 5

Monsenhor Rodrigo na missão católica no México, celebrações do dia de Nossa Senhora do Carmo.

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

19 DE JULHO

O pecado mortal obriga à pena eterna

Esses irão para o suplício eterno (Mt 25, 46).

I. Por três razões se diz que o pecado mortal obriga à pena eterna.

1° Por parte daquele contra o qual se peca, que é infinitamente grande, isto é, Deus. Por conseguinte, a ofensa contra Ele merece pena infinita, pois quanto mais digno é aquele contra quem se peca, mais gravemente deve ser castigado o pecado.

2° Porque parte da vontade do pecador. Pois consta que quem peca mortalmente põe seu fim no objeto de seu pecado e do prazer que nele busca. Mas é evidente que quem ama sumamente uma coisa como fim de sua vontade, queira, pelo mesmo, aderir-se sempre a ela; e, portanto, quem mortalmente peca com aquele ato da vontade com que escolheu o pecado mortal, escolheu assim mesmo aderir-se sempre ao pecado, a não ser que acidentalmente se retraia, seja pelo temor da pena, seja por outra coisa parecida. Porém, se pudera aderir-se infinitamente, quem peca eternamente merece uma pena eterna.

3° Por parte do estado do que peca mortalmente, o qual é privado da graça pelo pecado. Pelo qual, como sem a graça não poderia ter lugar o perdão da culpa, se morre em pecado mortal, sempre permanecerá na culpa, pois ulteriormente não será já capaz de receber a graça. Ao subsistir a culpa, fica sujeito para sempre à pena, já que, em caso contrário, permaneceria uma coisa desordenada no universo.

— 2, Dist., 42, q. 1, a. 5

II. De que o pecado tenha sido uma coisa temporal não se segue que só deva ser castigado com pena temporal. Porque o rigor da pena é proporcional ao pecado, tanto no juízo divino quanto no humano. Porém, como disse Santo Agostinho, em nenhum juízo se requer que a pena seja igual à culpa em duração; pois não é porque o adultério ou o homicídio se cometam em um momento, que se deve castigá-los com uma pena momentânea, senão que umas vezes com cárcere perpétuo ou desterro, e outras vezes com a morte; na que não se considera a duração do assassinato, e sim o ser perpetuamente arrancado da sociedade dos viventes; e assim representa a seu modo a eternidade da pena divinamente imposta.

É justo, segundo São Gregório, que quem pecou em seu eterno contra Deus seja castigado no eterno de Deus; e se diz que alguém peca em seu eterno não somente pela continuação do ato durante toda a vida do homem, senão porque no feito mesmo de reduzir seu fim ao pecado, tem vontade de pecar eternamente. Pelo qual diz São Gregório "que os pecadores quiseram viver sem fim, para poder perseverar sem fim em suas iniquidades".

-S. Th. Iª IIæ, q. 87, a. 3 ad 1um

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

18 DE JULHO

A diferença entre o pecado venial e o pecado mortal

I. A diferença entre pecado venial e mortal é conseqüência da diversidade de desordem que completa a razão do pecado; porque há duas classes de desordem: uma pela subtração do princípio de ordem, e outra pela qual, mesmo salvo o princípio de ordem, há desordem acerca do posterior ao princípio; como no corpo do animal às vezes o desconcerto da constituição chega à destruição do princípio vital, que é al morte; em outras, porém, salvo o princípio da vida, há certa desordem nos humores, o que constitui a enfermidade.

II. O princípio de toda ordem na esfera moral é o fim último, que nas coisas operativas é como o princípio indemonstrável nas especulativas; e, por conseguinte, quando a alma se desordena pelo pecado até apartar-se do último fim, que é Deus, a quem se une pela caridade, então há pecado mortal; porém, quando a desordem não chega até a aversão a Deus, então há pecado venial. Pois assim como nos corpos a desordem da morte, que se verifica pela remoção do princípio de vida, é irreparável por natureza, porém a desordem da enfermidade pode reparar-se por aqueles meios com que se salva o princípio da vida; assim também sucede nas coisas que tocam a alma, posto que, nas coisas especulativas, ao que erra acerca dos princípios não se lhe pode persuadir, porém ao que erra salvando os princípios, pelos mesmos princípios se lhe pode tirar de seu erro.

Do mesmo modo ocorre nas coisas práticas; o que pecando se aparta do último fim, porquanto é da natureza do pecado, tem uma queda irreparável, e por isso se diz que peca mortalmente, e deve ser castigado eternamente. Mas o que peca sem apartar-se de todo de Deus, pela mesma razão do pecado se desordena reparavelmente, porque se salva o princípio; e portanto se diz que peca venialmente, quer dizer, porque não peca de modo que mereça pena interminável.

- S. Th. Iª IIæ, q. 72, a. 5

III. O pecado mortal é, por um lado, semelhante à morte, e por outro, semelhante à enfermidade. Enquanto separa de Deus, que é a vida, tem semelhança de morte, e esta é a morte primeira. Porém, porquanto deixa uma possibilidade de retornar à vida, tem semelhança de enfermidade, a qual conduz à morte da condenação, que é a morte segunda. Esta retém semelhança absoluta com a morte, já que por ela o homem se separa de Deus, e é impossível o regresso à vida da graça. Pois assim como nas enfermidades corporais umas são curáveis e outras não (enquanto depende da natureza da enfermidade) e estas últimas se chamam enfermidades mortais, assim também os pecados, uns são mortais pois de per se são imperdoáveis. Diz-se que o pecado é mortal por razão da morte primeira; e também pecado para a morte, por razão da morte segunda.

-2, Dist. 43, q. 1, a. 3

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

17 DE JULHO

O reato da pena é efeito do pecado

Diz-se na Epístola aos Romanos: tribulação e angústia para a alma de todo o homem que faz o mal (Rm 2, 9). Agir mal é pecar. Logo o pecado leva anexa a pena que se designa com o nome de tribulação e angústia.

Das coisas naturais deriva-se às coisas humanas a seguinte lei: o que age contra algo sofre detrimento dele. Vemos, com efeito, nas coisas naturais, que um contrário reage com maior veemência quando sobrevém outro contrário; daí que nos homens se ache por inclinação natural que cada um abata ao que lhe contraria. Porém é evidente que quantas coisas se contêm dentro de uma ordem são em certo modo uma só em ordem ao princípio de ordem; assim, pois, o que contraria a alguma ordem, é consequente que seja abatido por aquela ordem e pelo princípio de ordem.

Portanto, sendo o pecado um ato desordenado, é manifesto que todo aquele que peca age contra alguma ordem; e portanto é conseqüente que seja abatido pela mesma ordem, o qual abatimento, certamente, é uma pena. Assim, pois, segundo três ordens a que está submetida a vontade humana, pode ser castigado o homem com três penas; porque a natureza humana está submetida: primeiro, à ordem da própria razão; segundo, à ordem de um homem exterior, que governa espiritualmente ou temporalmente, política ou economicamente; terceiro, à ordem universal do regímen divino; e cada uma destas três ordens se subverte pelo pecado, pois o que peca age contra a razão, contra a lei humana e contra a lei divina, e por isso incorre em três penas: uma, por si mesmo, que é o remorso da consciência; outra pelo homem; e a terceira, da parte de Deus.

-S. Th. Iª IIæ, q. 87 a. 1

MEDITAÇÕES PARA O TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

VIA PURGATIVA

15 DE JULHO

A mancha do pecado

1. Diz-se propriamente que um corpo tem mancha quando de brilhante que era torna-se sem brilho pelo contato com outro corpo, como o vestido e o ouro, a prata e outros semelhantes; e por analogia pode-se dizer que há mancha nas coisas espirituais. Pois bem, a alma do homem possui um duplo brilho, seja pelo esplendor da luz da razão natural, pelo qual se rege em seus atos; seja pela resplandecência da luz divina, quer dizer, da sabedoria e da graça, pela qual também se aperfeiçoa o homem para agir bem e decentemente. Porém existe como que certo contato da alma, quando se apega a algumas coisas pelo amor. Quando peca, apega-se a algumas coisas contra a luz da razão e da lei divina; pelo que o detrimento do brilho, proveniente de tal contato, chama-se metaforicamente mancha da alma.

- S. Th. Iª IIæ, q. 86, a. 1

Uma coisa se diz manchada quando padece detrimento na formosura que deveria ter; pelo que a mancha, nesse sentido, não tem algo positivo, senão que, com respeito ao dano que causa à beleza, diz-se que produz algum efeito; igual que uma coisa colocada no rosto tira ou esconde a candura do mesmo. Pois bem, a beleza da alma consiste na semelhança que deve ter com Deus, pela claridade da graça recebida d'Ele. E assim como a claridade corporal do sol será interceptada de nós por qualquer obstáculo que esteja interposto, assim também a claridade da graça é subtraída à alma pelo pecado cometido, que se interpõe entre Deus e nós.

A luz da graça dirige a inteligência e move a vontade, mas o pecado introduz um defeito em ambas faculdades: na inteligência, porque todo pecado procede do erro; na vontade, porque todo pecado está na vontade. E, por conseguinte, a mancha afeta a inteligência e a vontade, mas esta principalmente.

- 4, Dist., 18, q. 1, a. 2

II. A mancha do pecado permanece na alma, depois do ato de pecado, porque a mancha importa certo defeito de resplendor, por causa do recesso da luz da razão ou da lei divina; e, portanto, enquanto o homem permanece fora dessa luz, fica nele a mancha do pecado; mas depois que retorna à luz da razão e à luz divina, o qual se verifica pela graça, então cessa a mancha. Porém ainda que cesse o ato do pecado, pelo qual o homem se aleijou da luz da razão ou da lei divina, o homem não retorna, no entanto, imediatamente ao estado em que se achava, senão que se requer algum movimento da vontade, contrário ao primeiro movimento; como quando alguém, distante de outro por algum movimento, não se aproxima deste alguém imediatamente depois de cessar o movimento, senão que é necessário que se lhe acerque voltando pelo movimento contrário.

- S. Th. Iª IIæ, q. 89, a. 2

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VIA PURGATIVA

14 DE JULHO

As enfermidades do pecado

Jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos, os quais esperavam o movimento da água (Jo 5, 3).

Aqui se descrevem as enfermidades do pecado.

I. Quanto à posição, pois jaziam prostrados, quer dizer, ao rés-do-chão pelos pecados; o que se faz pondo-se totalmente na terra. São Mateus diz que Jesus compadeceu-se delas (das multidões), porque estavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mt 9, 36). Os justos, ao contrário, não jazem, senão que estão de pé, voltados para o celestial. Eles vacilaram e caíram, mas nós (os justos) conservamo-nos de pé e permanecemos firmes (SI 19, 9).

II. Quanto ao número, posto que são muitos. Por isso diz: multidão. E no Eclesiastes se lêem estas palavras: Os perversos dificultosamente se corrigem, e o número dos insensatos é infinito (Ecl 1, 15). E São Mateus acrescenta: Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela (Mt 7, 13).

III. Quanto à disposição ou hábito dos enfermos; aqui se põem quatro coisas nas que incorre o homem pelo pecado:

1° Pelo feito de submeter-se o homem às paixões dos pecados dominantes, torna-se enfermo, e quanto a isso, diz: de enfermos. Pelo que Cícero chama enfermidades da alma às paixões da mesma, como a ira, a concupiscência, etc. Por isso dizia o Profeta: Tem piedade de mim, Senhor, porque sou enfermo (S1 6, 3).

2º Pelo domínio das paixões e sua vitória sobre o homem, cega-se a razão pelo consentimento, e neste sentido deve tomar-se a expressão: de cegos, quer dizer, pelos pecados, segundo aquilo do Livro da Sabedoria: A sua malícia os cegou. (Sb 2, 21), e do Salmo: Caiu fogo do alto, e não viram o sol (SI 57, 9).

3º O homem enfermo e cego se faz inconstante em suas obras e está quase coxo. Por isso se expressa nos Provérbios: A obra do ímpio não subsiste (Pr 11, 18), E se lhes chama coxos segundo se lê no terceiro Livros dos Reis: Até quando claudicareis vós para dois lados? (3Rs 18, 21).

4° Enfermo o homem dessa maneira, cego de entendimento, coxo nas obras, faz-se árido no afeto! porquanto resseca-se em toda a suavidade da devoção que pedia o Profeta dizendo: Como de banha e de gordura será saciada a minha alma (SI 62, 6). A este!!! se lhes chama paralíticos. Deles diz o Salmo: A minha garganta secou-se como barro cozido, e a minha língua pegou-se ao meu paladar, reduziste-me ao pó da morte (Sl 21, 16).

Porém há outros, de tal modo afetados pela enfermidade do pecado, que não esperam o movimento da água, descansando em seus pecados, segundo aquilo da Escritura: Vivendo em grande guerra de ignorância, deram o nome de paz a tão grandes males (Sb 14, 22). Destes se diz: que se alegram por terem feito o mal e se regozijam na perversidade (Pr 2, 14). A razão é que não têm horror do pecado, nem pecam por ignorância ou debilidade, senão que por uma malícia evidente.

Mas estes enfermos, como não pecam por malícia, não descansavam nos pecados, mas antes esperavam com desejo o movimento da água. Por isso acrescenta: esperavam.

-In Joan., V